Título: ONU cria força-tarefa e pede US$ 2,5 bi contra crise
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Fonte: Valor Econômico, 30/04/2008, Economia, p. A17

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, anunciou ontem a criação de força-tarefa para enfrentar a crise alimentar mundial e pediu à comunidade internacional a doação urgente de US$ 2,5 bilhões para que a organização possa continuar seus programas de ajuda aos necessitados.

O anúncio foi feito em Berna, em conferência que reuniu os chefes das 27 agências especializadas da ONU. O objetivo da reunião foi dar resposta coordenada à disparada dos preços dos alimentos, que já provoca distúrbios sociais e instabilidade política em vários países.

Entre os motivos para a crise apontados pelo secretário-geral, estão os preços do petróleo, a falta de investimento no setor agrícola, o aumento da demanda e os subsídios aos fazendeiros dos países ricos, além de problemas climáticos e restrições a exportações.

A prioridade mais urgente, disse Ban, é alimentar os que têm fome. Para isso, reiterou o apelo para que a comunidade internacional contribua com US$ 755 milhões adicionais ao Programa Mundial de Alimentos (PMA).

Segundo Josette Sheeran, diretora-executiva do PMA, o orçamento de US$ 3,1 bilhões para as operações de ajuda em 2008 cresceu US$ 755 milhões devido à escalada de preços.

¿ Hoje, só podemos adquirir 60% do fazíamos em junho de 2007 ¿ disse.

Uma das ações da ONU já em curso é a Iniciativa de Emergência da FAO, para a qual o secretário-geral pediu US$ 1,7 bilhão. A idéia é investir na produção agrícola de países em desenvolvimento, especialmente na África.

Jacques Diouf, diretor-geral da FAO, disse que a idéia é dar acesso a sementes, fertilizantes e ração animal, corrigindo um dos principais problemas por trás da crise atual: falta de investimento na produção de alimentos nos países pobres.

Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial, disse que a instituição estuda criar um mecanismo de financiamento rápido para países pobres e que o volume de empréstimos para projetos agrícolas na África no próximo ano será dobrado, para US$ 800 milhões.

¿ As próximas duas semanas serão críticas para lidarmos com a crise alimentar. Para 2 bilhões de pessoas, os altos preços de alimentos são, em muitos casos, questão de sobrevivência ¿ afirmou.

Subsídios somam US$ 6 bi

Matheus Zanella, assessor técnica da Confederação Nacional de Agricultura, disse que as medidas anunciadas pela ONU têm apoio da entidade, mas são apenas de caráter emergencial e paliativo, para resolver problemas de nações que vivem em miserabilidade.

¿ O problema na produção no mundo é o pagamento de US$ 6 bilhões de subsídios às indústrias de etanol nos EUA. Isto provoca grave distorção no mercado internacional. A solução de longo prazo seria criar incentivos aos produtores, principalmente com o fim de restrições a exportações.

Zanella adverte que o estabelecimento de restrições à exportação nos países produtores, além de criar excesso de oferta a curto prazo, desincentivaria a produção, como aconteceu na Argentina:

¿ Eles contingenciaram a exportação, tirando a rentabilidade dos produtores e hoje, mesmo com a alta de preços, a produção lá está caindo ¿ concluiu Zanella.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a criticar os ataques à produção de biocombustíveis, no seu entender absurdos, e cobrou o fim dos subsídios agrícolas na Europa e EUA, como forma de aumentar a produção de alimentos.

¿ Se os países ricos desejam realmente aumentar a oferta de alimentos, por que não eliminam os subsídios que dão à sua agricultura ¿ questionou Lula, em seu discurso. No entender do presidente, isso estimulará a produção nos países mais pobres, que têm mais terras, mais mão-de-obra e, agora, como no caso do Brasil, tecnologia avançada. Espero que essa discussão tenha impacto positivo na OMC.