Título: Rei do baixo clero é o 3º na sucessão
Autor: Paulo Emílio, Henrique Gomes Batista e Cristiane A
Fonte: Valor Econômico, 16/02/2005, Especial, p. A12
O deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) chegou à condição de terceiro na linha sucessória da Presidência da República depois de passar décadas fazendo política sem que quase ninguém percebesse. Eleito pela primeira vez para um cargo público nos anos 60, ele é um político de perfil conservador que passou boa parte da carreira disputando cargos e pequenos favores políticos. Com a eleição à presidência da Casa, tornou-se o terceiro na linha sucessória da Presidência da República. Ele é visto no Congresso como um porta-voz do chamado "baixo clero", os parlamentares sem expressão e influência política que são maioria na casa. Severino tem dedicado boa parte de sua atividade parlamentar a questões corporativas, como a defesa de aumentos salariais para os colegas e a contratação de mais funcionários para os gabinetes. Sua relação com o baixo clero na Câmara é a continuação de uma prática política iniciada em Pernambuco, quando o deputado nunca esteve vinculado a nenhuma das três grandes lideranças históricas do Estado - o senador Marco Maciel (PFL), o presidente do PSB, Miguel Arraes, e o governador Jarbas Vasconcelos (PMDB). "Severino representa o que há de mais retrógrado e conservador na política brasileira", diz um parlamentar petista. "Severino é um homem ético e um homem pobre", rebate o deputado Pedro Corrêa (PP-PE), presidente do partido de Severino. "Ele não tem indústria nem empresa, não tem escritório de lobby, e é por isso que ele precisa do salário de parlamentar, ele tem filhos." Muitos deputados que o apoiaram acreditam que a eleição de Severino trará vantagens como banheiros em todos os gabinetes e carros oficiais para os parlamentares. Ele registrou suas promessas em cartório e diz que dá para fazer tudo sem aumentar os gastos da Câmara. "Quando fui secretário da mesa, economizei R$ 90 milhões para esta casa", disse na campanha. Entre suas promessas está a criação da comissão do anti-desperdício. Hoje com 74 anos, Cavalcanti nasceu em João Alfredo, um município de 30 mil habitantes no Agreste pernambucano. Filho de um alfaiate, seu primeiro cargo público foi o de prefeito da cidade, eleito pela UDN em 1964. Em 1967 ele se elegeu deputado estadual e exerceu sete mandatos consecutivos na Assembléia Legislativa de Pernambuco. Ele chegou à Câmara em 1995, quase por acaso. Severino tinha poucas chances nas eleições de 1994, mas se deu bem ao herdar o eleitorado do deputado Ricardo Fiuza, cassado por causa de seu envolvimento com o escândalo do Orçamento. Severino já está no terceiro mandato consecutivo na Câmara. É daqueles que saltam de partido em partido o tempo todo. Oriundo da UDN, ele fez carreira na Arena e já passou pelo PDC, pelo PL e pelo PFL até voltar para o PP, versão atual do partido que nasceu da Arena após a reforma partidária da década de 80. O deputado é considerado uma figura presente na mesa diretora, quase igual ao seu conterrâneo, o novo primeiro secretário, Inocêncio Oliveira (PMDB-PE). Já ocupou diversos cargos na mesa da casa. Tem quatro filhos, uma deles é a deputada estadual Ana Cavalcanti, candidata a vice na chapa de Cadoca, candidato derrotado do governador do Estado, Jarbas Vasconcelos à prefeitura do Recife. Severino não tem curso superior. Além da sua carreira política, foi diretor e presidente da Agroindustrial e Comercial Cavalcanti Ltda., empresa familiar de sua cidade natal, entre 1961 e 1988. É considerado um homem ligado às questões morais e familiares e normalmente cita Deus e questões religiosas durante seus discursos. Um dos seus 89 projetos como deputado dificulta o aborto, inclusive nas permissões previstas em lei. Pela proposta - que chegou a ser arquivada mas que em 2003 voltou a tramitar - as normas que permitem que as mulheres só poderão fazer o aborto em caso de violência sexual se possuir um boletim de ocorrência policial e uma declaração da mulher vítima do abuso estaria sustada. Nesta linha, está o projeto que cria o "dia do nascituro", a ser comemorado sempre em 25 de março. Outro projeto polêmico determina um prazo para que os aparelhos de televisão tenham dispositivo eletrônico para impedir programas impróprios para menores de 18 anos e que proíbe