Título: Brasil vai participar de projetos de infra-estrutura no Haiti, diz Lula
Autor: Felício , César
Fonte: Valor Econômico, 29/05/2008, Brasil, p. A3

Lula e o presidente haitiano Rene Preval: negociações para ampliar presença de empresas brasileiras no país O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem, após reunião no Palácio Nacional em Porto Príncipe com o presidente haitiano René Préval, que o Brasil irá participar de projetos de infra-estrutura no país. De acordo com o presidente, até 13 de agosto, data em que Préval deve visitar o Brasil, já terá sido feita uma análise por técnicos do governo brasileiro de todos os projetos do governo haitiano para a construção de barragens para uso em irrigação e geração de energia elétrica.

"Vamos então tornar concretos projetos que podem significar mudanças estruturantes no Haiti", afirmou. Segundo o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, o Brasil poderá financiar até a totalidade do custo de alguns projetos. "Não são projetos de alto custo em sua maioria e há instrumentos legais para isso, como o Proex e o BNDES. Também é possível realizar financiamentos parciais ou com outros países", disse. Sem rios perenes no país, a capacidade energética do Haiti é de 535 milhões de KWh, segundo dados de 2005.

Na segunda etapa de sua viagem de apenas seis horas ao país, ao visitar o quartel das tropas brasileiras, Lula afirmou que será analisada a construção de uma usina hidrelétrica e uma barragem para a irrigação. "O Brasil dará uma resposta em 13 de agosto se vai construir sozinho ou com outros países esta usina hidrelétrica e esta barragem", disse. No quartel, Lula mais uma vez recorreu a metáforas esportivas ao falar sobre a atuação do Brasil no Haiti . "É como um jogo de futebol. No primeiro tempo estávamos estudando o adversário e nossa preocupação era não tomar gol. No segundo tempo seremos mais ativos", afirmou.

Após quatro anos de presença militar no Haiti, o governo brasileiro se empenha para estender a parceria para outros setores. Há o consenso dentro do governo que o país caribenho precisa de rápidas melhorias econômicas e sociais para que alcance um grau de estabilização que permita o fim das atividades da Minustah, a missão da ONU da qual o Brasil compõe o maior contingente.

Apesar do prazo da missão se esgotar em 15 de outubro, a prorrogação é certa e não há qualquer horizonte para o fim da intervenção. "Vamos ficar enquanto a ONU entender que devemos ficar", disse o presidente. Há pouco mais de um mês, as tropas da ONU reprimiram manifestações contra o governo, em razão do aumento do preço de alimentos. "A pré-condição básica para a paz é o desenvolvimento econômico e social", disse o presidente.

O presidente haitiano também mostrou insatisfação com o perfil militar da missão. "As condições mudaram. Precisamos mais de polícia do que de militares. Não temos mais grupos armados organizados, temos indivíduos armados . Só neste mês tivemos 25 seqüestros", disse Préval. O haitiano afirmou que já pediu aos demais países da Minustah a troca progressiva de militares por policiais na missão. Acrescentou ainda que, na área econômica, o Brasil não é a única carta com que conta para conseguir financiamento de projetos de infra-estrutura. "Eu vou buscar com o governo brasileiro e o venezuelano como concretizar esses projetos", afirmou.

Durante o encontro, foram assinados seis convênios. No mais relevante, o Brasil se comprometeu a enviar financiamento e técnicos da Embrapa para montar uma estação experimental e um banco de sementes de hortaliças na região de Kenscoff, perto da capital.

O fato de o governo haitiano estar demissionário há mais de um mês, já que Préval ainda não conseguiu que o Parlamento aprovasse a indicação de um novo primeiro-ministro, prejudicou a cúpula. Na área econômica, por exemplo, os ministros limitaram-se a conversar na reunião privativa sobre a possibilidade de empresários brasileiros exportarem para os Estados Unidos agregando valor a produtos no Haiti. O país caribenho goza de benefícios tarifários para importações americanas. Segundo Amorim, falou-se em projetos futuros de desidratação de álcool, já que o Haiti possui usinas, mas conta com uma produção ínfima de cana-de-açúcar.