Título: País é prioridade para investimento da UE em meio ambiente
Autor: Leo,Sergio
Fonte: Valor Econômico, 29/05/2008, Brasil, p. A3

Autorizado, desde o ano passado, a financiar projetos sem participação de empresas européias, desde que tenham impacto positivo para o meio ambiente, o Banco Europeu de Investimentos (EIB, da sigla em inglês) enviou ao Brasil dois de seus principais executivos para discutir a fatia que caberá ao país, nos planos de emprestar ? 2,8 bilhões de euros à América Latina, entre 2007 e 2014. O Brasil é absoluta prioridade do banco na América do Sul, e "claramente um dos mais promissores mercados emergentes", afirma o diretor-geral para operações externas do BIE, Jean-Louis Biancarelli.

"Nesta visita não estamos interessados somente em nossos projetos tradicionais, há enormes possibilidades para financiamento de projetos em eficiência energética, redução de emissão de gases, energias renováveis, mitigação da mudança climática", listou Biancarelli, em entrevista ao Valor. Esse tipo de projeto pode ser financiado pelo BIE, mesmo que não haja empresas européias envolvidas, segundo normas aprovadas no início de 2007.

Para os projetos sob o "guarda-chuva" ambiental, o BIE planeja destinar mais ? 3 bilhões de euros, além dos ? 2,8 bilhões de euros já destacados para a região latino-americana, e o Brasil é prioridade. "Estamos otimistas em aprovar ainda em 2008 um projeto sob esse novo guarda-chuva, um financiamento para hidreletricidade", disse o diretor do EIB para Ásia e América Latina, Francisco de Paula Coelho, que evita dar mais detalhes. Biancarelli admite, porém, que o BIE poderá ajudar a financiar os novos projetos de hidrelétricas na Amazônia brasileira. O primeiro projeto do BIE beneficiando exclusivamente empresa não-européia foi, coincidentemente, para uma brasileira, a Odebrecht, que ganhou em 2007 uma licitação para obras de saneamento na Cidade do Panamá.

Os dois executivos encontram-se ontem com o secretário da Fazenda do Rio, Joaquim Levy, com o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, e com o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo. No Rio, entre outros projetos, os executivos discutiram com o BNDES os planos para a linha de trem de alta velocidade entre São Paulo e Rio - que não entusiasma os europeus. "Acreditamos que esse projeto será muito custoso e que a justificação econômica do empreendimento vai requerer mais estudos", resume Biancarelli.

O interesse por outros investimentos no país, mesmo sem participação de firmas européias, é forte, porém. "Não haverá falta de recursos para o Programa de Aceleração de Crescimento (PAC), a questão é evitar duplicação de esforços e aproveitar a expertise da cada um", comentou Biancarelli. "No campo dos transportes e infra-estrutura, quase todo projeto mostrado a nós dentro do PAC é elegível pelos critérios do BIE", disse.

Com disponibilidade de recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento, do Banco Mundial, do BNDES e de outras fontes internacionais de financiamento, a preocupação do governo tem sido selecionar os projetos que melhor aproveitem as vantagens competitivas de cada instituição multilateral, e evitem um excesso de linhas de financiamento que possa causar pressões inflacionárias, relata Biancarelli.

"Os parâmetros macroeconômicos, no Brasil, acendem a luz verde, é mais uma questão de seleção, justificação econômica dos projetos, e absorção desses investimentos na economia, com redução da burocracia para execução dos projetos", resume. Financiador de projetos bem-sucedidos, como a Veracel Celulose, na Bahia, e a ampliação da rede de transmissão da Coelce, a companhia elétrica do Ceará, o BIE dá empréstimos de, em média, ? 70 milhões de euros, mas o valor pode ser substancialmente maior, como os ? 250 milhões de euros emprestados à Vivo para migração, para o sistema GSM, de sua rede de celulares, e o projeto, em fase de conclusão, também para rede celular de segunda e terceira gerações, da TIM (entre ? 200 milhões e 300 milhões de euros). O BIE já emprestou ? 1,4 bilhão de euros ao Brasil nos últimos dez anos, quase 50% do total emprestado à América Latina.