Título: Investimento externo direto e de portfólio tendem a se ampliar
Autor: Lucchesi , Cristiane Perini
Fonte: Valor Econômico, 02/05/2008, Finanças, p. C2

Maior fluxo de investimento externo direto e de portfólio ao país. Queda no custo de captação de recursos no mercado internacional para empresas, bancos e governo brasileiros. Valorização da moeda, o que ajuda a controlar a inflação e propicia uma política monetária menos apertada e crescimento. Esses são os principais impactos iniciais da obtenção do grau de investimento sobre a economia de países emergentes, segundo estudos agências de classificação de risco de crédito, de consultorias e de analistas do mercado ouvidos pelo Valor. Com o Brasil, não deverá ser diferente, acreditam.

É verdade que parte desse movimento já foi antecipado, por causa da expectativa de o Brasil atingir a nota de crédito não-especulativa. Mas, os analistas são unânimes em acreditar que mais está por vir. E não apenas em recursos para renda fixa ou variável. O investimento externo direto ao Brasil, que chegou ao recorde de US$ 34,6 bilhões no ano passado, tende a crescer nos dois anos posteriores ao grau de investimento, segundo a Sobeet (Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica).

Em estudo com 9 países - Chile, Israel, Tunísia, Polônia, África do Sul, México, Rússia, Bulgária e Romênia - a Sobeet verificou que o investimento externo direto cresce 174%, na média, no biênio posterior ao grau de investimento em países emergentes, depois de já ter crescido 45% no biênio que o precede. "A tese de que todos os investimentos diretos antecipam o grau de investimento não se verificou em outros países emergentes", diz Luís Afonso Lima, presidente da Sobeet.

O grau de investimento tende a tornar maior o fluxo de recursos para comprar títulos da dívida do Brasil, pois significa que o risco de calote foi considerado pequeno por uma agências especializada. Ao subir a nota do crédito externo de longo prazo do Brasil de "BB+" para "BBB-", o primeiro degrau do investimento não-especulativo, a Standard & Poor's dá o seu aval de que o país tem vontade política e condições econômicas de honrar seus compromissos financeiros com os credores internacionais.

Fundos mais conservadores e seguradoras precisam desse aval para comprar títulos de dívida de um país, por regras internas ou determinadas por autoridades reguladoras. Como esses fundos e seguradoras não podem olhar atentamente a situação de cada país e empresa, preferem seguir as agências de rating, que erram feio ao avaliar o risco das hipotecas americanas, mas ainda são referência para o mercado.

"Para parte importante do mercado de renda fixa, no entanto, o Brasil ainda não é grau de investimento", diz Felipe Illanes, analista da Merrill Lynch. Isso só acontecerá quando outra agência, a Moody's ou a Fitch Ratings, elevar a nota do Brasil. Segundo explica ele, os índices com papéis grau de investimento, que são a referência de rentabilidade para esses fundos mais conservadores, só incluem títulos considerados não-especulativos com o aval de pelo menos duas das três principais agências.

Isso não significa que a decisão da Standard & Poor's não terá impacto imediato no mercado de títulos da dívida, reduzindo os prêmios de risco Brasil. Mas sim que o impacto não será tão grande neste primeiro momento e que o maior movimento de queda nos prêmios de risco do Brasil deverá acontecer depois.

De imediato, vão ampliar seus investimentos no Brasil fundos que não precisam do segundo grau de investimento e outros que conseguem autorizações especiais dos cotistas ou de autoridades regulatórias para se antecipar a ele. "As corretoras que vendem os títulos de dívida brasileira tendem a subir preços agora na expectativa de maior demanda no futuro", diz Illanes.

Outros fundos podem investir apenas uma pequena parte dos recursos em títulos de grau especulativo e agora poderão ampliar seus investimentos em papéis do Brasil. Hoje, por causa da crise americana de hipotecas americanas, mesmo fundos mais audazes têm procurado investimento de menor risco, que tenham grau de investimento.

As empresas brasileiras também obterão recursos externos mais baratos, pois tendem a pagar um prêmio sobre os juros do governo em suas captações. O ambiente macroeconômico mais favorável tende a tornar mais barata até mesmo as captações de empresas brasileiras já eram grau de investimento e pagavam menos que o governo do Brasil.

Diante do aumento da nota de crédito (rating) soberano do Brasil, a Standard & Poor's elevou também a nota de mais nove companhias que operam no Brasil. Unibanco, Banco do Brasil, BNDES, Santander Brasil, HSBC Bank Brasil, Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e Eletrobrás também foram alçados à categoria de grau de investimento, com nota "BBB-". Bradesco e Itaú já possuíam este rating e agora foram elevados para "BBB".

O mercado acredita que as outras agências deverão seguir a Standard & Poor's em breve, diz Carlos Catraio, presidente do Banco BPN Brasil. A Fitch Rating chegou a divulgar nota na qual afirma que a classificação de risco de crédito brasileira está "sob revisão". Hoje, a nota do Brasil pela Fitch é "BB+", com perspectiva estável. A Moody's se limitou a reafirmar sua nota atual, "Ba1", com perspectiva estável.

O grau de investimento vai impactar também o mercado de crédito bancário externo, acredita Catraio. Segundo explica ele, os bancos centrais dos países ricos tendem a exigir dos bancos nos seus países mais provisões para perdas com empréstimos inadimplentes no crédito aos países que não são grau de investimento. Com provisões menores nos empréstimos ao Brasil, os bancos podem se sentir estimulados a elevar limites para o país e suas empresas. "Os bancos centrais do Japão e de Portugal se anteciparam ao grau de investimento e já não exigem provisão nenhuma para o crédito ao Brasil", conta Catraio.

Há ainda bancos centrais que só investem parte de suas reservas internacionais em países que são grau de investimento. O mesmo acontece com alguns fundos soberanos. As agências de crédito à exportação dos países ricos, ECAs da sigla em inglês, terão agora de reduzir o prêmio de risco país do Brasil, tornando seus financiamentos mais atrativos especialmente em um momento de aperto no crédito internacional externo, diz Catraio.

O fluxo esperado para a bolsa de valores de São Paulo também é forte, com a possibilidade de mais fundos poderem investir em ações brasileiras. Segundo estudo da Legg Mason, os retornos das bolsas da Coréia do Sul, da África do Sul e da Índia nos seis meses após o grau de investimento foram de cerca de 66%, 35% e 19%, respectivamente. No México, no entanto, a bolsa despencou e a rentabilidade em dólar foi quase 40% negativa.

A Merrill Lynch mantém sua recomendação de dar um peso maior, acima da média, às ações brasileiras na carteira para América Latina. "As empresas de consumo doméstico, de infraestrutura e as que estão alavancadas tendem a se beneficiar com os efeitos positivos do grau de investimento: moeda forte, taxas de juros mais baixas e prazos maiores de financiamento", diz.

"O investment grade dá confiança aos empresários da permanência da estabilidade econômica", afirmou Aquico Wen, chefe da gestora americana Legg Mason para mercados emergentes, em recente entrevista ao Valor. Analisando países como a Polônia, África do Sul, e Coréia do Sul, ele acredita em explosão do crédito, forte aumento do investimento produtivo e das taxas de crescimento da economia.

A analista de rating soberano da Standard & Poor's, Lisa Schineller, alerta que houve países que atingiram o grau de investimento e tiveram crescimento econômico pequeno depois. Um dos exemplos usados pela analista, em conversa com o Valor, foi o do México. O grau de investimento também não significa uma melhor distribuição de renda nem um barateamento do crédito para todos. Não é uma panacéia para todos os males econômicos e sociais.