Título: Econometria vê vitória democrata
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Fonte: Valor Econômico, 26/03/2008, Internacional, p. A12
Há sete meses das eleições nos EUA, a crescente retomada de residências por falta de pagamento, o encolhimento do patrimônio das família e a gasolina perto do recorde de US$ 4 por galão são lembretes diários de que a economia americana pode estar em sua pior situação em quase 30 anos.
Ainda que uma recuperação comece no segundo semestre, a população não sentirá a diferença senão bem mais tarde. É por isso que, quando o país for às urnas, em 4 de novembro, os republicanos, que controlam a Casa Branca desde 2001 e controlaram Congresso durante boa parte desse período, terão cedido uma vantagem crucial aos democratas.
Recessões influíram decisivamente em quatro disputas presidenciais no último meio século - em 1960, 76, 80 e 92. Em cada caso, o candidato da oposição à Casa Branca venceu. Um modelo que emprega dados econômicos para prever o resultado de disputas presidenciais sugere que os democratas receberão 52% dos votos para os dois principais partidos, diz Ray Fair, professor da Universidade Yale que desenvolveu o modelo econométrico.
"O ambiente econômico, com base nos dados que já examinei, é o mais poderoso indicador de como será o desempenho do partido no poder", diz Jody Powell, importante assessor de Jimmy Carter. Ele fala com experiência: foi vitorioso na campanha presidencial de Carter em 1976 e perdeu para Ronald Reagan em 1980, em eleições posicionadas entre duas recessões. "A economia provavelmente será a questão dominante neste ano."
Não é só a história que está a favor dos democratas Hillary Clinton ou Barack Obama, na campanha contra o republicano John McCain. A questão econômica "não é algo que compreendi tão bem quanto deveria", disse McCain, de 71 anos, em dezembro.
"Se eu fosse do Comitê Nacional Democrata, pegaria essa declaração e a colocaria no ar incessantemente", diz Daniel Clifton, diretor de pesquisa de políticas na Strategas Research Partners, grupo especializado em estratégias de investimentos, de Washington . "As pessoas vão se perguntar: ´como podemos eleger esse sujeito neste mo-mento de incerteza econômica´"?
A maioria dos americanos acredita que os EUA já estão em recessão, segundo pesquisa. Metade dos entrevistados diz que a economia continuará em más condições daqui a seis meses, e 27% disseram que a situação estará pior. A confiança do consumidor caiu, neste mês, para o menor nível em 16 anos, segundo um índice preliminar da Universidade de Michigan.
"Toda essa mensagem de ´mudança´ está funcionando pois nada está funcionando", diz Clifton.
Muitos eleitores estão sofrendo com o colapso do mercado de crédito imobiliário de alto risco. Até 2 milhões de famílias terão suas casas retomadas nos próximos três anos, segundo o Centro em Defesa de Empréstimos Responsáveis, organização que combate práticas abusivas de empréstimos.
O preço da gasolina, que deu um salto de US$ 0,71 por galão em um ano, pode romper o patamar de US$ 4 neste segundo semestre, diz o Departamento de Energia.
A poupança para aposentadoria também está sob pressão. O índice S&P 500 caiu 9,5% neste ano. E o preço das residências pode cair até 20% este ano, de seu pico em 2006, segundo a Standard & Poor´s.
É improvável que o desaquecimento econômico cesse antes da eleição, diz Nouriel Roubini, diretor da RGE Monitor, consultoria econômica de Nova York. No segundo semestre, os empregadores provavelmente cortarão mais de 100 mil empregos por mês, diz ele. Os empregadores demitiram pessoal, 63 mil, em fevereiro pelo segundo mês consecutivo, na maior queda em cinco anos, segundo o Departamento do Trabalho.
O programa econômico de John McCain consiste, em boa parte, em manter os cortes de impostos do presidente George Bush, propor uma redução dos impostos sobre empresas e eliminar gastos políticos carimbados pelo Congresso.
