Título: Desequilíbrios não afetam estabilidade, afirma ministra
Autor: Romero , Cristiano ; Safatle , Claudia
Fonte: Valor Econômico, 05/05/2008, Especial, p. F3

Dilma Rousseff: "Não vejo nenhum problema estrutural insolúvel no curto prazo e nem grandes ameaças à estabilidade" A ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, acha que, por ser forte produtor de alimentos e dispor de uma matriz energética diversificada, o Brasil é hoje o país mais bem posicionado para enfrentar a atual conjuntura internacional, marcada por pressões inflacionárias e incertezas no mercado financeiro. Na sua opinião, o país vive momento "virtuoso" e, por isso, não deve sucumbir diante de "falsos problemas".

"Hoje, temos que ter cuidado para não achar que certos desequilíbrios momentâneos necessariamente perdurarão", disse a ministra, referindo-se à preocupação de setores do governo com a volta dos déficits em conta corrente. "Temos justificativas para ter horror da inflação e de déficits. O que não podemos fazer é pegar uma oportunidade de ouro, como a de agora, e achar que ela reprisa velhos modelos. Ao mesmo tempo, não podemos deitar em berço esplêndido."

Apelidada de "comandante-em-chefe" por colegas de ministério, a ministra critica ministros e assessores do governo que atacam a política de juros do Banco Central (BC). Nesta entrevista ao Valor, ela consagra o tripé da política econômica herdado do governo anterior e avisa que ele não mudará.

"Fico me perguntando por que alguém mudaria uma coisa que está dando certo. Nosso governo não fará isso em hipótese alguma", descartou. "É uma maluquice a idéia de detonar a inflação para salvar o câmbio. Nunca vi isso dar certo."

Valor: Há uma alta nos preços dos alimentos no mundo e descasamento entre demanda e oferta no Brasil. Isso criou uma pressão inflacionária. Não há uma limitação física ao crescimento?

Dilma Rousseff: Não acredito. Em qualquer crescimento, pode haver gargalos localizados. Temos crescimento sustentado, em que a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) cresce na frente, puxando a indústria violentamente, como não aconteceu na história recente do país. A FBCF está crescendo 2,5 vezes o PIB. A taxa de investimento está em torno de 19,5% do PIB. Tínhamos que estar com uns 23% do PIB, mas vamos chegar lá. Do ponto de vista da indústria, pode haver gargalos, mas não temos uma situação estrutural de desequilíbrio.

Valor: Quais são esses gargalos?

Dilma: Há, por exemplo, uma demanda pesadíssima sobre aço e cimento. Ocorre que está havendo expansão no setor de cimento. Pode haver uma pequena defasagem, mas isso não significa aquele processo clássico de crise de oferta. Está acontecendo o contrário no Brasil. Há decisões de investimento sendo tomadas agora, o que significa ampliação de capacidade no futuro. É possível ver isso em várias áreas. Vai haver pressão sobre mão-de-obra, mas não acho que haja um desafio para o país crescer. O que pode haver são gargalos pontuais, seja de equipamentos, seja da parte física da construção, seja de mão-de-obra. São gargalos solucionáveis. Não vejo nenhum problema estrutural insolúvel no curto prazo e nem grandes ameaças à estabilidade. Vamos ter de acompanhar com cuidado, mas não é possível afirmar que estamos num ritmo de crescimento incompatível com a situação econômica específica dos diversos setores industriais, dos serviços e da mão-de-obra.

Valor: Não há risco de falta de energia nos próximos anos?

Dilma: Não. Voltamos a investir em energia hidrelétrica, resolvemos parte do problema do gás, diversificamos a matriz energética. Como conseguimos despachar mais 4 mil megawatts? Construindo gasodutos. A Petrobras engrenou no fornecimento de gás. Fechamos o gasoduto Cabiúnas-Vitória, com geração de 1 mil megawatts. Sem gasoduto e sem molécula de gás, não tem milagre. Quando não tem gás, providenciamos a importação de GNL (gás natural liquefeito) ou acionamos as usinas de bicombustíveis. Outro dia disseram que estamos com sorte porque choveu muito e os reservatórios ficaram cheios. Não é isso.

