Título: Importados da China sobem e reduzem concorrência
Autor: Landim , Raquel
Fonte: Valor Econômico, 30/05/2008, Brasil, p. A3
A apreciação do real funciona como um dique, protegendo a economia brasileira da inflação chinesa - uma verdadeira enxurrada de alta de preços, provocada pela explosão das commodities e pelo encarecimento da mão-de-obra no gigante asiático. Nos últimos meses, porém, a pressão foi tão forte que a muralha apresentou algumas rachaduras e começou a vazar.
Os preços dos importados da China subiram 4,4% em dólar e 1,6% em real no primeiro trimestre deste ano em relação ao quarto trimestre de 2007, conforme dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior elaborados pelo Bradesco. O escudo da valorização funcionava perfeitamente até pouco tempo. Na comparação com o primeiro trimestre de 2007, os preços dos produtos importados da China subiram 12,7% em dólar, mas caíram 7% em real.
Um análise setorial feita pelo Bradesco apontou aumento dos preços de importação, em reais, dos produtos chineses nos setores calçadista e de material elétrico no primeiro trimestre em relação ao quarto trimestre de 2007. Nos setores têxtil, equipamentos eletrônicos e plástico, os preços seguem em queda nessa comparação, mas em ritmo mais fraco.
Os dados indicam que a demanda interna forte e a alta dos importados abriram uma brecha para os fabricantes nacionais promoverem reajustes. Se isso está ou não ocorrendo, varia de setor para setor. Enquanto alguns fabricantes preferem refazer as margens de lucro e repassar os aumentos de custos, outros optam por retomar a participação no mercado local.
O departamento econômico do Bradesco analisou os setores de equipamentos eletrônicos, material elétrico, calçados, têxtil, vestuário e plástico. O banco cruzou os dados dos preços de importação em reais (totais e vindos da China) com o Índice de Preços no Atacado (IPA), da Fundação Getúlio Vargas, para observar a correlação entre os dois indicadores.
Em eletrônicos, os indicadores andam muito próximos, dado o peso das importações no consumo e a importância da China como fornecedora. No primeiro trimestre de 2008 em relação ao quarto trimestre de 2007, o IPA do setor subiu 0,5%. Os preços dos importados de todos os destinos, em reais, avançaram 6%. Se a origem for a China, ainda há uma pequena queda de 1,35%.
A valorização do real já foi mais eficaz para conter o aumento dos produtos chineses e garantir o bom comportamento dos preços nacionais dos eletrônicos no atacado. Em relação ao primeiro trimestre de 2007, os preços dos importados da China subiram 12,6% em reais, mas caíram 7,2% em dólares. Já o IPA cedeu 4%.
Os fabricantes de calçados e têxteis estão entre os que mais reclamam da concorrência da China. Apesar da pequena participação do país no consumo interno desses produtos, as empresas argumentam que os chineses pressionam os preços para baixo. Segundo os fabricantes, a concorrência é desleal, porque os calçados e tecidos chineses chegam subfaturados.
Para esses setores, o aumento dos preços dos produtos chineses é um alívio. No primeiro trimestre em comparação com o quarto trimestre de 2007, o IPA de calçados subiu 1,4%. Os preços dos sapatos importados da China aumentaram 5,3% em dólares e 1,8% em reais. Em têxteis, o IPA avançou 1,2%, mas os preços dos importados chineses caíram 1,4% em dólares e 4% em reais. Pode ter sido uma queda momentânea. Na comparação com janeiro a março de 2007, os preços dos têxteis importados da China subiram 15% em dólares e caíram 5% em reais.
"Mais cedo ou mais tarde, os preços na China subiriam, devido ao encarecimento da mão-de-obra. Isso aconteceu no Japão, na Coréia e em Taiwan", explicou Fábio Silveira, sócio da RC Consultores. Ele ressaltou que contribuem também a alta das commodities e, principalmente, o enfraquecimento do dólar, que baliza os preços de importação em todo o mundo.
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