Título: Preço do arroz supera custo no RS
Autor: Bueno , Sérgio
Fonte: Valor Econômico, 22/04/2008, Agronegócios, p. B14

Puxado pela progressiva elevação das cotações internacionais, o preço do arroz pago aos produtores gaúchos superou os custos de produção pela primeira vez em quatro anos. A alta anima os agricultores, mas já está sendo transferida da indústria para o varejo e daí para os consumidores. O Rio Grande do Sul é o maior produtor do grão no país, com praticamente 60% da safra brasileira, estimada neste ciclo 2007/08 em 11,95 milhões de toneladas pela Conab.

A saca de 50 quilos do produto com casca fechou a semana passada em R$ 30,73, informa o Instituto Riograndense do Arroz (Irga), com base em dados do Cepea/USP. O preço tem subido desde 18 de março e já supera em 16,9% o custo de produção de R$ 26,28 no Estado. Em abril, a valorização chega a 31,8% e no mesmo mês de 2007 o valor médio era de R$ 20. Em valores nominais, o patamar atual é o maior desde a cotação mensal média de R$ 32,40 registrada pelo Irga em maio de 2004.

"Depois de muito tempo no vermelho os produtores estão voltando a ter lucro nesta safra, mas não há motivo para euforia", diz o presidente da Federação dos Arrozeiros do Estado (Federarroz), Renato Caiaffo da Rocha. Segundo ele, o aumento dos preços dos insumos nos últimos 30 dias, em especial adubo e herbicidas, sinaliza já neste momento uma alta de pelo menos 10% nos custos de produção para o ciclo 2008/09.

Outra preocupação dos produtores é com a política que será adotada pelo governo federal em relação aos estoques oficiais, que somam 1,4 milhão de toneladas, e com as importações de arroz uruguaio e argentino. Segundo o superintendente regional da Conab, Carlos Farias, na quarta-feira haverá reunião com representantes da área para definir se o produto estocado será vendido.

Já as estimativas em relação às importações do Mercosul variam. Segundo o assessor de mercado do Irga, Camilo de Oliveira, elas não devem passar de 950 mil toneladas, ante 1,07 milhão em 2007, porque os países vizinhos estão aproveitando a alta das cotações internacionais para vender a terceiros mercados. Só na semana passada, a elevação chegou a 10% nos EUA e na Tailândia, para US$ 840 e US$ 950 a tonelada do produto beneficiado, respectivamente. Para o presidente do Sindicato da Indústria de Arroz do Estado (Sindarroz), Élio Coradini, o volume não deve superar 700 mil toneladas.

Segundo Coradini, o governo deve agir para impedir que os preços ultrapassem os R$ 30 a saca no mercado interno, mas sem derrubá-los. "Este é um valor que não está fora dos parâmetros dos custos de produção da safra atual e do ano que vem". Ele acredita que uma queda nas cotações dificultaria o plantio no próximo ciclo, provocando uma alta ainda mais acentuada em 2009.

Ele admite que os reajustes recentes já estão sendo repassados para o varejo. "O preço do arroz beneficiado (fardo de 30 quilos), que estava em R$ 29,50 no fim de março, agora está em R$ 37", confirma o presidente da Associação Gaúcha de Supermercados, Antônio Cesa Longo. No início do ano, o preço médio estava em R$ 1,54 o quilo na gôndola no Estado, mas agora já há produto vendido a R$ 1,78, explica o empresário.

"O arroz está se valorizando e não há expectativa de baixa", comenta Longo. Conforme Oliveira, do Irga, a tendência é que os preços internos recuem um pouco nos próximos meses, com o encerramento da colheita no Sul, mas voltem a patamares próximos dos atuais no fim do ano, desde que o governo não inunde o mercado com seus estoques.

A razão, diz, está no ajuste entre oferta e demanda globais, na faixa de 625 milhões e 623,7 milhões de toneladas, respectivamente, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), e nos baixos estoques de passagem, restritos a 17% do consumo global, o equivalente à metade dos níveis de 1999.