Título: Governistas derrubam convocação de Dilma pela CPI
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Fonte: Valor Econômico, 27/03/2008, Política, p. A12
Marisa Serra toma sorvete de tapioca: sessão tensa leva à vitória governista A base governista que integra a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos cartões corporativos fez valer sua maioria e impediu ontem, por 14 votos a 7, a convocação da ministra Dilma Rousseff (Casa Civil) para prestar depoimento sobre as denúncias de abusos nos gastos do governo. Se comparecesse à CPI, a ministra também seria questionada sobre o vazamento de suposto dossiê com gastos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e sua mulher, Ruth Cardoso.
A estratégia dos governistas para blindar Dilma foi definida na véspera, em reunião da bancada do PT com o ministro José Múcio Monteiro (Relações Institucionais). A reunião da CPI foi tensa, com vários confrontos verbais entre aliados do Palácio do Planalto e oposicionistas. Ficou clara a preocupação em evitar a exposição da ministra, cotada para ser a candidata de Lula à sua sucessão em 2010.
"Convocar a ministra é uma tentativa de politizar a investigação. Significaria colocar a ministra sob suspeição", disse o líder do governo na Câmara, deputado Henrique Fontana (PT-RS), que esteve na reunião para reforçar a operação. O relator da CPI, deputado Luiz Sérgio (PT-RJ), encaminhou contra o requerimento, alegando que seria "apequenar" a atuação da ministra.
Defendeu que ela continue "prestando serviço ao país, gerenciando o Programa de Aceleração do Crescimento (AC)". Se todos os integrantes estivessem presentes, o placar seria ainda mais vantajoso para o governo, já que a composição é de 16 aliados para 8 congressistas da oposição.
A oposição sabia que a maioria governista da CPI não permitiria a convocação de Dilma. Com o vazamento de dados de gastos de FHC e Ruth na revista "Veja", o PSDB cogitou abandonar os trabalhos da CPI caso a convocação de Dilma e a quebra dos sigilos dos gastos da Presidência da República não fossem aprovados. Mas o partido recuou, para não ser acusado de estar buscando pretexto para deixar a comissão e, assim, barrar uma investigação que poderia atingir a gestão de FHC.
A tática da oposição mudou. O PSDB decidiu, junto com o DEM, continuar na CPI e insistir na convocação de testemunhas - como Dilma - e na quebra do sigilo dos gastos da Presidência da República. O objetivo passou a ser tentar desgastar o máximo o governo, mostrando à população que o Planalto está impedindo a investigação.
Nem a carta de FHC ao líder do seu partido no Senado, Arthur Virgílio (AM), autorizando a abertura dos seus gastos, adiantou. "A suposta coragem do ex-presidente não altera a lógica de que gastos sigilosos não estão sob arbítrio do atual ou do ex-presidente", disse Fontana. A mesma posição foi manifestada pelo relator.
Ontem, depois da derrubada do requerimento convocando Dilma, nada mais foi votado. A presidente da CPI, senadora Marisa Serrano (PSDB-MS), bastante contestada por governistas durante toda a sessão, cancelou a reunião marcada para hoje e convocou uma para a próxima terça-feira, destinada à tentativa de votar os outros requerimentos.
A disposição da base de apoio do governo de dificultar a investigação está demonstrada em um documento com a orientação de voto para os governistas. Dos 48 requerimentos que seriam votados ontem, a liderança do governo recomenda a rejeição de 33 pedidos de convocação e quebras de sigilo.
A liderança só recomendou aprovação de requerimentos de documentos com dados de auditorias já realizadas.