Título: Demanda forte facilita reajustes na construção
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Fonte: Valor Econômico, 19/06/2008, Brasil, p. A6

O aquecimento no setor imobiliário abriu espaço para uma inflação de demanda e já leva empresas do setor a estudar a possibilidade de importar materiais de construção. A inflação no segmento da construção acelerou em junho para o nível mais alto desde junho de 2003. O Índice Nacional de Custo da Construção (INCC) apurado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), medido no intervalo de 30 dias até 10 de junho, subiu 2,66%, ante variação de 0,85% em maio. De acordo com Salomão Quadros, coordenador de análises econômicas da FGV, a disparada de preços na construção foi tão intensa que o seu peso no Índice Geral de Preços (IGP) equiparou-se à contribuição do setor atacadista. O Índice de Preços por Atacado (IPA) responde por 42% do IGP.

Em 12 meses, o INCC acumula alta de 8,52% (a variação mais alta desde setembro de 2005). A variação mais intensa poderá inflacionar o mercado imobiliário, pois imóveis residenciais em construção podem ser reajustados pelo IGP ou por de índices setoriais, como o INCC e o Custo Unitário Básico (CUB), observa Ana Maria Castelo, economista e especialistas na área de construção da FGV Projetos. "A demanda no setor imobiliário está bastante aquecida, o que permite o repasse de preços praticamente em toda a cadeia, da indústria para as construtoras e destas ao consumidor final", afirma.

De acordo com a FGV, em junho, o aumento do INCC-10 teve como principais influências o reajuste salarial de 8,5% dos trabalhadores da construção civil de São Paulo que ocorreu em maio, mas que ainda aparecem nesse indicador. Em outros Estados o reajuste ficou na faixa de 7%. Segundo Quadros, da FGV, a alta é típica para o mês, mas ficou bem acima dos reajustes ocorridos em anos anteriores. Em 2007, a alta foi de 1,51%.

Além de mão-de-obra, o grupo materiais e serviços subiu 1,76%, a maior variação desde março de 2003. O principal fator de pressão foi o reajuste do aço e seus derivados. "Mas praticamente todos os produtos subiram, em função da demanda aquecida", observa Quadros. Ele citou como exemplos a alta de vergalhão de aço (6,34%), tubos de aço (11,72%), aço semi-acabado carbono (14,15%), esquadrias de metal (5,32%), areia (4,64%), cimento (2,66%), laje pré-moldada (3,17%), taco ou tábua corrida (1,85%), rodapé de madeira (1,55%), todas na taxa de junho.

Quadros ressalta ainda que o mercado aquecido está permitindo um repasse praticamente completo dos preços industriais para o varejo. Ele cita o caso do vergalhão de aço, que no IPA subiu 7,27% no mês e 19,92% no ano, e no INCC registrou altas de 6,34% em junho e 16,93% no ano.

Para muitas empresas do setor, o aumento acentuado no INCC já era esperado, principalmente pela incidência, neste mês, do reajuste salarial. Além disso, as companhias, que em muitos casos vêm crescendo a taxas superiores a 100% ao ano, já estavam percebendo um aumento nos custos por conta da demanda extremamente aquecida. "Eu acreditava em um aumento maior, este é o momento de pico do índice e já no mês que vem ele voltará aos patamares anteriores", afirma Luiz Verinaud, diretor de engenharia da incorporadora Agra.

Mesmo com a expectativa de um crescimento maior do que o registrado, a Agra já vem estudando a possibilidade de importar alguns insumos, principalmente os de maior valor agregado, para estancar o aumento dos custos de construção. "Ainda não fizemos nenhuma operação, mas estamos estudando a possibilidade de trazer cerâmica, louças e metais sanitários do exterior", afirma o executivo.

Apesar do crescimento acentuado, Verinaud não acredita que haverá um aumento na inadimplência ou mesmo uma retração na contratação de vendas. Para ele, a economia vem crescendo como um todo e aqueles que estão comprando apartamentos na planta estão conseguindo assimilar de forma adequada os reajustes. "É claro que se houver algum desequilíbrio temos formas de contornar a situação, renegociar as dívidas, os prazos estão bastante elásticos para isso", diz ele.

Na Agra, como na maior parte das incorporadoras e construtoras, o financiamento do imóvel durante a obra é feito pela própria companhia. Só após o cliente receber as chaves é que seu financiamento será realizado pelo agente financeiro. Na maior parte das vezes a construtora financia 20% do imóvel e os 80% restantes ficam com os bancos. Nesse primeiro período, quando o imóvel está sendo construído, a correção, quase sempre, é feita pelo INCC. "Mesmo com esse reajuste, que já era esperado, não acreditamos que haverá um aumento da inadimplência, em geral o comprador do imóvel deixa de pagar tudo, menos a prestação do seu principal bem", afirma Mônica Simões, diretora financeira da MRV, empresa com índice de inadimplência de cerca de 1,5%.

O maior temor das companhias é de um aumento sistemático da inflação e, conseqüentemente, do índice utilizado como indexador no financiamento direto das construtoras. "A coisa pode ficar muito complicada se tivermos um INCC a 15%, 16% no fim do ano", diz Wilson Amaral, presidente da Gafisa.

Para ele, mesmo que o índice feche o ano em 9% não haverá grandes impactos no setor, principalmente pela demanda ainda muito aquecida. "O que nos preocupa é um descontrole da inflação, isso pode fazer com que o setor volte a um patamar de quase estagnação, como foi por muitos anos, mas não acreditamos que isso acontecerá", diz ele, que, assim como a maior parte dos executivos do setor, não pensa em rever os planos de lançamentos de novos imóveis por conta do aumento do INCC.

Para Ana Maria Castelo, o aumento recente nos preços do setor de construção já deve ser repassado para parte dos contratos de construção no segundo semestre. No caso de obras realizadas com contratos que estipulam reajustes sem indexação com o INCC, como obras para indústrias e setor público, o efeito pode ser indireto. "A inflação mais alta de modo geral e a elevação dos custos poderá obrigar as construtoras a buscar a renegociação dos contratos, o que nunca é uma tarefa fácil", diz.

Para Ana Maria e Salomão Quadros, a inflação mais acelerada e a perspectiva de elevação dos juros pelo Banco Central podem levar parte dos consumidores a postergar a decisão de investir em imóveis nos próximos meses, mas o cenário ainda não é ruim o suficiente para causar um estancamento no setor imobiliário. Carlos Thadeu de Freitas Gomes Filho, economista-chefe da SLW Asset Management, lembra que os investimentos em ativos imobiliários tornam-se mais atrativos em períodos de inflação alta. o que pode manter em alta a demanda neste segmento.