Título: De partido-modelo a mau exemplo
Autor: Maria Cristina Fernandes
Fonte: Valor Econômico, 18/02/2005, Política, p. A

Os três primeiros homens da República não têm formação universitária. Fernando Limongi, presidente do Cebrap, faz a constatação e vê, depois da tempestuosa eleição do deputado Severino Cavalcanti (PP-PE) à presidência da Câmara, um copo meio cheio. No meio daquela apoteótica posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foi Severino quem tocou a corda dissonante. No dia em que a Praça dos Três Poderes viveu seu dia de Bastilha, Severino, como primeiro-secretário da Câmara, acolheu Lula no plenário com um discurso em que lembrava a coincidência de suas biografias de migrantes e egressos do agreste pernambucano. Para quem via na posse de Lula uma promessa de revolução na política, Severino já estava ali para dizer que o barro de idealistas e compadres era o mesmo. Fica difícil sustentar, por exemplo, que a costura para a eleição de Severino, desrespeitando a proporcionalidade das bancadas da Câmara, é mais condenável que a decisão do PT de escolher como candidato um deputado que havia ficado em quarto lugar na preferência de seus pares.

O PT justificou a escolha de Luiz Eduardo Greenhalgh (SP) pela necessidade de fazer aceno à esquerda do partido e às suas desencantadas bases sociais. Neste quesito teriam sido mais producentes providências para se evitar o mar de sangue em que se transformou o conflito agrário no Pará. Greenhalgh foi escolhido porque inspirava mais confiança na cúpula do PT para as costuras eleitorais de 2006, particularmente na imbricada sucessão paulista. Se isso não for compadrio, os banheiros que Severino está prometendo nos gabinetes de todos os deputados são a universalização do saneamento público. Limongi reconhece dificuldades futuras para o governo e aponta erros na articulação governista, mas não vê como Severino possa trazer danos institucionais sérios à Câmara. Não se lhe apresente o prontuário de fisiologismo do deputado. Diz que todos os parlamentos do mundo convivem com essas práticas e que a onda de indignação nacional vai além da cafonice exuberante - "Temos uma Câmara que reflete mais a sociedade. E esse Brasil não se reconhece no espelho". Cita os levantamentos de Leôncio Martins Rodrigues sobre a redução no número de parlamentares com origem no meio empresarial e o aumento da quantidade de eleitos recrutados na classe média. O autor chega a falar de uma certa "popularização da classe política" e adianta como hipótese que esses parlamentares são menos compromissados com suas legendas que os sindicalistas e os empresários. A tese ajuda mais a desmistificar o chamado baixo clero do que a explicar a virada de Severino. Não houve uma rebelião dos parlamentares contra as cúpulas, mas um movimento em grande parte costurado pelas lideranças sob o fermento da insatisfação da base. Essa insatisfação já estava presente desde o início do ano passado e não foi sustada a tempo pelo governo. No levantamento feito por Limongi sobre o grau de adesão das bancadas aliadas (ver tabela) está claro que o governo perdeu apoio em todos os partidos em 2004. A base diminuiu seu grau de adesão, mas os partidos que menos flutuaram de um ano para outro foram precisamente aqueles sobre os quais pesa a pecha de fisiologistas - o PP de Severino Cavalcanti e o PTB de Roberto Jefferson. Na média desse período, Severino Cavalcanti, teve um comportamento de governista exemplar - aliou-se com a base em 85% das votações. De um ano para outro a base parlamentar foi ampliada com a entrada do PMDB no governo e o apoio informal do PP, que ganhou cargos de segundo escalão. O PMDB reduziu significativamente seu grau de apoio depois que entrou para o ministério. A explicação, para Limongi, tanto pode estar na popularidade desfrutada por Lula no primeiro ano de governo, que levou de roldão os partidos, quanto na pauta parlamentar. A segunda hipótese, no entanto, esbarra na extraordinária adesão dos partidos à reforma da Previdência em 2003, a mais difícil já aprovada por Lula desde o início do seu mandato. A única conclusão sem risco de erro da evolução da disciplina partidária no governo Lula é que a ampliação da base não lhe conferiu consistência. "É assim em todos os lugares do mundo", diz Limongi. "Quando se tem uma base mais folgada, a tendência é relaxar a disciplina". O que o dados do Cebrap mostram é que a saída para a crise instaurada pela eleição de Severino pode estar mais na busca de uma maior consonância entre os aliados e a pauta governista do que na ampliação desenfreada da base via reforma ministerial. Limongi teme ainda que, como subproduto da crise, a reforma política surja como a solução mágica para o fortalecimento dos partidos e o antídoto para o troca-troca de legenda. Para evitar essa migração desenfreada que levou parlamentares a permanecerem menos de 24 horas numa legenda, Limongi sugere uma medida simples. Que se estabeleça a data da diplomação dos deputados como aquela que vai servir de base para a eleição das mesas. A medida já foi capaz de evitar essa mesma promiscuidade às vésperas da definição do horário gratuito de televisão - "Vale mais do que qualquer lei de fidelidade partidária". O presidente do Cebrap vê com ceticismo as teses rebuscadas sobre fortalecimento de partidos - "Não é criando um monte de PTs que se resolve a situação do Congresso". No máximo, diz, vai-se produzir uma profusão de Virgílios.