Título: Megacampo de Tupi eleva demanda global por equipamentos
Autor: Schüffner , Cláudia
Fonte: Valor Econômico, 21/05/2008, Especial, p. A12
Marcelo Bueno, presidente da Schulz: "Nossos cenários mais otimistas não previram esse ciclo de investimentos" Pancada estrondosa, trovão ou "pai supremo". Qualquer um dos significados etimológicos da palavra tupi registra com precisão o impacto, para o país, da gigantesca reserva de petróleo e gás descoberta pela Petrobras na Bacia de Santos e revelada no ano passado. A exploração do megacampo de Tupi e seus irmãos Júpiter, Carioca, Parati, Caramba e Bem-te-vi, só para citar alguns, vai exigir aumento da capacidade instalada dos fabricantes de dutos, sondas de perfuração e plataformas, entre outros equipamentos, e também já detonou um processo de desenvolvimento de novas tecnologias entre a Petrobras e seus fornecedores.
A indústria de equipamentos para a exploração de petróleo e gás opera no limite da capacidade - no Brasil e no mundo - e projetos de ampliação já estão em curso, mas serão insuficientes para atender à demanda que virá, ainda que ninguém saiba o tamanho exato das reservas existentes na camada pré-sal.
José Formigli, gerente-executivo do pré-sal da Petrobras, adianta que, nas próximas semanas, a empresa vai divulgar um primeiro levantamento de suas necessidades de aço, chapas, sondas e outros equipamentos que serão necessários para o teste e o projeto-piloto de desenvolvimento da produção de Tupi. Para colocar em produção os novos campos da Petrobras serão necessárias plataformas, dutos, árvores de natal (conjunto de válvulas que regula a produção em poços submarinos) e outros equipamentos, que vão permitir elevar a atual capacidade do país em um horizonte ainda não-delineado. Em relatório recente, o banco UBS ressalta que as descobertas da Petrobras na Bacia de Santos "vão provocar um dramático efeito sobre a demanda global de serviços de petróleo de todos os tipos".
O título de outro relatório - este do Credit Suisse - também é um bom indicativo dos efeitos das descobertas no pré-sal sobre a indústria: "Escassez de perfuradoras para águas profundas: a culpa é do Rio." A Petrobras arrendou quase 80% dos navios-sonda com capacidade de perfurar águas profundas disponíveis no mercado mundial, já contratou mais dez sondas de perfuração que chegam entre 2009 e 2011 e vai colocar 24 barcos de apoio exclusivos para Tupi.
Ontem, em nota, a estatal informou que em reunião na noite de segunda-feira com o governo federal, entidades empresariais e representantes da indústria nacional, "informou a intenção de contratar 40 navios-sonda e plataformas de perfuração semi-submersíveis para operar em águas profundas e ultra-profundas. O plano prevê a construção e o recebimento das novas unidades até 2017, com prioridade de construção no Brasil."
As demandas da Petrobras vão afetar em maior ou menor escala as empresas que dispõem hoje de tecnologia para explorar a área do pré-sal. Não por acaso, os bancos já fazem um levantamento dos fornecedores de equipamentos e serviços para esta produção para estimar o potencial de valorização das ações dessas empresas. Enquanto isso, os fabricantes aguardam definições da Petrobras para calcular as novas encomendas.
A Organização Nacional da Indústria de Petróleo (Onip) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) aguardam mais definições da Petrobras para levantar as necessidade de suprimento e financiamento do país, explica o presidente da Onip, Elói Fernandez. "Temos um forte parque industrial já instalado. Os principais fornecedores estão no país. Vejo a possibilidade de o Brasil consolidar seu conhecimento tecnológico para obter ganhos de competitividade em escala internacional", diz ele.
No relatório sobre o impacto do pré-sal sobre a indústria de equipamentos e serviços, o banco UBS calculou que serão necessários US$ 600 bilhões para produzir 50 bilhões de barris de petróleo e gás nos campos já descobertos na Bacia de Santos ao longo de toda vida útil desses reservatórios, que pode ser de 30 anos ou mais. São mencionados especificamente Tupi, Júpiter e os quatro em cima da formação Iguaçu (ou Pão de Açúcar), onde estão os campos Carioca, Caramba e Bem-te-vi e o bloco 22 operado pela Exxon.
O relatório toma como base a estimativa de reservas para a área, ainda não confirmadas, e tenta calcular o número de poços que precisam ser perfurados, assim como o custo atual dos equipamentos para produção. Mesmo sendo um número arbitrário, é uma boa indicação do potencial da área e do esforço necessário para colocar esse petróleo em terra. Para se ter idéia, desde sua criação, em 1954, até 2007, a Petrobras investiu US$ 222 bilhões e o investimento atingiu dois dígitos pela primeira vez em 2005, quando foram investidos US$ 11,2 bilhões. Em 2007, o número saltou para US$ 23 bilhões.
Um resumo do atual humor nesse mercado é dado pelo presidente da Schulz no Brasil, Marcelo Bueno. "Os nossos cenários mais otimistas não previram esse ciclo de investimentos que estamos vendo. Eu diria que nos mercados que temos acompanhado hoje, e mesmo que alguma turbulência nos faça engavetar novos projetos, apenas os que estão em andamento ou contratados garantem nossa demanda pelos próximos cinco ou seis anos. E isso para 100% da nova produção", explica Bueno.
O Brasil responde por 20% da capacidade instalada da Schulz e no fim desse ciclo de investimentos o país passará a responder por 60% da produção e 40% da receita, que foi de ? 180 milhões de euros em 2007. A segunda unidade da Schulz, instalada em Campos, entra em operação em junho e a terceira, para tubos especiais (bimetálicos) estará pronta em 2009, quando o Brasil passa a ser majoritário nos investimentos do grupo alemão.
Com tantas boas perspectivas - em meio a fatos e boatos que às vezes são empacotados juntos -, as definições da Petrobras são aguardadas com ansiedade no mercado.