Título: "Severino é produto político do PT"
Autor: Janaina Vilella
Fonte: Valor Econômico, 18/02/2005, Política, p. A13
O ex-governador e secretário estadual de Governo, Anthony Garotinho, afirmou ontem que o presidente eleito da Câmara dos Deputados, Severino Guimarães (PP-PE), é produto do próprio PT. "O governo não pode criticar o Severino porque o PP é da base aliada do governo. Ele (governo) não pode criticar fisiologismo porque quem inchou o PT, o PTB e o PL de deputados foi o próprio governo. O Severino é um produto da política do PT. Agora a criatura se volta contra o criador, que no caso é o Dirceu. (ministro-chefe da Casa Civil)", disse Garotinho depois de participar, no Rio, da cerimônia de posse do presidente da Associação de Prefeitos e Municípios do Estado do Rio de Janeiro (Apremerj), Vicente Guedes. Para a governadora do Rio, Rosinha Matheus, também presente ao evento, a vitória de Severino é uma prova de que "o Congresso não agüenta mais o PT". Rosinha disse ainda que o presidente eleitor irá fazer a Câmara "mais democrática" e que "o PMDB está cada vez mais forte". Questionada, então, sobre o partido não ter apoiado Severino a princípio, afirmou: "Mas o apoiamos no segundo turno". Ao discursar à tarde para militantes do partido, durante reunião do diretório regional do PMDB, Garotinho comparou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Severino, lembrando que ambos são pernambucanos e não completaram o segundo grau: "O presidente Lula e seus aliados estão falando mal do Severino, mas ele (Severino) é igual ao presidente Lula. É pernambucano e não tem segundo grau. Se Lula serve para governar o Brasil, porque o Severino não serve para presidir a Câmara?" Na avaliação de cientistas políticos ouvidos pelo Valor, as manobras políticas do ex-governador para garantir a vitória do deputado Saraiva Felipe (PMDB-MG) na briga pela liderança do partido pode atrapalhar os planos do ex-governador de se lançar candidato à Presidência da República, em 2006. De acordo com o cientista político e professor da PUC-RJ, Cesar Romero Jacob, os demais caciques do partido, que até então não se mostravam ameaçados pelas manobras políticas de Garotinho dentro da legenda "podem achar que ele está indo com muita sede ao pote, na tentativa de antecipar o debate presidencial". "Os demais chefes do PMDB podem não gostar da idéia de Garotinho se tornar o cacique do partido. Depois das eleições municipais em Campos dos Goytacazes, a imagem do ex-governador sai, mais uma vez, arranhada devido aos métodos que ele usou para atrair novos deputados para o partido", analisa Jacob. Além de inverter a posição na bancada do PMDB, que tinha uma maioria alinhada com o Planalto, Garotinho também ajudou a articular, nos bastidores, a derrota do candidato oficial do PT à presidência da Câmara, deputado Luiz Eduardo Greenhalgh. Apesar de ter apoiado Virgílio Guimarães (PT-MG), derrotado na disputa, negociou com os deputados do partido a transferência dos votos, no segundo turno para Severino. Para a cientista política Lúcia Hippolito, não se pode afirmar que Garotinho tenha saído fortalecido da eleição na Câmara. "Garotinho ficou fortemente vinculado ao Virgílio neste episódio. E a verdade é que quem deu a maioria dos votos para o Severino foi o PSDB e o PFL", disse Lúcia. (Com agências noticiosas)