Título: Estratégias para todos os paladares
Autor: Fariello , Danilo
Fonte: Valor Econômico, 17/04/2008, EU & Investimentos, p. D1
Durante os últimos cinco anos, o Índice Bovespa galgou recordes de pontos nunca antes vistos e arrebanhou um crescente grupo de investidores do mercado de ações. Desde abril de 2003 até o fim de março - período em que o Ibovespa subiu 375% -, o volume mensal negociado no sistema eletrônico home broker cresce a ritmo de uma vez e meia por ano. Os fundos de ações, no entanto, durante esse período teimaram em apresentar crescimento praticamente vegetativo, com avanço modesto dos aportes. A situação mudou, porém, nos últimos meses, quando o patrimônio dos fundos de ações finalmente acompanhou o bom humor do mercado e arrancou. Segundo o site Fortuna, de abril de 2007 até março, o patrimônio dos fundos de ações, somados os de privatização, saltou de R$ 70 bilhões para R$ 111 bilhões - crescimento de 59% no período em que o Ibovespa subiu 22%.
Para Walter Mendes, diretor de renda variável do Itaú, essa demora no crescimento dos fundos de ações se justifica, primeiro, porque a taxa de juros permaneceu bastante elevada por um bom tempo ao longo desses anos, o que inibia os investidores dos fundos de renda fixa em migrar para a bolsa. Em segundo lugar, porque demorou a crescer o nível de confiança na economia brasileira e, por conseqüência, nas empresas que fazem parte da bolsa de valores, diz ele.
Mas por que o home broker avançou tanto antes dos fundos? Segundo Mendes, é porque o investidor com mais conhecimento sobre o mercado de ações preferiu aplicar por conta própria, via home broker. "Apenas quando os investidores com menos conhecimento se interessaram pela bolsa é que os fundos foram mais procurados." Como esses investidores têm um conhecimento mais estreito sobre o mercado, preferem contratar o cuidado de um gestor para administrar os recursos, diz Jorge Marino Ricca, gerente-executivo de ações da BB DTVM.
O nível de compreensão da bolsa pelo investidor também influi no tipo de carteira que ele escolhe. No começo de 2003, por exemplo, 23% dos recursos investidos em fundos de ações (ignorados os recursos do FGTS) estavam em carteiras que investem apenas em Petrobras ou Vale, que são fundos menos complexos e mais facilmente compreendidos. No mês passado, essa categoria representava apenas 15% do valor aplicado em fundos de ações, um sinal de que os aplicadores passaram a preferir carteiras mais complexas. O aplicador novato começa por Petrobras ou Vale, mas depois migra para estratégias novas, diz Ricca.
Embora menos conscientes das complexidades do mercado acionário e sem a cultura da bolsa, os novos investidores dos fundos de ações sentiram o encolhimento do lucro em renda fixa e tiveram de buscar alternativas de risco, explica Ricca. Por esse motivo, também, o crescimento desses fundos arrefeceu nas últimas semanas, quando se passou a esperar novo aumento dos juros e, por conseqüência, mais lucro nos fundos de renda fixa e DI.
Mas o deslanche das carteiras de ações dos últimos anos já serviu para trazer uma gama maior de estratégias para o segmento. Surgiram novos conceitos, antes distantes do investidor de menor porte, diz Ricca. "Pouco se entendia sobre dividendos há alguns anos e hoje esse fundo é o de estratégia mais popular entre aqueles diferenciados, inclusive entre os aplicadores de menor renda", diz ele.
No Itaú, em 2003, havia apenas um fundo de ação de dividendos, que veio com a incorporação da asset management do Lloyd's Bank. Hoje o Itaú possui praticamente um fundo para cada tipo de estratégia disponível ao aplicador de varejo. Ricca, da BB DTVM, que também possui fundos com estilos diferenciados de gestão, reconhece, porém, que os fundos "small caps", com ações de baixa liquidez, e os fundos ligados à sustentabilidade são mais restritos e complexos para o investidor mais leigo.
Mendes, do Itaú, diz que o mercado ficou mais sofisticado e, portanto, há demanda por estilos diferenciadas. "Os investidores gostam de conhecer e misturar as estratégias, diluindo os riscos." Mais da metade dos investidores de alta renda, do segmento Personnalité, tem mais de um fundo de investimento em ações. É interessante misturar, por exemplo, um "small cap", com maior potencial de crescimento, com um fundo indexado, de menor risco, diz.
O aumento dessa procura por estilos diferenciados de gestão em ações fez com que a Associação Nacional de Bancos de Investimento (Anbid) criasse quatro novos subtipos de fundos de ações. São eles: "small caps", dividendos, sustentabilidade/governança e setoriais. Descobriu-se, com isso, que já são 31 os fundos que seguem critérios de sustentabilidade ou governança no país (entre fundos de investimento e fundos de cotas), com patrimônio de R$ 2,18 bilhões. São 26 os fundos setoriais e 21 os de dividendos (os maiores entre as novas categorias, com R$ 3,6 bilhões).
Dessa forma, o investidor passa a ter mais informações e fica mais fácil comparar os fundos de gestão similar, diz Luciane Ribeiro, coordenadora da Subcomissão de Acompanhamento de Mercado da Anbid e diretora executiva da ABN Amro Asset Management. "Além disso, os fundos passam por uma avaliação de gestão segundo critérios específicos". Isso quer dizer que não basta trazer apenas o termo "small caps" no nome do fundo e, na prática, investir em grandes empresas.
O investidor novato, para Ricca, da BB DTVM, já começa com boa noção de que bolsa é um investimento para longo prazo. Mesmo com as reviravoltas dos últimos meses, não houve fuga dos aplicadores dos fundos. "Pelo contrário, até houve captação", diz. "Muitos investidores já vêem a crise como uma oportunidade." Apesar de a captação dos fundos de ações ainda estar positiva no ano, com mais de R$ 500 milhões depositados na categoria até sexta-feira, dia 11, segundo o site Fortuna, em abril muitos já batem em retirada, com volume de resgates acima de R$ 900 milhões diante da oscilação forte da Bovespa e da incerteza quanto ao rumo do juro.
Depois da reclassificação dos fundos de ações, a Anbid deverá mirar os multimercados, a fim de tentar definir algumas linhas de estratégia mais bem definidas para que o investidor possa compará-los. Em seguida, poderá ser a vez da criação de subcategorias de previdência privada.