Título: PT de BH confronta direção nacional
Autor: Jorge, Danilo
Fonte: Valor Econômico, 28/04/2008, Política, p. A10
Em confronto com a Executiva Nacional do PT, que vetou a aliança com o PSDB na eleição deste ano em Belo Horizonte, o Diretório Municipal da capital mineira, controlado pelo prefeito Fernando Pimentel lançou ontem o deputado estadual Roberto Carvalho como candidato a vice na chapa encabeçada pelo secretário de Desenvolvimento Econômico do governador tucano Aécio Neves, Márcio Lacerda (PSB). O encontro coincidiu com a publicação de entrevista do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao grupo Diários Associados, que publica o "Estado de Minas", principal jornal local.
Na entrevista, Lula disse que "cada partido, na sua cidade e no seu estado, tem que determinar a política que entende que seja mais conveniente". Mas afirmou que o pacto era uma questão local. " Essa aliança não pode ter vinculação com 2010. O Aécio e o Pimentel gostam de viver essa relação muito harmônica. Isso é um problema de Minas Gerais. O jogo vai começar para 2010 a partir de agora", disse. Lula disse ser "natural" que Pimentel controle o partido na cidade , por ser "muito competente".
O presidente se mostrou cético, entretanto, à possibilidade de Aécio trocar de sigla e tornar-se candidato presidencial por um partido governista." Político não pode ser do Garantido e depois aparecer no Caprichoso", disse, referindo-se aos blocos de boi bumbá de Parintins (AM). O presidente ainda colocou ressalvas sobre a possibilidade da ministra da Casa Civil, Dilma Roussef, ser a sua candidata. "Entre ser uma figura extraordinária para gerenciar e ser candidata à Presidência, é outra conversa, porque entra um ingrediente chamado política, que exige outras credenciais", disse. A entrevista foi concedida na quinta-feira, horas antes da executiva nacional vetar a aliança por 13 votos a 2.
No encontro de ontem, Pimentel adotou um tom de enfrentamento. "Não podemos tolerar que venham nos dizer de São Paulo, do Rio Grande do Sul ou de outro estado , que têm trajetórias diferentes da nossa e menos exitosas, com quem devemos ou não aliar", discursou.A chapa de Lacerda e Roberto Carvalho foi referendada por aclamação pelos 406 delegados presentes. As alas contrariadas pelas negociações de Pimentel - principalmente os grupos ligados aos ministros Patrus Ananias (Desenvolvimento Social e Combate à Fome) e Luiz Dulci (Secretaria Geral da Presidência) - decidiram não participar do encontro.
Pimentel agora terá que tentar reverter a resolução da Executiva Nacional na última quinta-feira, que barrou qualquer possibilidade do partido estar com o PSDB na eleição em Belo Horizonte e abriu caminho para uma intervenção nacional da sigla. "Vamos recorrer ao Diretório Nacional, pois uma decisão tirada em encontro municipal não pode ser modificada por um ato da Executiva", disse Pimentel. A entrevista foi interpretada como um trunfo para a manutenção da chapa PSB/PT, mesmo com o apoio tucano.
Para o deputado federal Reginaldo Lopes, que preside o Diretório Estadual do PT, a entrevista abre caminho para uma revisão da decisão. "Ficou bem evidente que ele acha que a composição em Belo Horizonte com o PSDB é mais institucional do que política, ficando circunscrita no nível local, sem transbordamento para o cenário nacional, o que torna sem justificativa a decisão da Executiva do PT", disse Lopes. Nesta segunda-feira, a Executiva Nacional do partido deve se reunir para discutir o caso mineiro.Lopes quer levar o assunto a Lula ainda esta semana.
"A entrevista é bastante reveladora de que a aliança atende os interesses maiores do PT e do país", avaliou Márcio Lacerda, que participou do encontro. "Foi um recado claro para a Executiva Nacional de que a decisão que tomamos aqui é local"", disse Aluisio Marques, presidente do Diretório Municipal do PT . "Foi uma sinalização de que essa composição está restrita à eleição de 2008", acrescentou.
Mas coube a Roberto Carvalho, logo após ter seu nome aprovado como vice , colocar em debate a agenda de 2010. "Só mesmo se Pimentel não quiser, porque vamos elegê-lo governador em 2010", discursou o parlamentar, que qualificou o veto imposto pela Executiva Nacional de "equivocado e autoritário".
Para Rogério Correia,ex-deputado estadual que chegou a pleitear o posto de candidato do PT à Prefeitura, a defesa da composição com o PSDB pode implodir a legenda, que correria o risco de ficar sem candidato na eleição deste ano na capital mineira. "Este encontro é uma declaração de guerra ao comando nacional do partido. Se eles insistirem em algo proibido, vamos transitar do pesadelo da aliança com o PSDB para o suicídio ", disse Correia.
O PSB não definiu se marchará com o PT ou se manterá a aliança com o PSDB, caso o veto da Executiva Nacional petista seja mantido. Na próxima terça-feira, o comando nacional dos socialistas se reúne em Brasília para definir sua posição. No PT, a sucessão municipal estará na pauta da reunião que o Diretório Estadual marcou para 10 de maio.