Título: Desmatamento será maior desafio de Minc
Autor: Chiaretti , Daniela
Fonte: Valor Econômico, 15/05/2008, Política, p. A7

Carlos Minc, o próximo ministro do Meio Ambiente do governo Lula, já assume o cargo deixado por Marina Silva com o ritmo do desmatamento bem desperto e com sua autoridade quanto ao enfrentamento deste problema questionada pelas ONGs. Minc não é muito conhecido, mas sua indicação não suscita críticas a priori. Esta é o ponto: não se trata de uma questão pessoal.

"Não tem milagreiro na área ambiental, quero despersonalizar esta questão", diz Adalberto Veríssimo, pesquisador sênior do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, o Imazon, sediado em Belém. "Nem Marina Silva, com grande currículo atrás de si e enorme expectativa, conseguiu dar conta do grande desafio que é conter este desmatamento constante."

O chamado "ano fiscal do desmatamento" termina em dois meses, em 30 de julho, e a previsão é sinistra. Junho e julho são meses de pico no desmate e o acumulado de agosto de 2007 a março de 2008 está em curva ascendente. Comparado a igual período do ano anterior, segundo o Imazon, no Pará o índice mostra um aumento de 76%. É de pelo menos 20% na região. O desmatamento divulgado no ano passado foi de 11 mil km2. As projeções de agora apontam para 13 mil a 14 mil km2 no melhor dos casos, supondo que a situação fique sob controle nos quatro meses em que falta computar os dados. "O ministro do Meio Ambiente no Brasil é medido por este indicador", diz Veríssimo. "Ele pode fazer tudo direito, mas se não conseguir reduzir esta taxa, é como se não tivesse passado no Vestibular", continua. "E o ministro que entra agora já está com o paciente na UTI", prossegue.

O PIB da Amazônia, calcula, gira em torno a R$ 200 bilhões, sendo que entre R$ 50 bilhões a R$ 70 bilhões se relacionam a atividades que desmatam a floresta. O Plano Amazônia Sustentável, lançado há poucos dias, pretende investir R$ 1 bilhão em quatro anos na região. "É pífio. Não tem solução para o desmatamento se não tiver solução econômica. Tem que ser um plano ousado, volumoso, de longo prazo. Se não valorizar a floresta, não tem polícia que segure as árvores."

A preocupação dos ambientalistas que trabalham na Amazônia é que a condução do combate ao desmatamento imaginado por Marina Silva estava no caminho correto. Ela tinha respeito e credibilidade, e mesmo assim, o desafio continua aí. "A ministra Marina sempre deu um verniz verde a um governo que não é verde e que agora mostra sua cara cada vez mais desenvolvimentista", analisa Paulo Adario, coordenador da campanha Amazônia do Greenpeace. "A cara do governo Lula é da década de 70. Marina dava ao governo um ar de modernidade, de século 21. Mas com a sua saída, ela tira este aval e deixa um vazio", prossegue Adario. "Conheço o Minc e ele tem uma história bonita no movimento ambientalista. Mas qualquer um que entrar neste cenário assume numa situação muito difícil."

Minc terá que convencer a opinião pública nacional e internacional que é capaz de repor a tal tinta verde. E assume em um momento ruim do calendário amazônico, com a Operação Arco de Fogo na mata, e fazendo pressão. "O time está na floresta, acéfalo, num momento crucial. Não é bom", continua Adario.

Adriana Ramos, coordenadora da iniciativa amazônica do Instituto Sócio-Ambiental, o ISA, interpreta a carta de demissão de Marina Silva como um mau presságio. "Dá pra entender que ela saiu porque não vislumbrava possibilidades políticas para concretizar sua política ambiental - o que, para quem concordava com ela, como nós, é preocupante. Em que bases irá assumir o próximo ministro?", pergunta. "Minc é um bom nome. Mas a questão é que as limitações para a política ambiental brasileira estão fora do MMA" , avalia. Na sua opinião, o caminho do combate ao desmatamento, com restrição de crédito para áreas embargadas e em situação de ilegalidade, não pode recuar. "A chegada de um novo ministro não pode significar um retrocesso nesta orientação."

Paulo Moutinho, do Ipam, o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, coloca sua expectativa: "Não sei qual a intimidade de Minc com os problemas amazônicos, que são o calcanhar de Aquiles das questões ambientais brasileiras, mas não vejo problema. É alguém qualificado. Precisa ver o que o governo pretende." O problema pode ser outro, lembra Roberto Smeraldi, da Amigos da Terra - Amazônia Brasileira: "Ninguém conhece o Minc fora do Rio, nem no Brasil. Neste sentido, ele não vai atender a exigência de selo-verde que Marina representava para Lula."