Título: Fé no Oriente
Autor: Cotias , Adriana
Fonte: Valor Econômico, 02/04/2008, EU & Investimentos, p. D1

As perspectivas de que o crescimento chinês seguirá pujante renovaram as apostas em ações ligadas à cadeia das commodities na Carteira Valor sugerida para abril. Metade das indicações das corretoras está distribuída nos setores de petróleo, mineração, siderurgia e papel e celulose. Só as preferenciais (PN, sem direito a voto) da Petrobras e as PNs classe A e as ordinárias (ON, com voto) da Vale respondem por 60% desse universo, com 15 recomendações.

O tombo das commodities a partir da segunda semana de março assustou os investidores e suscitou dúvidas se a alta observada nos últimos anos tinha base em fundamentos ou se era fruto de uma bolha especulativa. Para se proteger da inflação e do enfraquecimento do dólar, muitos "hedge funds" buscaram esses ativos e inflaram as cotações. Um cenário de reversão da moeda em relação a outra divisas - tão logo o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) volte a priorizar o controle da inflação - pode fazer com que os fundos rapidamente mudem de posição. Longe de esse movimento provocar um colapso, ele tiraria a componente especulativa das matérias-primas, fazendo com que refletissem as relações naturais de oferta e demanda, destaca o estrategista da Unibanco Corretora, Marcelo Lima.

No caso da Vale, que negocia diretamente os contratos de fornecimento de minério de ferro com os clientes, eram as conversações para adquirir a anglo-suíça Xstrata que vinham obscurecendo os fundamentos, diz Lima. "O aumento de 65% reflete a demanda, não tem especulação de mercado futuro nisso." Apesar da desaceleração mundial que se avizinha com o freio americano, há perspectivas de um forte descasamento entre oferta e procura nos próximos anos para algumas commodities, assinala a chefe de análise da Ativa Corretora, Mônica Araujo. Para ela, o reajuste obtido pela Vale não está integralmente nas cotações. "O não fechamento do negócio com a Xstrata tirou a pressão de curto prazo, de que a companhia estaria assumindo um endividamento alto, além de haver dúvidas sobre a estrutura que seria montada para liquidar a operação."

Petrobras também está nas carteiras recomendadas pela Unibanco e pela Ativa, diante da manutenção dos preços do óleo cru em níveis recordes no mercado internacional e das perspectivas de descobertas de outras reservas. Lima ressalva que os poços de prospecção localizados nas camadas abaixo de sal são de difícil acesso e não se sabe ao certo quais serão as tecnologias necessárias e os custos de extração para que os novos campos se transformem em fluxo de caixa. Mônica, por sua vez, lembra que o fato de a Petrobras não repassar a alta externa para derivados como gasolina e diesel começa a comprometer margens, mas ele prefere basear a sua indicação no virtual crescimento da produção.

Além de Petro e Vale, a carteira sugerida pela Concórdia ainda traz, no ramo de commodities, as ações ON da Cia. Siderúrgica Nacional (CSN) e as PNBs da Aracruz. "A Aracruz sempre criou valor para os seus acionistas, é competitiva e tem um dos menores custos de celulose do mundo", diz o chefe de análise, Eduardo Kondo. "O preço da celulose está alto, mas é mais estável do que outras commodities e mesmo com a desvalorização cambial, que chegou a 40% nos últimos três anos, a companhia conseguiu manter a lucratividade."

A aposta em CSN, por sua vez, é mais pontual e justifica-se pela possível oferta pública inicial (IPO) da mina Casa de Pedra. Com outras operações saindo do forno e a aparente melhora de humor no mercado local e externo nos últimos dias, haveria espaço para que um lançamento com a grife CSN fosse bem-sucedido, diz Kondo.

No mês passado, a Carteira Valor perdeu 5,79%, ante queda de 3,97% do Ibovespa. Foram as performances de Petrobras PN (-9,16%) e de Cesp PNB (-40%) que puxaram a média para baixo. A falta de interessados no leilão de privatização da estatal paulista é que minou o valor das ações, que chegaram a figurar entre as maiores altas do ano. Tractebel ON (+7,87%), Vale PNA (+1,87%) e Usiminas PNA (+1,35%) contrabalançaram os maiores prejuízos.