Título: Itamaraty tem greve inédita por reajuste
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 11/06/2008, Brasil, p. A11

O secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães, minimizou o impacto da inédita paralisação de oficiais e assistentes de chancelaria, por maiores salários, realizada ontem, e informou ao Valor, que a reivindicação de reajustes é "razoável" e, pelo menos em parte, será atendida. O governo aceita reajustar o salário dos oficiais de chancelaria, funcionários de carreira, com educação de nível superior, que assessoram os diplomatas, com base em uma tabela na qual o salário máximo chegará a US$ 9.046,00. Assistentes de chancelaria, com formação de segundo grau, ainda discutem o reajuste.

Segundo o Ministério do Planejamento, porém, os reajustes a serem concedidos serão parcelados, e o valor integral só será pago a partir de 2010. Os representantes da associação dos oficiais de chancelaria queixam-se de que não participam das discussões com o Ministério do Planejamento e reivindicam assento à mesa em que os dirigentes do Itamaraty vem negociando o reajuste. Para os assistentes de chancelaria, o governo oferece reajustes lineares nos salários, de 24%, enquanto a reivindicação dos funcionários chega a 46%. Deve-se chegar, com a negociação, a algo próximo a 30%, arrisca um assessor da equipe econômica.

Segundo Pinheiro Guimarães, "a greve é um direito do trabalhador, não nem um mal nem um bom sinal, é um fato semelhante ao que ocorre em outros setores da sociedade e do Estado". Ele reconheceu que, no passado, o que os oficiais de chancelaria recebiam, nos últimos níveis da carreira, se aproximava dos níveis iniciais da carreira de diplomata. "Com o decorrer do tempo houve uma progressiva diferença entre esses níveis salariais e os oficiais de chancelaria querem recuperar essa situação, o que eu acho razoável".

"Essa reivindicação será atendida", garantiu Samuel Pinheiro Guimarães. Os oficiais de chancelaria, ontem, informavam não ter ainda recebido a resposta do governo. Pretendiam avaliar a proposta de mudança salarial, mas adiantavam que não aceitam o projeto em elaboração no Ministério de Planejamento, que, ao aplicar a nova tabela para os funcionários menos graduados, concederia também um novo reajuste aos diplomatas, ampliando novamente a diferença entre os salários das carreiras.

Segundo informações do Ministério do Planejamento, pelo menos cinco carreiras deverão receber reajustes, a serem aplicados progressivamente até 2010: além dos diplomatas, os gestores, os funcionários aduaneiros, da Receita Federal, os funcionários do Banco Central e os da carreira de Planejamento e Orçamento. Essa nova rodada de reajustes salariais deve ser apresentada em breve.

Os oficiais de chancelaria cobram do governo um plano de carreiras semelhante ao da Agência Brasileira de Informação (Abin), pelo qual, em outubro, o maior salário da principal carreira, a de oficial de inteligência, chegará a R$ 13,5 mil em outubro, o de oficial técnico de inteligência (carreira equivalente à do oficial de chancelaria) a R$ 11,9 mil, e a do auxiliar, a R$ 6,2 mil. Além do apoio aos diplomatas, no Brasil, os 838 oficiais e 624 assistentes de chancelaria garantem o funcionamento regular das embaixadas no exterior.