O senador do Arizona enfatizou, na semana passada, sua principal preocupação - a política externa - com uma viagem ao Iraque e a outros países do Oriente Médio. Enquanto ele viajava, o Fed (banco central dos EUA) estava tentando salvar o banco Bear Stearns do colapso e intervindo nos mercados.
Seu principal assessor econômico, Douglas Holtz-Eakin, diz não ser tão provável que o partido no poder seja punido por uma recessão quanto alguns acreditam. "Eu não aceito isso tão naturalmente como algumas pessoas. No fim das contas, essa eleição tem a ver com capacidade de liderança".
A promessa de McCain de não elevar impostos e de tornar permanente o corte feito por Bush é a coisa "mais importante no curto prazo", diz Holtz-Eakin, ex-diretor do Birô de Orçamento do Congresso.
Obama e Clinton apresentaram propostas sobre impostos e o mercado imobiliário. Nenhum deles apresentou um plano abrangente para tirar a economia de uma recessão ou posicioná-la para crescimento futuro. Obama, de 46 anos e senador de Illinois, defendeu um corte de impostos de US$ 1 mil para pessoas de renda mais baixa. Hillary, de 60 anos e senadora de Nova York, defendeu uma moratória nas retomadas de residências por inadimplência de mutuários.
Na semana passada, Hillary propôs um plano de US$ 30 bilhões de ajuda a mutuários de casa própria e comunidades abaladas pela alta das retomadas de imóvel por falta de pagamento. Ela e Obama também apóiam plano do senador Christopher Dodd, de Connecticut, pelo qual a Administração Federal de Habitação passaria a dar cobertura de seguros a um maior número de empréstimos habitacionais.
Pela pesquisa Bloomberg, os eleitores acham que Hillary faria um trabalho melhor que McCain no terreno da economia. Mas preferem McCain a Obama nessa área.
Bill Burton, porta-voz de Obama, diz que a guerra no Iraque, os corte de impostos de Bush e a "inexistência de fiscalização" sobre os mercados financeiros prejudicaram a economia. "Esta recessão é o ponto culminante do que ocorreu nos últimos sete anos", diz Burton. McCain "terá muita dificuldade de se distanciar das conseqüências".
Hillary também culpa Bush pelo desaquecimento econômico, acusando-o de "irresponsabilidade fiscal". Sobre o preço do petróleo, disse: "não há senso de urgência ou liderança presidencial".
Mesmo se a economia continuar a crescer moderadamente, diz Fair, da Universidade Yale, seu modelo mostra vitória dos democratas. Uma recessão, diz, agravaria as coisas para os republicanos.
O modelo usa inflação, crescimento econômico e outros dados, como quanto tempo o partido governista está no poder e a taxa de desemprego. As previsões têm margem de erro de 2,5 pontos percentuais, pois Fair diz não dar conta de todas as variáveis. A disputa neste ano, por exemplo, pode ser afetada por racismo ou sexismo.
O modelo de Fair teria previsto corretamente o mais votado em todas as eleições desde 1916, com exceção de três delas. Antes das três eleições mais recentes, ele previu corretamente quem obteria a maioria dos votos, apesar de nem sempre estimar com exatidão a votação dos candidatos.
Em agosto de 1996, ele disse que os dados sugeriam, "com toda convicção", uma estreita vitória de Bill Clinton numa disputa apertadíssima. Clinton conquistou 49,2% do voto popular; o republicano Robert Dole ficou com 40,7%.
Em julho de 2000, Fair previu uma eleição "muito apertada" com "pequena vantagem para os democratas". Al Gore venceu no voto popular, mas Bush obteve mais votos no Colégio Eleitoral e tornou-se presidente. Em julho de 2004, Fair previu que Bush obteria 57,5% dos votos; o resultado foi 51,2%.
(Tradução de Sergio Blum)