Título: Saneamento básico é o maior problema do município, diz prefeito
Autor: Santos, Chico
Fonte: Valor Econômico, 24/04/2008, Especial, p. A20

Os peixes ainda são abundantes nas lagoas de Maricá, mas, certamente, Anchieta hoje pensaria duas vezes antes de oferecê-los à sua comitiva. Afinal, é para suas lagoas ou ribeirões que vai a imensa maioria do esgoto sanitário das centenas de loteamentos que compõem a cidade. Segundo dados da prefeitura, dos 42.012 domicílios registrados no município, apenas 2.000, equivalentes a 4,8% do total, estão ligados à rede de esgoto municipal que, por sua vez é despejada na natureza sem nenhum tratamento.

Apesar da abundância de água, apenas 8.000 domicílios (19%) recebem água tratada da rede de distribuição. "A nossa grande questão é brigar com o governo federal e com o Estado para reduzir esse enorme déficit de saneamento", reclama o secretário municipal da Fazenda, Luiz Carlos Bittencourt Coelho.

Ele disse que a febre de condomínios vivida hoje pelo município decorre, em parte, de uma medida tomada pelo atual prefeito, Ricardo Queiróz (PMDB) que, no começo do seu primeiro mandato, em 2001, proibiu a abertura de novos loteamentos, quebrando a espinha do crescimento desordenado. Ainda assim, o saldo remanescente de décadas do modelo anterior é suficiente para manter o "status quo" por muitos anos.

O cadastro imobiliário do município revela que além dos 42.012 construídos há ainda 71.785 lotes por construir. Apenas o loteamento Jardim Oceânico, no distrito de Itaipuaçu, possui 24 mil lotes, construídos ou não. "É o segundo maior loteamento da América Latina", afirma o secretário

Para o presidente da Associação Comercial de Maricá, Luciézio Melo, o prefeito Queiróz realmente marcou um gol ao proibir os loteamentos, "mas não conseguiu coibir a invasão de terras que é um grande problema aqui, e não só por parte de pobres (são muito poucas as favelas de Maricá)". Melo acha que o poder público não está ajudando o setor privado no processo de crescimento do município. "Os empresários estão fazendo sua parte, o comércio está crescendo, mas o poder público, não. As ruas estão sujas e esburacadas", critica.

Segundo o empresário, falta transporte, falta ensino profissionalizante, falta ensino de qualidade, além do problema maior que é o saneamento básico. "Para sermos uma nova Barra (da Tijuca) é preciso fazer muito. Se Maricá dobrar de população vai ficar insuportável", afirma Melo, ressalvando que se as mudanças começarem já, ainda será possível reverter o quadro.

O prefeito Queiróz, engenheiro civil de formação, disse que teve a preocupação de "reorganizar urbanisticamente" o município, tanto que proibiu os loteamentos, mas admite que a carência de recursos torna difícil "agir no curto prazo". Segundo ele, Maricá tem o segundo maior crescimento demográfico do Estado, mas o desenvolvimento econômico não acompanhou.

Ele admite também que não conseguiu vencer o maior desafio da cidade, o problema da água e esgoto e acusou a Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae) de não investir no município "há mais de 20 anos". O prefeito disse que 58% da população do município mora em Maricá há menos de oito anos, 70% dos quais no distrito de Itaipuaçu, o mais desorganizado de todos.

Queiróz chega aos últimos meses da sua gestão desgastado por um escândalo de grandes proporções. Membros do seu governo estão sendo investigados pela polícia sob suspeita de fraudes em licitações de serviços públicos. Entre as pessoas que chegaram a ser presas pela Polícia Civil do Estado está o secretário-executivo e de Integração do Município, Jarbas Brizola, braço direito de Queiróz.

O prefeito disse que só pretende se pronunciar sobre o caso quando a apuração estiver concluída, mas afirmou que continua acreditando na inocência do seu secretário. Ao mesmo tempo, ressaltou que ficou "feliz porque ficou provado que não tenho nada a ver com isso". O prefeito disse não ter candidato à sua sucessão e que vai se afastar da política, admitindo que as suspeitas de irregularidades no seu governo contribuíram para a decisão. Hoje, o candidato mais cotado para sucedê-lo é o petista Washington Cardoso Siqueira, conhecido como Washington Quá Quá. (CS)