Título: Grupo japonês Mitsui traz marca Sharp de volta ao Brasil neste ano
Autor: Olmos, Marli; Facchini, Claudia
Fonte: Valor Econômico, 28/04/2008, Empresas, p. B8
A marca japonesa Sharp, que até os anos 90 era um nome de prestígio no mercado de TVs no país, voltará ao Brasil em agosto e em grande estilo. O grupo que está por trás da reestréia no mercado brasileiro de uma das principais marcas de eletrônicos do mundo é outro gigante japonês, a Mitsui. A informação foi confirmada ao Valor por Takao Omae, que acaba de deixar a presidência da Mitsui Brasileira S.A. para assumir o cargo de COO (executivo-chefe de operações) da área de infra-estrutura do conglomerado, em Tóquio.
Os planos da Mitsui para a marca Sharp vão além de uma simples importação. A empresa começará a montar, no segundo semestre, televisores de LCD em Manaus, em uma fábrica de terceiros. Quem fornece os detalhes é Kenji Miura, já nomeado diretor-presidente da MPE (MBK Distribuidora de Produtos Eletrônicos Ltda), uma empresa constituída pela Mitsui no Brasil para gerenciar os negócios relativos à marca Sharp.
Os volumes de produção, diz Miura, ainda não estão definidos. Segundo ele, além de fabricar TVs no país, a empresa também pretende importar da Ásia outros produtos fabricados pela Sharp, como impressoras. "O mais importante será trazer de volta uma marca que esteve nove anos fora do mercado brasileiro", afirmou Miura.
A entrada de um concorrente tão grande como a Sharp, a maior fabricante do mundo de LCD, deve provocar abalos no mercado brasileiro. Neste setor, as coreanas LG e Samsung desencadearam uma guerra de preços e tomaram a liderança, levando marcas consolidadas, como a Sony e a Philips, a se mexerem.
Para a Sharp, assim como para os demais grande fabricantes de eletroeletrônicos, o Brasil transformou-se em uma peça estratégica no cenário global. Continuar ausente de um mercado tão grande como o brasileiro é um problema na disputa mundial. O Brasil está entre os maiores consumidores de televisores do mundo, com uma demanda de 10 milhões de aparelhos por ano.
E a substituição dos antigos televisores de tubo (CRT) pelas novas tecnologias de LCD e plasma começa a deslanchar no país. Estima-se que, neste ano, a venda destes novos modelos alcance 2 milhões de unidades, o dobro do total vendido em 2007.
Pelas mãos da Mitsui, a Sharp terá condições de enfrentar seus concorrentes já consolidados. A Mitsui, um dos maiores conglomerados do Japão, tem uma longa história de investimentos no Brasil. A empresa começou no país como uma trading de fertilizantes, café e suco, e seus negócios se proliferaram. Hoje, o grupo possui 15% participação no capital da Valepar, holding controladora da Vale do Rio Doce, além de atuar nas áreas de energia, agricultura e infra-estrutura.
A Mitsui tem vários projetos em estudo. Recentemente o grupo formou parceria com a Petrobras para a construção de usinas de álcool. O acordo entre Mitsui e Petrobras visa atender o mercado externo, especialmente o japonês, que estuda a adição de 3% de álcool à gasolina. A empresa também está envolvida na criação do trem bala, que ligará São Paulo ao Rio de Janeiro.
No final do ano passado, o presidente mundial da Mitsui , Shoei Utsuda, revelou ao Valor, em Tóquio, que o programa de investimentos no Brasil nos próximos quatro vai somar mais de US$ 200 milhões. Na ocasião, Utsuda já havia adiantado a intenção da companhia de entrar no varejo brasileiro por meio da comercialização de eletroeletrônicos.
Criada no Brasil nos anos 60 por Mathias Machline, a Sharp já viveu dias de glória no país, principalmente durante os tempos de reserva de mercado no setor de informática. Em 1972, a matriz japonesa associou-se ao empresário brasileiro, passando a deter 12% do capital da Sharp do Brasil.
O grupo chegou a faturar US$ 1 bilhão por ano no início da década de 90. Próximo a pessoas importantes, como o então presidente José Sarney, Machline era um empresário influente e chegou até a ser cogitado como um potencial parceiro da Apple. A marca também patrocinava um dos mais importantes concursos culturais da época, o Prêmio Sharp de música.
Os negócios começaram a desandar na segunda metade dos anos 90. Com a morte de Mathias Machline em um acidente de helicóptero, em 1994, a crise se agravou. Combalida, a empresa não resistiu à desvalorização do real, em 1999, e entrou em concordata.
A Sharp brasileira nunca mais se reergueu. Com dívidas que se aproximavam de R$ 700 milhões, a falência do fabricante de eletroeletrônicos foi decretada em 2004, colocando um ponto final a uma história de glamour.
O lastro deixado pelo processo de concordata e falência da operação brasileira sempre foi um obstáculo para que Sharp japonesa voltasse ao país por conta própria. Algumas empresas de importação chegaram a trazer produtos da marca ao país, mas nunca de uma forma consistente. Agora, com a Mitsui no comando, o problema poderá, finalmente, ser resolvido.
Um dos grandes desafios da multinacional será resgatar a boa imagem que a marca Sharp já teve para os brasileiros, além de buscar rejuvenescê-la. Após a crise financeira da empresa nos anos 90, seu nome sofreu arranhões no Brasil. No exterior, porém, o grupo japonês dispensa apresentações. A Sharp é tão conhecida como, por exemplo, a Sony.
A missão de fazer com que a reestréia da Sharp no mercado brasileiro seja triunfal está nas mãos de Tatsuo Nakayama, que foi conduzido este mês ao cargo de presidente da Mitsui no Brasil.