Valor: Não?

Dilma: É linha de transmissão. Quando faltou energia no apagão de 2001, a capacidade de receber e enviar energia era de 2,5 mil megawatts médios. Isso eu sei porque estava no Rio Grande do Sul (como secretária de Energia do governo Olívio Dutra) administrando o apagão, que não ocorreu naquele Estado. Tínhamos sobra de energia, mas não conseguíamos transmitir para outras regiões. Depois, inverteu-se a situação. Houve seca no Rio Grande do Sul, os reservatórios baixaram e houve momentos em que passamos 6 mil megawatts médios para lá. Isso só foi possível porque dobramos a capacidade de transmissão. Entre o Sudeste e o Nordeste, multiplicamos essa capacidade por 2,5 vezes.

Valor: O Brasil voltou a ter déficits em conta corrente. Conselheiros do presidente, como Delfim Netto e Luiz Gonzaga Belluzzo, acham que esse déficit vai crescer e o país pode chegar a 2010 numa situação vulnerável. Esse não poderia ser um constrangimento ao crescimento?

Dilma: O balanço de pagamentos é algo sempre importante. O Mário Henrique Simonsen dizia que a inflação aleija, mas o câmbio mata. Ele tinha toda a razão. Agora, há uma diferença substantiva entre hoje e aquela época. Temos US$ 200 bilhões em reservas cambiais. Além disso, temos um governo alerta, acompanhando e fazendo um esforço grande de expansão das exportações. Tem algo muito importante nessa história toda de que não podemos descuidar.

Valor: O quê?

Dilma: A qualidade da nossa importação. Não podemos minimizar o fato de que temos hoje capacidade bastante grande de importar bens de capital (máquinas e equipamentos) e, assim, modernizar as nossas plantas industriais. Esses bens melhoram a qualidade da produção e das exportações e resolvem gargalos. O atual momento do Brasil tem coisas muito virtuosas.

Valor: Que coisas?

Dilma: Ele prova que é possível crescer o mercado interno e o externo. Hoje, temos de ter cuidado para não achar que certos desequilíbrios momentâneos necessariamente perdurarão.

Valor: Que medidas o governo tomará para enfrentar o risco de aumento rápido do déficit externo?

Dilma: Não sou a melhor pessoa para adiantar quais são as medidas e se serão mesmo tomadas. Não tenho discutido isso. Política industrial haverá, com um forte incentivo às exportações. Haverá desoneração fiscal e incentivos a financiamento de projetos de inovação. A política deve sair neste mês de maio.

Valor: A senhora falou em virtudes do momento atual. Quais seriam as outras?

Dilma: Outra virtude é que estamos crescendo com a incorporação de milhões de brasileiros ao mercado de consumo. Isto significa também distribuição de renda e igualdade de oportunidades. Antes, existia a dicotomia: "Ou o país cresce ou distribui renda, ou então cresce bastante e depois distribui renda." Incorporamos milhões de brasileiros via crédito - que é o trivial simples do capitalismo -, salário-mínimo, emprego, política social. Temos o Bolsa Família bem focado nos mais pobres, o Luz para Todos, o Pronaf. Nada disso é de graça. Implica modificar o perfil do mercado brasileiro, transformando-o num mercado de massa. Acabou aquela história que estudávamos na universidade, segundo a qual, no Brasil o mercado tinha que crescer só para o consumo de bens duráveis. A China massificou o mercado, mas com uma distorção. Com a população que eles têm, não conseguem incorporar a todos. Temos uma população menor no Brasil, então, aqui a incorporação é mais rápida. Tanto é que os efeitos na nossa distribuição de renda são mais visíveis. Vejam se há algum país emergente, ou mesmo os EUA, que cresceu distribuindo renda. Esse foi um achado do país. Estamos recompondo a mobilidade social, que se dá por vários mecanismos - saúde, educação, emprego etc.

