Título: BC enxuga US$ 1,95 bi, mas dólar recua
Autor: Luiz Sérgio Guimarães
Fonte: Valor Econômico, 17/02/2005, Finanças, p. C2

A mera retirada de hedge oficial, seja em volume que for, não conseguirá interromper o declínio do dólar no mercado à vista enquanto as condições externas inibirem a aversão a risco e enquanto os juros brasileiros não descerem do topo do mundo. Os leilões de venda de contratos de swap cambial, desencadeados pelo Banco Central desde o início do mês, são completamente inócuos no esforço para se evitar o afundamento do dólar. No dia 2, o BC comprou dólares no mercado futuro no volume de US$ 388 milhões. No dia 16, adquiriu US$ 991 milhões. E ontem enxugou US$ 1,948 bilhão. Semana após semana, a autoridade aumenta o seu cacife - 8 mil contratos no primeiro leilão, 20 mil no segundo e 40 mil ontem - para nada. E o dólar à vista bate recordes de baixa seguidamente. Ontem, ignorou a intervenção oficial e fechou em queda de 0,11%, a R$ 2,5820. A inoperância dos leilões decorre do fato de que, para os investidores que compram os swaps terem lucro com eles, o dólar não poderá subir mais do que a variação da Selic no mesmo período da operação. Se a rentabilidade que o BC irá auferir ao final da operação, composta por variação mais cupom cambial, for maior que a remuneração propiciada pela taxa básica os bancos irão perder. E todo mundo quer evitar isso, até mesmo quem banca o jogo, o BC, interessado no auxílio da apreciação cambial no combate à inflação. Se ninguém perde, à exceção do "público", cuja dívida não pára de crescer, é óbvio que o dólar não tem chance de se recuperar.

Leilões de swap não conseguem evitar baixa

No início do dia, o dólar chegou a subir 0,70%, cotado a R$ 2,6030. Não tinha nada a ver com o BC brasileiro, e sim com o congênere americano. A perspectiva de que o presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan, em seu discurso ao Senado, iria sacudir os mercados mundiais gerou um súbito estresse em todos os segmentos. A Bovespa chegou a cair 1,12% e os juros futuros dispararam. Digerido o discurso de Greenspan, chegou-se à conclusão de que nada muda. Ele não sabe qual é o juro básico de equilíbrio da economia americana, reconhece que a taxa atual é baixa e que, em algum momento, a política monetária terá de mudar, mas desconhece quando. E os mercados passaram a se preocupar com os seus próprios assuntos. No caso da Bovespa, além da reunião do Copom, o vencimento do índice futuro, responsável por um volume de negócios recorde, de R$ 5,15 bilhões. O pregão fechou em queda de 0,85%. O mercado futuro de juros não fez ontem apostas de última hora destinadas a alterar as previsões já embutidas nos contratos: altas da Selic de 0,50 ponto em fevereiro e março. O contrato mais curto, para a virada do mês, até pode ceder um pouco hoje porque estava ajustado para minimizar perdas na hipótese de o Copom acelerar o ajuste da política monetária por meio de uma elevação de 0,75 ponto. Ontem, ele subiu de 18,68% para 18,70%. Mas o contrato mais líquido, para a virada do ano, cedeu de 18,96% para 18,91.