Título: IGP-DI mostra pressões no atacado e no varejo
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Fonte: Valor Econômico, 10/06/2008, Brasil, p. A3
O Índice Geral de Preços - Disponibilidade Interna (IGP-DI) de maio mostrou uma piora no comportamento da inflação, com altas fortes no atacado, no varejo e na construção civil. O indicador subiu 1,88% - a maior variação mensal desde os 2,17% de janeiro de 2003.
A maior fonte de pressão veio do Índice de Preços no Atacado (IPA), que tem peso de 60% no IGP-DI. O indicador avançou 2,22%, influenciado pelo recrudescimento da inflação tanto dos produtos agrícolas quanto dos industriais. O IPA agrícola teve alta de 2,47%, com uma deterioração expressiva em relação ao 0,08% do mês anterior. O tomate subiu 19,67% e o feijão, que caíra 11,36% em abril, aumentou 3,89%. O arroz em casca teve alta de 15,98%, muito forte, mas bem menor que os 27,78% do mês anterior. O grupo de carnes também teve alta expressiva. Os bovinos "registraram o terceiro mês seguido de altas superiores a 3,5%", observa o economista Luís Fernando Azevedo, da Rosenberg & Associados. Em maio, subiram 3,99%.
No IPA industrial, o resultado também não foi dos melhores: alta de 2,13%. Houve forte aceleração dos preços do óleo diesel, de 0,67% em abril para 7,19% em maio. A disparada reflete o reajuste promovido pela Petrobras no começo do mês passado. O economista Gian Barbosa, da Tendências Consultoria Integrada, cita ainda a alta do minério de ferro e de adubos e fertilizantes como pressões acentuadas. O primeiro subiu 11,38%, e o segundo, 8,14%.
Um núcleo do IPA calculado por Azevedo dá uma idéia clara de que a pressão no atacado não é localizada. O indicador, que exclui combustíveis e alimentos brutos e processados, teve alta de 1,95% em maio, com aceleração em relação ao 1,77% de abril. O indicador tem avançado mês a mês desde novembro de 2007. Persiste o temor de que pelo menos parte dessas pressões chegue ao varejo.
O coordenador de análise econômica da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Salomão Quadros, reconhece que os números são elevados, mas diz que não houve apenas más notícias no IGP-DI de maio. Ao comentar a evolução dos bens intermediários no atacado, ele nota que a inflação do grupo materiais e componentes para manufatura registrou desaceleração, caindo de 1,91% em abril para 0,99% em maio. "Ainda é um número alto, mas é um sinal de que pode estar em curso um processo de descompressão", diz Quadros, observando que o grupo tem impacto importante sobre os custos da indústria.
Ele também destaca que o IPA foi afetado pela alta de 6,5% do grupo combustíveis e lubrificantes para a produção, impulsionada pelo reajuste do óleo diesel. "Como o diesel tem seu preço controlado e acabou de ter um aumento forte há pouco tempo, os combustíveis e lubrificantes não devem repetir a elevação de maio." Quadros diz que, depois dos aumentos fortes em abril e maio, as cotações do minério de ferro tendem a se acomodar, acrescentando que os preços do trigo e da soja também dão sinais de arrefecimento. Com isso, há uma possibilidade de trégua na alta de insumos importantes.
Com peso de 10% no IGP-DI, o IPC teve alta de 0,87%, pressionado pelo grupo alimentação, que pulou de 1,69% em abril para 2,33% em maio. O item saúde e cuidados pessoais registrou aumento considerável, de 0,64% para 0,81%.
O Índice Nacional do Custo da Construção (INCC), por fim, também mostrou forte aceleração, de 0,87% em abril para 2,02% em maio. A inflação do grupo de materiais e serviços subiu de 0,86% para 1,61%. Barbosa diz que essa alta reflete a elevação mais forte das cotações de minérios e metais.
O grupo que teve maior elevação, porém, foi o de mão-de-obra, que passou de 0,88% em abril para 2,5% em maio. "Isso foi conseqüência de reajustes salariais nas cidades de São Paulo, Brasília, Goiânia e Fortaleza", nota Azevedo. Ele revisou a sua previsão para o IGP-DI em 2008, de 8,5% para 9,5%, e para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), de 5,5% para 6%.
O Índice de Preços ao Consumidor - Semanal (IPC-S) também subiu com força. Calculado com base em preços entre 8 de maio e 7 de junho, passou de 0,87% em abril para 1,12% em maio.