Título: Gestão do tripé econômico segue polêmica
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 04/04/2008, Brasil, p. A4

O Brasil cresce a um passo firme, com forte alta do investimento, mas o dólar barato e seu impacto sobre as contas externas mantêm aceso o debate sobre a gestão do modelo macroeconômico em vigor desde 1999, baseado no tripé formado por câmbio flutuante, regime de metas inflacionárias e elevados superávits primários. Enquanto os economistas ortodoxos celebram o recente desempenho da economia, que concilia expansão robusta do PIB com o cumprimento das metas de inflação, os desenvolvimentistas mostram preocupação com a valorização do real, tida como conseqüência dos juros altos.

O ex-ministro Edward Amadeo, sócio da Gávea Investimentos, faz grandes elogios ao modelo brasileiro. Para ele, o país tem mostrado uma combinação favorável de crescimento e inflação, sem recorrer a expedientes que criam distorções e artificialismos. Amadeo vê com maus olhos a experiência da Argentina. Com meta para o câmbio, o país vizinho tributa as exportações e subsidia o consumo doméstico, sofrendo hoje com uma inflação alta - e manipulada - e falta de produtos como a carne. "O Brasil não tem essas interferências, que geram uma alívio temporário, mas podem se transformar em situações potencialmente catastróficas." Para Amadeo, a política fiscal poderia ser mais dura, o que permitiria que a política monetária fosse menos apertada - mas não necessariamente evitaria a alta dos juros - e abriria espaço para um câmbio mais desvalorizado.

O ex-ministro Luiz Carlos Bresser Pereira é bem mais crítico. Para ele, o tripé que o Brasil deveria adotar consiste na combinação de política fiscal dura, juros moderados e câmbio competitivo, similar à adotada pelo Japão no pós-guerra. "Mas o Brasil tem feito o oposto disso: o ajuste fiscal é frouxo, os juros são altíssimos e o câmbio é extremamente valorizado."

Para Bresser, a correção desses problemas passa pela adoção de um câmbio competitivo - "como fazem os argentinos e os chineses" - e pela contenção dos gastos de custeio. O controle de despesas é fundamental para evitar maiores pressões inflacionárias, já que um real mais depreciado teria algum impacto sobre os índices de preços. Com isso, os juros poderiam cair para patamares mais civilizados, dize ele.

Para Bresser, o país deve manter uma taxa de câmbio mais competitiva para evitar problemas no balanço de pagamentos e não prejudicar setores exportadores de manufaturados. Ele avalia que a Argentina tem uma situação inflacionária "desagradável" , mas acredita que o país vai "enfrentar os problemas e resolvê-los". "É melhor do que ter uma taxa de câmbio valorizada, que destina o país a não crescer no longo prazo". Bresser diz que não é necessário jogar fora o regime de metas de inflação para adotar a sua estratégia de política econômica - o que é preciso é mais flexibilidade na condução do sistema.

O professor José Luiz Oreiro, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), é favorável justamente a uma flexibilização do regime de metas para países emergentes como o Brasil. A meta não deve ser fixada para o ano-calendário, mas para um prazo mais longo, de 18 a 24 meses, diz ele. Além disso, Oreiro propõe que o BC persiga alguma medida de núcleo da inflação - que excluem alguns itens, como preços administrados e alimentos - e não o índice "cheio". Ele diz ainda que é importante reduzir o grau de abertura da conta de capitais, adotando instrumentos de controle dos fluxos de capital para o país. "Com isso, seria possível ter uma meta para a inflação e uma meta para a taxa de câmbio, e os juros podem ser mais baixos."

Para Oreiro, um câmbio excessivamente valorizado, como o brasileiro, é prejudicial para o crescimento de longo prazo. Ele também defende uma política fiscal mais dura nessa fase de transição, uma vez que o ambiente formado por juros mais baixos e câmbio mais desvalorizado teria impacto inflacionário. "Num cenário de crescimento acelerado da demanda como o atual, é necessário conter o ritmo de expansão dos gastos correntes", afirma Oreiro.

O diretor de Economia e Renda Fixa da Unibanco Asset Management (UAM), Alexandre Mathias, se alinha com Amadeo, não vendo motivos para criticar o tripé macroeconômico adotado desde 1999. "Nós temos o melhor mix de política econômica possível, e ele está na raiz de tudo de bom que nós estamos vivendo. Mudá-lo é querer fazer plástica na Gisele Bündchen."

Para ele, o regime de metas de inflação permitiu a queda dos índices de preços para níveis mais civilizados e o câmbio flutuante possibilita uma dinâmica saudável para o balanço de pagamentos. "O modelo de câmbio fixo ou administrado é que causa crise nas contas externas. Com o câmbio flutuante, reservas de US$ 200 bilhões e investimentos estrangeiros diretos de US$ 30 bilhões por ano, eu não vejo como um pequeno déficit em conta corrente como o atual possa se transformar numa crise do balanço de pagamentos."

Mathias também acha que a política fiscal poderia ser de melhor qualidade, o que possibilitaria que os juros fossem mais baixos e o câmbio, mais desvalorizado. Ele rechaça a idéia, porém, de adotar alguma meta para o câmbio, vendo a experiência do país vizinho como um exemplo a não ser seguido. "Alguém quer aqui a situação da Argentina? A inflação está em 25%, falta carne e o país não tem energia."