Valor: Preocupado com pressões inflacionárias, o Banco Central voltou a elevar a taxa de juros, depois de quase três anos de alívio. Sinalizou que o aperto monetário pode ir até o fim do ano. Isso pode abortar o crescimento?

Dilma: Estou com o presidente. Não podemos pegar um episódio e dizer: "Se aumentar, é um horror; se diminuir, é uma temeridade." É preciso tratar essa questão com maior naturalidade. Não me cabe fazer comentários sobre decisões do Banco Central. Não é bom para o país. Gente do governo ficar discutindo se o juro deve ser A, B, C ou D não contribui. Prefiro não fazer essa discussão.

Valor: Há um choque de preços de alimentos e o fato de que a China, que contribuiu durante vários anos para a desinflação no mundo, agora começa a exportar um pouco de inflação.

Dilma: Acho que, nesse quesito, talvez o Brasil seja o país em melhores condições no mundo.

-------------------------------------------------------------------------------- Aquela história de que a inflação aleija... Aleijar é péssimo! Pode perder perna, braço. Pode até perder a cabeça" --------------------------------------------------------------------------------

Valor: Por quê?

Dilma: A produtividade da produção de alimentos aumentou muito nos últimos anos. Vejam a nossa capacidade hoje de produzir carne bovina, frango, cereais em geral. Não somos só o celeiro do mundo, mas também um país com uma capacidade estarrecedora nessa área. A China, a Índia e a África começaram a consumir mais alimentos e isso está pressionando os preços. Mas o Brasil tem uma reserva enorme de terras agricultáveis e uma forte capacidade de produção do agronegócio, além de uma agricultura familiar extremamente produtiva. A pressão inflacionária dos alimentos vai resultar obviamente numa pressão sobre as exportações. Ocorre que temos a possibilidade de ter uma produção para o mercado interno que poucos países têm. Temos de levar em conta que, se há centros de excelência no Brasil, um deles é a Embrapa. Conjugamos uma série de características virtuosas para enfrentar o momento.

Valor: Quais são?

Dilma: Uma é essa que acabei de citar. A outra é energética. E esses são os dois principais problemas do mundo neste momento: alimentos e energia. No caso de energia, estou falando de combustíveis em geral. Imaginem a nossa situação na década de 80, quando o Brasil importava 80% do petróleo consumido. Estávamos numa situação dificílima, tanto que quebramos. Hoje, temos uma produção de petróleo relativamente estável. Não somos exportadores, mas também não somos mais importadores em grande escala. A Petrobras tem 18 anos de reservas, um nível de auto-suficiência relativa estável e grandes perspectivas no que se refere ao pré-sal. Portanto, temos futuro.

Valor: O país tem sido criticado por dar ênfase à produção de biocombustível, o que pode inflacionar os preços dos alimentos.

Dilma: Somos um dos poucos países do mundo que, apesar dos pesares e do que estão falando lá fora, não teve que enfrentar o dilema que outros enfrentam, que é produzir combustível ou produzir alimentos. Não vão inventar agora esse problema porque ele não existe. Se algum outro país tem, é problema dele, não do Brasil. Temos uma balança de combustíveis muito flexível e a arte da segurança energética é ter capacidade de oferecer substitutos. Outras vantagens: o Brasil só aproveitou 27% da sua capacidade hídrica, tem reserva de urânio que pode entrar num programa de energia nuclear de forma consistente, tem possibilidade de ter gás, pode se dar ao luxo de ter bioeletricidade. Desculpem-me, mas em termos de capacidade de resistir às próximas décadas, o Brasil está bem posicionado. Além disso, o país levou um tempo, mas aprendeu a ter estabilidade macroeconômica. Se a gente tiver calma, cuidado e delicadeza de tratar a conjuntura política e econômica, não há como não sermos de fato hoje, no presente, o país do futuro.

Valor: Mas, dos BRICs, ainda é o que cresce menos...

Dilma: Tem gente que fala "vocês não crescem 8% ao ano, outros países o fazem". Mas, crescemos os nossos 5% ao ano com estabilidade inflacionária, incorporando milhões de pessoas ao mercado. Se a gente continuar crescendo assim, e de forma estável, é o que nos interessa.

