Título: Comoção por terremoto mobiliza o país e governo busca canalizar reação
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Fonte: Valor Econômico, 29/05/2008, Internacional, p. A10
Passa das nove da noite, e já não há tanta gente trabalhando nos andares do prédio metálico que cresce sem paciência ao lado do centenário Beijing Hotel, no coração de Pequim. Aos poucos, um grupo de pedreiros encardidos de pó e cimento deixa a construção e segue até o calçadão que corta a avenida Chang An, um dos poucos lugares do centro onde carros e motos estão impedidos de passar.
De cócoras, os pedreiros chineses olham para as telas de cinema penduradas nas fachadas dos prédios e assistem as cenas dos terremotos que, desde o último dia 12, insistem em castigar a Província de Sichuan, na região central da China. A população se aglomera na rua, se comove com as imagens e atrapalha o caminho dos que seguem apressados para o metrô.
O governo chinês tem sido persuasivo em transmitir informações sobre o desastre . Nos telões de Pequim, os horrores de Sichuan ganharam linguagem de videoclipe. Em câmera lenta, cenas de soldados, montes de entulho e gente morta e ferida são misturadas com melodias tristes. Nas residências e hotéis, a programação da TV foi alterada. Canais de entretenimento e emissoras estrangeiras foram tirados do ar e deram lugar a uma tela preta com mensagens de pesar e consternação. Na TV estatal chinesa CCTV, voz oficial do Partido Comunista, um apresentador tenta explicar os desastres para crianças usando uma lousa com desenhos e bonequinhos playmobil.
A todo instante, surge uma nova campanha para arrecadar doações, se espalham por ruas e avenidas como a Chang An, onde um grupo de enfermeiros cadastra doações de sangue e dinheiro.
Tem sido assim por todo o país. Na última semana, o gigante asiático parou. Foram três dias de luto oficial. No primeiro deles, houve três minutos de silêncio, "uma demonstração de lamento público sem precedentes no país", escreveu na primeira página o "South China Morning Post". Em Hong Kong, operários da construção civil deixaram as obras e a bolsa de valores congelou as operações. Poucos foram até as praças para a prática diária do tai chi chuan. O trânsito caótico da cidade deu uma trégua.
O cenário não era outro em Shenzhen, na Província de Guangdong. Boa parte do comércio da cidade fechou. Um dos lugares mais visitados, o parque de réplicas - com suas imitações de Torre Eiffel, pirâmides do Egito e até do Cristo Redentor - não abriu as portas.
O luto do povo chinês ainda não tem data para acabar. A todo instante, sobem as estatísticas do desastre natural. Há uma semana, falava-se em 30 mil mortos. Ontem os números já se aproximavam de 70 mil vítimas fatais. Segundo o escritório de informação do Conselho de Estado, mais de 360 mil pessoas ficaram feridas e outras 20 mil estão na lista de desaparecidos. Ao todo, cerca de 15 milhões de chineses estão abrigados em tenda improvisadas.
"Há um clima de tristeza em todo o país, mas a gente também vê uma união muito forte entre as pessoas", diz o brasileiro Gustavo de Jacobina Rabello, diretor do escritório Noronha Advogados, baseado em Xangai.
No dia em que a China foi sacudida pelo pior tremor dos últimos 30 anos, Rabello trabalhava no 14º andar de seu escritório, em um edifício de 40 andares no centro de Xangai. Embora estivesse a mais de mil quilômetros de distância do epicentro do terremoto, ele pode ter uma boa idéia do que se sucedia na Província de Sichuan. "Por alguns minutos nosso prédio balançou muito, e eu achei que estava com vertigem", lembra. "Vi as mesas e cortinas se mexendo, daí saímos correndo pela escada. Em poucos minutos as ruas ficaram lotadas de gente."
O governo chinês diariamente refaz as contas do desastre. Estima-se que a reconstrução das áreas atingidas poderá demorar até três anos. Há uma semana, o custo das obras eram calculados em US$ 10 bilhões, mas esse valor já parece não ter sentido. Nas últimas 48 horas, novos abalos levaram ao chão mais 420 mil casas.
Agora a preocupação do governo volta-se para os 34 lagos artificiais que o desmoronamento de terras criou ao longo das montanhas. Segundo o Ministério de Recursos Minerais, 28 represas ameaçavam estourar e inundar de lama vilas inteiras. Cerca de 260 mil pessoas tiveram que deixar suas casas às pressas, enquanto escavadeiras correm na tentativa de abrir valas para drenar a água. As chuvas que já mataram 50 pessoas.
O governo, enquanto resgata as vítimas, tenta conter efeitos colaterais, como uma possível alta dos alimentos. A Província de Sichuan responde sozinha por cerca de 10% da criação de suínos de toda a China. Na China Yurun Food Group, principal criadora de porcos na região, as operações estão suspensas, mas a companhia informou que o impacto deverá ser pequeno.
A catástrofe humanitária e as adversidades enfrentadas pelos chineses também têm efeitos políticos claros. A crise entre a China e o Tibete, que vinha ridicularizando a volta da tocha olímpica pelo mundo, já é um assunto distante e indigesto. Na última semana, o governo tibetano, em exílio, pediu a interrupção dos protestos.
De seu lado, o Partido Comunista também se beneficia com a divulgação de informações e pedidos de ajuda internacional, um posicionamento que distancia a China de tradicionais posturas radicais, como a adotada por Mianmar, onde o governa militar tem dificultado o auxílio vindo de fora. No último domingo, os generais do país asiático voltaram a receber um apelo para que dêem acesso a trabalhadores humanitários estrangeiros. O ciclone Nargis, que atingiu o país no início do mês, já deixou um rastro de 134 mil mortos e 2,5 milhões de desabrigados.
A China, mais flexível, recebe as condolências e doações de toda parte. O clima, que a aproxima de outras nações, também a distancia da imagem de quem está a pouco mais de dois meses para realizar a festa dos Jogos Olímpicos. As prioridades são outras. Na última terça-feira, uma comunidade de 180 brasileiros que vive em Xangai organizou um jantar. Nada de farra. "Fizemos esse encontro e conseguimos arrecadar US$ 2,1 mil para ajudar nos resgates", diz Gustavo de Jacobina Rabello. "Já é algo."