Título: Governistas acusam senador tucano por vazamento de dossiê
Autor: Ulhôa, Raque
Fonte: Valor Econômico, 03/04/2008, Política, p. A7
A base governista tentou ontem transferir à oposição a suspeição pelo vazamento de dados do suposto dossiê sobre gastos com suprimento de fundos (por meio de conta bancária tipo "B" e cartões corporativos) da Presidência da República na gestão do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Declaração do senador Mão Santa (PMDB-PI), chamando a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, de "galinha cacarejadora" provocou bate-boca no plenário.
A confusão começou quando os senadores Tião Viana (PT-AC) e Ideli Salvatti (PT-SC), líder da bancada, cobraram do senador Álvaro Dias (PSDB-PR) que revelasse como teve acesso ao documento com dados sigilosos, o dossiê da Casa Civil da Presidência sobre os gastos secretos. O debate foi provocado por nota divulgada pelo blog do jornalista Ricardo Noblat, apontando o senador paranaense como responsável pelo vazamento.
O tucano confirmou ter visto o dossiê, refutou a tentativa de culpar a oposição e responsabilizou a ministra da Casa Civil pela montagem do documento. Baseou-se em divulgação, pela "Folha de S.Paulo", de declarações da ministra de que estaria providenciando levantamento sobre gastos do governo passado. "Não admito que o governo me questione", disse. "O dossiê se tornou de conhecimento público. Quem o vazou está no Palácio do Planalto", disse.
"Está na mão do PSDB, do senador Álvaro Dias dizer quem lhe deu o documento", afirmou a líder do PT. Em defesa de Dias, o líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), disse que funcionário algum da Casa Civil "ousa dar qualquer passo sem antes consultar a ministra Dilma Rousseff, a ministra mais centralizadora do governo". Afirmou ter certeza que o dossiê foi confeccionado sob a guarda de Dilma e "sérias dúvidas sobre se teria sido ela a divulgar o dossiê".
A sessão foi suspensa às 20h30, quando os ânimos se acirraram depois que Mão Santa chamou - pelo segundo dia consecutivo - a ministra de "galinha cacarejadora".
Justificou ter tirado a expressão do livro "Mein Kampf", de Adolf Hitler. Disse que Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, orientava o partido a "ficar gritando, como uma galinha cacarejadora: ´as obras, as obras, as obras". E concluiu: "Ela (Dilma) pode ser muito bem a galinha cacarejadora desse governo". Provocou reações indignadas de Ideli e outros governistas.
A presidente da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) dos Cartões Corporativos, senadora Marisa Serrano (MS), quer submeter hoje à votação todos os requerimentos, de convocações e pedidos de informações sigilosas. A oposição decidiu continuar na CPI, apesar de o governo estar derrubando todos os requerimentos importantes.
A tática é tentar desgastar o governo, recorrendo ao plenário do Congresso a cada requerimento rejeitado na CPMI. Não foi descartada a criação de uma CPI exclusiva do Senado, posteriormente, depois que ficar claro para a opinião pública que o governo está impedindo a investigação das denúncias de abuso na utilização dos cartões.
A oposição não teria tanta vantagem numérica na composição da CPI exclusiva. A vantagem seria que, em caso de recurso, ele se dará ao plenário do Senado - e não do Congresso, como ocorre na CPI mista -, onde senadores de partidos da base votam com a oposição.
O presidente do Senado, Garibaldi Alves (PMDB-RN), afirmou que colocará em votação o requerimento do PSDB convocando a ministra para prestar depoimento no plenário da Casa. A oposição quer que Dilma preste esclarecimentos sobre o suposto dossiê. Depois da leitura do requerimento em sessão, ele entrará na Ordem do Dia depois de dez dias.