Valor: O mundo está se configurando, no que diz respeito à inflação, como algo não tão generoso como foi nos últimos anos...

Dilma: Mas estamos numa fase boa. Trabalhamos com uma meta de inflação que não está no extremo observado por aí. Somos um país que está alcançando o centro da meta e às vezes caindo um pouco abaixo dela. Há uma pressão inflacionária no resto do mundo, mas não faz sentido achar que no Brasil ocorre a mesma pressão. Trabalhamos com uma política de metas para inflação. Não vamos mudar essa regra no meio do jogo.

Valor: Faz sentido mudar?

Dilma: Ninguém está falando isso no governo.

Valor: Mas quando o Ministério da Fazenda e o Ipea afirmam que o governo precisa fazer alguma coisa para melhorar o câmbio, na prática estão defendendo a mudança do regime...

Dilma: Aquela história de que a inflação aleija... Aleijar é péssimo! Pode perder perna, braço. Pode até perder a cabeça.

Valor: Perde o Bolsa Família...

Dilma: É isso. Perde tudo. A frase do Simonsen diz respeito ao fato de não se ter margem de manobra no setor externo. Isso não significa uma escolha de Sofia, entre o câmbio e a inflação.

Valor: Olhando os próximos três, quatro anos, o tripé macroeconômico pode ser mudado?

Dilma: Fico me perguntando por que alguém mudaria uma coisa que está dando certo. Por que alguém, em sã consciência, muda algo que se provou um dos instrumentos mais fortes para permitir que o país cresça de forma estável? Nosso governo não fará isso em hipótese alguma. É uma maluquice a idéia de detonar a inflação para salvar o câmbio. Nunca vi isso dar certo.

Valor: Quando o ministro da Fazenda diz que o modelo brasileiro não é o do México, mas o asiático, que mantém as moedas desvalorizadas a qualquer custo para estimular as exportações, ele não está defendendo mudança do modelo?

Dilma: Se ele falasse isso para mim, eu entenderia assim: o modelo mexicano é fortemente exportador, dependente de um só país (os Estados Unidos), com uma imensa dificuldade de separar o orçamento de petróleo do orçamento fiscal, baixo potencial de crescimento com inclusão social. O crescimento mexicano é bom para o México. Prefiro estar aqui com o nosso crescimento.

Valor: O Brasil é historicamente um importador de capitais. Isso não mudou. Ainda assim, o ministro disse que o governo não permitirá a ocorrência de déficits em conta corrente.

Dilma: O Brasil não precisa aceitar dicotomias e falsos problemas. Que o déficit em conta corrente, dependendo de certas circunstâncias, é péssimo, não há a menor dúvida.

Valor: Mas o câmbio flutuante não ajusta o déficit?

Dilma: Em alguns momentos, pode haver viscosidades. Não existe mercado perfeito em câmbio. A teoria de que o mercado ajusta é a teoria da concorrência perfeita. Não é bem assim. Há arbitragem de taxa de juros, níveis de conhecimento diferentes, especulações. O mercado de câmbio é muito complexo, porque por ele há trânsito de mercadoria e de capitais. O Brasil, nesse contexto, não pode ser precipitado. Temos justificativas para ter horror da inflação e horror de déficits em conta corrente. O que não podemos fazer é pegar uma oportunidade de ouro, como a de agora, e achar que ela reprisa velhos modelos. Ao mesmo tempo, não podemos deitar em berço esplêndido. Há várias políticas que podem perfeitamente melhorar o balanço de pagamentos.

Valor: Por exemplo?

Dilma: Política industrial e de exportação. A desoneração fiscal que planejávamos fazer antes de a CPMF cair era mais robusta. Estávamos num modelo GG. Agora, temos que diminuí-lo. O que está havendo é o cuidado do governo para não tomar medidas que não possa segurar. Temos que tomar esse cuidado por causa do problema fiscal, que eu não posso fingir que não há.