Título: Líbano chega mais perto de reinício da guerra civil
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 20/05/2008, Opinião, p. A12
No fim de semana, Doha, no Qatar, foi o palco de negociações tão difíceis quanto as que ainda se desenrolam para um novo acordo internacional de comércio, cujo início se deu na cidade. Após um ensaio de nova guerra civil, todas as facções políticas libanesas se encaminharam para lá, sob a mediação da Liga Árabe, para tentar um acordo que, se atingido, será provisório, como quase tudo no Líbano. O presidente americano George W. Bush também estava na região, para sustentar uma política fracassada - um dos vistosos exemplos de insucesso é a instabilidade libanesa.
Os libaneses travam uma guerra por procuração dos principais países árabes e dos EUA, em que o fio condutor dos acontecimentos passa por Israel, Síria, Irã e pelos movimentos palestinos. As rivalidades entre as forças locais contam muito, mas elas foram provocadas por forças externas - a guerra civil de 1975-90 teve como estopim a instalação local do QG de operações da Organização para Libertação da Palestina - e continuam sendo. A mais recente escalada de violência se iniciou com uma tentativa do governo do premiê sunita Fuad Siniora de reduzir pelas bordas o enorme poder do Hezbollah, grupo xiita apoiado por Síria e Irã. O governo, que é apoiado por um arco-íris que agrupa sunitas, drusos e cristãos, decretou o fim da rede de telecomunicações utilizada pelo Hezbollah, assim como a demissão de um de seus oficiais responsáveis pela segurança do aeroporto de Beirute.
Parecia pouco, mas foi o suficiente para levar os xiitas a uma enorme demonstração de força. Eles ocuparam todas as regiões inimigas em Beirute e sofreram revide governista, em especial dos drusos, nas montanhas perto de Beirute. Os conflitos se espalharam pelo país e deixaram pelo menos 80 mortos, antes que uma precária trégua fosse aceita.
A situação libanesa continua sui generis. O país não tem um presidente, que pela Constituição tem de ser cristão - assim como xiita o presidente do Parlamento e sunita o primeiro-ministro - desde que Emile Lahoud, identificado com os sírios, terminou seu mandato em novembro. O candidato aceito pelos governistas é o chefe das Forças Armadas, Michel Suleiman, mas os xiitas e grupos cristãos que se alinharam ao Hezbollah querem ter poder de veto no novo gabinete, com um número maior de ministros, e que seria condizente com um novo mapa político e demográfico do país.
Desde setembro de 2006 que o Hezbollah tenta algo semelhante, por todos os meios. Um deles foi a greve geral por maiores salários, reprimida pelo governo, que contou com sua ajuda até que ela desandasse em um conflito aberto de forças, após a ação de desarme da rede de telecomunicações do grupo. O Hezbollah só não levou adiante seu intento de fazer o governo recuar e assumir então diretamente o comando do país porque isso seria uma declaração de uma guerra civil de resultados incertos, em primeiro lugar, e, depois, porque Suleiman revogou as ordens do governo e sinalizou com a volta ao status quo.
Poucas vezes se viu um apelo tão significativo para que o Exército assuma o controle de um país democrático. As chances de um "bonapartismo" no Líbano, porém, são reduzidas. É fato que o Exército é o garantidor da unidade do país, mas ele também se divide pelas mesmas linhas religiosas e políticas. Em poder bélico, é inferior ao bem treinado e armado Hezbollah e um confronto direto com o grupo xiita o racharia imediatamente. Além disso, é tarde demais para deter os poderes crescentes do Hezbollah, magnificados pela desastrosa e sangrenta intervenção das tropas de Israel no Líbano em meados de 2006. O grupo xiita pôde se afirmar como vitorioso, solidificar seus direitos de manter suas armas, como única força militar efetiva contra Israel e, então, exigir um poder político compatível com a nova situação.
O Líbano está condenado a novas vagas de violência. O Hezbollah pretende negociar nova lei eleitoral no lugar de outra, que refletiu o compromisso entre todos os grupos para pôr fim à guerra civil. Demograficamente, os xiitas crescem mais que cristãos e drusos, mas ampliar sua representatividade após o uso das armas, como agora, é um tema explosivo. Só com um conflito geral o Hezbollah conseguiria seu objetivo, e ele parece sempre disposto a tentar.