Título: Investidor dos EUA estuda lançar fundo de US$ 200 milhões para projetos no país
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 02/06/2008, Brasil, p. A8

Depois da aprovação pelo Supremo Tribunal Federal (STF) de pesquisas com células-tronco embrionárias, aparecem os primeiros sinais de que não devem faltar recursos. A Burril & Company, um dos maiores investidores em biotecnologia dos Estados Unidos, planeja lançar um fundo de capital de risco com US$ 200 milhões a US$ 300 milhões, para investir em inovação em ciências da vida (saúde, biotecnologia e agricultura) no Brasil.

A informação é da cientista brasileira Gabriela Cezar, uma das parceiras do fundo, professora da Universidade de Wisconsin-Madison e sócia da empresa de biotecnologia Stemina. Presidida por Steve Burrill, um dos homens mais influentes do setor de biotecnologia dos EUA, a Burrill & Company, com sede em São Francisco, administra US$ 950 milhões investidos em companhias do setor.

De acordo com Gabriela, o objetivo do fundo, que será um híbrido entre private equity e venture capital, é financiar empresas que surjam a partir de pesquisas desenvolvidas nas universidades, além de transferir tecnologia dos EUA para o Brasil. "A criação de empresas é a forma mais direta de transformar descobertas de laboratório em produtos", disse a cientista ao Valor. "Não só para beneficiar os pacientes, mas também para gerar desenvolvimento para o país".

Gabriela acompanhou Burrill a uma viagem ao Brasil em setembro de 2007, quando surgiu a idéia do fundo. Daqui há duas semanas, ela se reúne com empresas, investidores e órgãos do governo brasileiro em San Diego durante a Bio, maior conferência de biotecnologia do planeta. A cientista diz que o setor gera US$ 6 bilhões de faturamento apenas para o Estado de Wisconsin, onde existem 150 empresas.

"Se o STF tivesse tomado uma decisão mais restritiva, estaríamos com as mãos amarradas como investidores", diz Gabriela, que acompanhou com ansiedade o julgamento. "Eu estava contando cada voto", diz. A cientista acredita o Brasil tem potencial, porque já possui know-how e pesquisas interessantes na área de células-tronco embrionárias.

Com 35 anos, Gabriela tem vasta experiência. Ela foi citada pela revista americana Forbes com uma das 12 cientistas que está transformando as células-tronco de promessa em realidade. A brasileira trabalha ao lado de James Thomson, o "pai" das células-tronco embrionárias, primeiro cientista a criar essas células em laboratório em 1998. Thomson foi um dos membros da banca de doutorado de Gabriela na Universidade de Wisconsin há 10 anos.

Nascida em Goiânia e formada em veterinária pela Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Gabriela fez mestrado na Escócia com o time que clonou a ovelha Dolly. Depois do doutorado nos EUA em medicina humana, a cientista foi para a Pfizer, mas abandonou a iniciativa privada e voltou para a academia para trabalhar na pesquisa de células-tronco humanas.

"Faço células de cérebro humano em laboratório para identificar riscos de medicamentos", diz Gabriela com naturalidade. "Também estou muito ligada a doenças pediátricas de neurodesenvolvimento, como o autismo". Em sua pesquisa, ela expõe células-tronco embrionárias a vários componentes químicos diferentes. Um dos objetivos é evitar efeitos colaterais dos medicamentos, a quarta maior causa de morte nos EUA, atrás de doenças cardíacas, câncer e derrame. "Com as células-tronco embrionárias, podemos prever com mais rigor os efeitos colaterais. Hoje tomamos a decisão sobre a liberação de remédios com base em pesquisa com camundongos", disse Gabriela. Além de ajudar os pacientes, a pesquisa vai evitar que as farmacêuticas percam dinheiro.

"Existe muita especulação, mas estudos científicos em animais já mostram que a terapia com células-tronco é uma alternativa para tratar doenças que hoje não tem cura", afirmou a cientista. Para ela, está surgindo uma nova modalidade de medicina, a regenerativa. Com a ajuda de células-tronco embrionárias, pode ser possível regenerar tecidos que estão comprometidos por doenças graves.

Ela explicou que apenas as células tronco embrionárias tem capacidade de se transformar em 220 tipos diferentes de células que poderiam ser transplantadas para cérebro, coração, pâncreas ou ossos. A cientista enfatiza que o efeito mais imediato para os pacientes será uma revolução na fabricação de remédios. (RL)