Título: União decide investir R$ 1 bi para garantir energia no AM
Autor: Góes , Francisco
Fonte: Valor Econômico, 30/04/2008, Especial, p. A20
Willamy Moreira Frota, da Manaus Energia: risco de desabastecimento de energia em Manaus está descartado A demanda por energia elétrica em Manaus cresce cerca de 8% ao ano, em ritmo superior ao do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, que se expandiu 5,4% no ano passado. A necessidade crescente por energia elétrica na cidade é puxada pela indústria, que responde por 43% do consumo de eletricidade na capital amazonense. Os números levam o governo federal a agir em duas frentes: buscar soluções de curto prazo para garantir o abastecimento de energia elétrica no Estado até 2010 e desenvolver medidas estruturais que permitam, a partir de 2011, ligar o Amazonas, hoje isolado, ao resto do Sistema Interligado Nacional (SIN).
Ainda este ano devem ser licitadas a construção de uma usina termelétrica de 350 megawatts (MW) de potência em ciclo combinado e um sistema de transmissão em 230 quilovolts (Kv) de tensão para Manaus, que irão exigir investimentos de até R$ 1 bilhão, segundo informou o diretor de relações com investidores da Eletrobrás, Astrogildo Quental.
O executivo diz que o setor privado poderá ser chamado a participar do empreendimento em parceria com a Eletrobrás. Os dois projetos estão sendo coordenados pela estatal e sua controlada, a Eletronorte, além do Ministério de Minas e Energia, com participação da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
Os estudos sobre a térmica e a nova linha de transmissão consideram aspectos regulatórios relacionados à transição do sistema elétrico isolado no Norte do país para o sistema interligado nacional a partir de 2011, diz o presidente da EPE, Maurício Tolmasquim. Ainda não se sabe como será feita a licitação, mas uma possibilidade seria dar autorização à Eletronorte para fazer a linha de transmissão, constituída por um semi-anel em 230 Kv e um corredor elétrico de 138 Kv.
Projeções com base em estudos de planejamento energético indicam que, em 2014, Manaus terá uma demanda de energia elétrica na ponta, período do ano em que o consumo é maior, de 1,5 mil MW. Hoje, a disponibilidade efetiva, entre geração térmica e hídrica, em Manaus, é de 1,2 mil MW. Já a capacidade nominal instalada é maior, de 1,5 mil MW. Com o acréscimo de 350 MW gerados pela nova térmica, combinado com o reforço na transmissão, o objetivo é assegurar a oferta de energia.
"Queremos passar tranqüilidade aos consumidores industriais que precisam de energia", diz Quental, da Eletrobrás. A preocupação deve-se ao forte crescimento de Manaus. O consumo de energia elétrica na capital amazonense cresceu 23,7% entre 2005 e 2007, na comparação com 2004. Na média anual, o crescimento foi de 8%, número que deverá se repetir em 2008, segundo previsões da Manaus Energia, subsidiária da Eletronorte que passará a ser subordinada diretamente à Eletrobrás.
Para este ano, a previsão é de que a demanda máxima por energia elétrica em Manaus, entre outubro e novembro, atinja mil MW, com folga de 20% em relação à disponibilidade efetiva. No ano passado, em 21 de novembro, a carga máxima chegou ao pico, quando foi registrado consumo de 916,3 MW.
A Manaus Energia tem 420 mil consumidores na capital, dos quais 3 mil classificados no grupo de alta tensão (indústria, comércio e serviço público). Em todo o Estado são 620 mil consumidores atendidos pela empresa, que passou a responder pelo fornecimento de energia elétrica também no interior, depois da incorporação da Cia. Energética do Amazonas (Ceam). Na estrutura de consumo de energia elétrica em Manaus, 43,2% são clientes industriais, 23,2% residenciais, 18,4% comerciais e 15,3% outros (serviço e poder público e área rural).
Os consumidores amazonenses têm a energia garantida por um parque gerador formado, no interior do Estado, por 107 pequenas usinas térmicas que funcionam a óleo diesel. Na capital, há sete pontos de geração térmica (cada um com mais de uma máquina), dos quais dois deles pertencem à Manaus Energia: os parques térmicos de Aparecida e Mauá, local considerado para a instalação da nova térmica de 350 MW. As outras cinco térmicas são de produtores independentes de energia. Também entra na conta da geração a hidrelétrica de Balbina, com potência de 250 MW, situada em Presidente Figueiredo, a 180 quilômetros de Manaus.
Entre 80% e 85% da geração em Manaus é térmica e 15%, hídrica. "É o oposto do Brasil (85% hídrica e 15% térmica), o que onera o custo de produção", observa Willamy Moreira Frota, presidente da Manaus Energia. Em 2007, a empresa registrou prejuízo operacional de R$ 550 milhões, consolidado no balanço da Eletrobrás. A empresa tem um custo de geração de energia superior ao preço de venda, apesar do subsídio da Conta de Consumo de Combustíveis (CCC), que é paga por todos os brasileiros conectados ao SIN. A CCC subsidia os custos do óleo combustível usado na geração térmica nos sistemas isolados do Norte do país. Para 2008 serão destinados R$ 3 bilhões para a CCC, o que significa um acréscimo de 4,6% em relação a 2007 (R$ 2,87 bilhões), segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Mesmo com o crescimento do consumo pelo setor industrial, Frota descarta o risco de desabastecimento de energia elétrica em Manaus. "Em nenhum momento um industrial deixou de planejar expansão de empreendimento ou fábrica nova em Manaus com medo de falta de energia", diz Frota. Quental, da Eletrobrás, considera os investimentos em geração e transmissão em Manaus como um passo intermediário para assegurar a oferta de energia elétrica até a chegada da linha que ligará a usina de Tucuruí (PA), a Macapá (AP) e Manaus. O linhão terá 1,8 mil quilômetros de extensão e custo estimado pela estatal em US$ 1,4 bilhão.
A previsão é que a licitação das obras do linhão ocorra este ano, com início da operação previsto para setembro de 2011. O linhão permitirá a ligar o Amazonas e o Amapá ao sistema interligado. "A linha de transmissão até Manaus terá gabarito ecológico, com 90 metros de altura, passando por cima da copa das árvores", diz Quental. O projeto prevê ainda a travessia do rio Amazonas, à altura da ilha de Jurupari, o que exigirá a instalação de torres equivalentes, em altura, à torre Eiffel, em Paris.
Quental diz que a interligação do sistema isolado por meio do linhão irá reduzir os gastos com a CCC a um valor "residual", já que haverá regiões remotas do sistema isolado que continuarão a usar óleo combustível para geração térmica. Há estimativas que indicam que se o linhão estivesse operando hoje a economia anual seria de R$ 2 bilhões, o que significaria gastos remanescentes com a CCC de R$ 1 bilhão. "O Brasil deixará de ser um país dividido em dois no setor elétrico para ser um país unificado", prevê Tolmasquim.
Autoridades do Estado consideram que o investimento em geração e transmissão até 2010, a integração do sistema isolado ao SIN, em 2011, e a chegada do gás natural à Manaus, no fim deste ano (ver reportagem nesta página), vão modificar, em três ou quatro anos, a matriz energética do Amazonas. Dessa forma será possível reduzir custos e aumentar a competitividade de novos projetos de investimento para as empresas da região.
"A energia elétrica é uma de nossas preocupações", admite Issao Mizoguchi, diretor industrial da Moto Honda da Amazônia. A empresa tem planos de reduzir o consumo de energia elétrica com a adaptação da fábrica para utilização do gás natural no processo de produção.