a venda de jogos eletrônicos com conteúdo considerado violento. Outro projeto criaria a delegacia do telespectador. Ele também pretendia, através de um projeto de lei complementar, que pretendia anistiar Frei Joaquim do Amor Divino Caneca e outros heróis da Insurreição Pernambucana de 1824. O projeto foi arquivado por insuficiência regimental, já que deveria ser tratado em lei ordinária. Aliado incondicional da área mais tradicionalista da Igreja católica, entre seus projetos mais conhecidos estão o que limita a exibição de cenas de sexo e nudez na televisão no horário das 6 horas às 22 horas e o que acaba com a imunidade parlamentar para crimes comuns, garantindo a inviolabilidade do mandato apenas para os crimes de opinião. Severino também tem marcado posição ao se manifestar contra a união estável entre pessoas do mesmo sexo. Este fato já foi utilizado até mesmo como mote de campanha eleitoral sob a alegação de que esta união atenta contra os valores morais e cristãos, os costumes e a família. Na área econômica, Severino possui alguns projetos que dão benefícios tributários às micros e pequenas empresas. O governo não vê a gestão de Severino Cavalcanti como um obstáculo à sua agenda de reformas. Nos últimos dois anos, como deputado e 4º Secretário da Mesa, Severino votou com o governo nos quatro temais mais importantes da agenda legislativa de Lula - as reformas da previdência e dos tributos, a possibilidade de regulamentação do artigo 192 da Constituição (capítulo financeiro) por meio de leis complementares e a votação do salário mínimo em maio do ano passado, quando o governo foi derrotado no plenário. O primeiro filho do deputado, Severino Cavalcanti Junior, morreu num acidente de carro há alguns anos. Ele foi duas vezes prefeito de João Alfredo e se preparava para seguir os passos do pai e disputar uma vaga na Assembléia Legislativa quando morreu. O outro filho homem do deputado, José Maurício, seguiu os passos e também candidatou-se à prefeitura. Segundo o vereador David Prazeres dos Santos (PFL), quando prefeito de João Alfredo Severino investiu na infra-estrutura e tornou-se famoso por isso na cidade. "Mesmo eu pertencendo à oposição, devo reconhecer que ele fez uma das melhores administrações. Ele investiu na infra-estrutura, construiu hospital, matadouros, açougues, fez o calçamento da cidade." Na avaliação do cientista político da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) Michel Zaidan, a eleição do deputado pode criar dificuldades para o governo federal e para o governo estadual. Embora o PP integre a base governista, Severino não seria um parceiro confiável e sua eleição poderá tornar imprevisíveis as decisões da Câmara, disse. "A eleição de Severino pode causar dificuldades principalmente em relação a medidas consideradas impopulares", avalia o cientista político. "O que estamos observando é o fortalecimento de blocos parlamentares em prejuízo das forças partidárias. Não existe mais uma liderança junto aos partidos políticos. A eleição de Severino mostra uma fragilidade institucional, uma fragilidade política muito grande. Mesmo o PT, tradicionalmente forte, demonstrou uma desarticulação tremenda me não conseguir impor um único candidato que fosse aceito pela maioria dos seus integrantes." A situação também pode ter um viés complicador para o Governo do Estado. O PP, que faz parte da base de sustentação da aliança que tem garantido tranqüilidade ao mandato do governador Jarbas Vasconcelos (PMDB), vem afirmando já há algum tempo que como aliado de primeira hora do governador é merecedor do controle de uma secretaria estadual. Até hoje o partido nunca foi atendido em seu pleito. Com a eleição de Severino esta pressão deve ser ampliada. Independente desta possibilidade de pressão, Jarbas Vasconcelos, através de nota divulgada à imprensa, parabenizou o deputado pelo resultado bem como a eleição de Inocêncio Oliveira para a presidência da primeira secretaria da Câmara. Jarbas disse que os dois deverão se empenhar "na condução de grandes questões para o País". Dentre estas questões estaria a reforma política, considerada fundamental para assegurar a estabilidade que hoje existe na área econômica". Em outro trecho, a nota traz a citação que "a fragmentação política é tão nociva ao desenvolvimento do País quanto a inflação o foi até meados da década de 1990".