Título: Crise assusta o mercado
Autor: Sabadini, Tatiana
Fonte: Correio Braziliense, 22/02/2011, Mundo, p. 20
REVOLTA NO ORIENTE MÉDIO Com a violência se espalhando na Líbia, petróleo sobe e empresas estrangeiras começam a se retirar do país
Para a economia mundial, o maior impacto da crise política da Líbia, terceiro maior produtor africano de petróleo, está nas cotações das commodities e nas operações de empresas do setor naquele país. A escalada de protestos em países muçulmanos vem deixando apreensivos mercados importadores. A Líbia é um dos maiores fornecedores de petróleo para a Europa, sendo responsável por 10% do abastecimento. Ontem, o preço do barril atingiu US$ 108 em Londres, seu maior nível desde setembro de 2008.
A rede de TV árabe Al Jazeera informou que trabalhadores no campo de petróleo de Nafoora entraram em greve, o que teria provocado a interrupção da produção. A britânica BP disse que suspendeu temporariamente seus planos para perfurações no país, onde ainda não produz petróleo. A Líbia responde por 2% do produto extraído no mundo ¿ o faturamento com os campos representa 25% de seu Produto Interno Bruto (PIB).
Depois que manifestantes contrários ao governo foram mortos em Benghazi e revoltas se espalharam para a capital, Trípoli, durante o fim de semana e ontem, a Wintershall, unidade de exploração de petróleo e gás natural da Basf, informou que se preparava para cortar sua produção na Líbia, equivalente a 100 mil barris diários, e retirar os funcionários estrangeiros do país. Empresas como a Royal Dutch Shell e a OMV também anunciaram que adotarão a mesma medida. Segundo a imprensa líbia, manifestantes antigoverno saíram às ruas de Ras Lanuf, cidade que sedia uma refinaria de petróleo e um complexo petroquímico. Um comitê especial de trabalhadores e moradores locais estava sendo criado para proteger as instalações.
A maioria das operações de produção de petróleo da Líbia está localizada no leste do país e ao sul de Benghazi, a segunda maior cidade do país, que, segundo relatos da imprensa internacional, já não estaria mais sob controle das forças leais ao presidente Muamar Kadafi. A extração no campo de petróleo de Murza, administrada pela espanhola Repsol, e em Eni, ainda não foi afetada.
Apesar de o fornecimento de petróleo não ter sido interrompido, algumas empresas já contabilizam prejuízos na produção. No último domingo, Faraj al-Zuway, chefe da tribo Al-Zuwayya, afirmou que interromperá o fornecimento para o Ocidente caso autoridades mundiais não ajudem a depor Kadafi.
Petrobras O presidente da Petrobras, José Sergio Gabrielli, afirmou ontem que os preços do petróleo deverão continuar oscilando no mercado internacional em razão de incertezas no Oriente Médio e das taxas de juros baixas, que tornam mais atraente o mercado futuro da commodity. Gabrielli destacou que existem dúvidas sobre como será o comportamento da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) nos próximos meses e as consequências dos conflitos em países como a Líbia.
Ele confirmou que, enquanto o preço do petróleo não for estabilizado, a Petrobras não irá aumentar os três únicos produtos da estatal que não seguem fórmula de ajuste automático em relação ao mercado externo: gasolina, diesel e gás natural (GLP).