Título: Para BC, demanda pode fazer inflação superar taxa prevista
Autor: Ribeiro , Alex
Fonte: Valor Econômico, 28/03/2008, Brasil, p. A7

As projeções de inflação do BC pioraram e praticamente foi eliminada a margem de segurança em relação às metas, mostra o relatório trimestral de inflação, divulgado pelo banco. Também aumentou o risco de o forte aquecimento da economia e a crise internacional fazerem a inflação subir acima do previsto. O relatório de inflação descreve os principais riscos inflacionários que levaram os membros do Copom a avaliar uma alta dos juros básicos na reunião do início do mês, embora a decisão tenha sido pela manutenção da taxa em 11,25% ao ano.

A projeção do relatório para a inflação de 2008, tomando como pressuposto que os juros permaneçam estáveis em 11,25% ao ano, subiu de 4,3% para 4,6% entre dezembro e março. Ou seja, além de piorar, a projeção de inflação já está levemente acima da meta deste ano, fixada em 4,5%.

O dado positivo do relatório é que, embora a projeção de inflação para 2009 tenha subido desde dezembro, de 4,3% para 4,4%, o percentual permanece abaixo da meta, fixada em 4,5%. Assim, as projeções indicam que a aceleração da inflação esperada para este ano, que chega a 4,9% no terceiro trimestre, é apenas transitória - e que o índice de preços retornará à trajetória das metas.

O diretor de Política Econômica do BC, Mário Mesquita, fez questão de reiterar, na apresentação do relatório, que a inflação prevista recua em 2009, apenas porque as projeções do BC tomam como pressuposto uma expectativa de inflação do mercado financeiro de 4,3% em 2009 e de 4% em 2010.

O problema, diz, é que está cada vez mais difícil para o BC manter o controle sob as expectativas de inflação do mercado. "A expectativa de inflação para 2009 já subiu bastante", afirma. "São vários aviões decolando", disse, exibindo gráficos que mostram a aceleração da inflação esperada pelo mercado.

Embora a inflação mediana projetada para 2009 ainda esteja abaixo da meta, já se tornou maioria o número de analistas que espera inflação acima do centro da meta, fixado em 4,5%. Mesquita apresentou um gráfico que mostra a dispersão das projeções inflacionárias do mercado em torno da mediana. Em 5 de dezembro, a projeção mediana era uma inflação de 4% para 2009, e o grosso do mercado esperava que a inflação ficasse em 4%. Uma minoria pouco representativa acreditava em inflação de 4,7%. Em 23 de janeiro, a projeção mediana de inflação passou a 4,15%, e o contingente dos que acreditavam em inflação de 4,7% ganhou corpo. Em 20 de março, a projeção mediana subiu para 4,3%, e a expectativa dominante passou a ser uma inflação de 4,7%.

"As expectativas de inflação para 2008 se elevaram, e um movimento semelhante se observou, com maior intensidade ainda, no caso das expectativas para 2009", afirma o relatório. "Esse comportamento é um indicativo importante de que os fatores subjacentes à aceleração recente da inflação talvez não tenham natureza transitória."

Na visão do BC, embora as projeções de inflação sigam consistentes com as metas, o aquecimento da economia aumenta os riscos de que os preços se acelerem mais do que o esperado. "Existe um descompasso entre o ritmo de expansão da oferta e o ritmo de expansão da demanda", afirma Mesquita.

"Em relação ao cenário em dezembro, elevou-se a probabilidade de que a emergência de pressões inflacionárias inicialmente localizadas venham a apresentar riscos para a trajetória de inflação , uma vez que o aquecimento da demanda , bem como o surgimento de restrições às ofertas setoriais, podem ensejar aumento no repasse de pressões sobre preços ao consumidor", diz o relatório.

O BC cita no relatório uma série de sinais preocupantes: 1) aceleração dos núcleos de inflação e dos índices de difusão; 2) pressão sobre preços dos serviços; 3) aumento dos preços industriais no atacado; 4) aumento de preços com alta visibilidade para a população, como alimentos e serviços; 5) novos impulsos fiscais em 2008 sobre a demanda agregada; 6) elevada utilização da capacidade instalada na indústria; 7) queda da taxa desemprego a níveis historicamente baixos, que poderiam desencadear pressões por reajustes de salários acima da alta da produtividade na economia.

O cenário externo, com o risco de recessão mais profunda nos EUA e alta nos preços do petróleo, é visto como um fator a mais de incerteza para a inflação. Mas o BC frisa que o risco interno, decorrente do excesso de aquecimento da economia, é mais importante. Nas suas projeções, o BC toma como base a desaceleração moderada da economia mundial, que, segundo o relatório, em parte já ocorreu.

Os impactos no Brasil da crise internacional são ambíguos, diz o relatório. O Brasil poderia ser contagiado pela queda do preço de commodities, que reduziria o saldo da balança comercial; e/ou por maior aversão a risco, que diminuiria o fluxo de capitais ao país. Esses dois fatores levariam a uma depreciação cambial e a pressões inflacionárias. Por outro lado, a queda dos preços de commodities aliviaria pressões inflacionárias, e a redução do crescimento mundial reduziria a demanda externa.