Título: Lula quer reduzir demanda interna para 6%, mas segura novas medidas
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 20/06/2008, Brasil, p. A3
O Banco Central (BC) convenceu o presidente Luiz Inácio Lula da Silva a não adotar medidas adicionais para controlar a demanda. Na avaliação do BC, as ações tomadas até agora, entre elas o aumento da taxa básica de juros (Selic) de 11,25% para 12,25% ao ano, estão surtindo efeito. Ontem, durante reunião no Palácio do Planalto, o diretor de Normas do BC, Alexandre Tombini, informou que a taxa de expansão do crédito está caindo.
Lula convocou o encontro para debater o atual estado da economia. Além de Tombini, que representou o presidente do BC, Henrique Meirelles, que está fora do país, participaram da reunião os ministros Paulo Bernardo (Planejamento), Dilma Rousseff (Casa Civil), Reinhold Stephanes (Agricultura) e Guido Mantega (Fazenda), além do presidente do BNDES, Luciano Coutinho, do senador Aloizio Mercadante (PT-SP) e do economista Luiz Gonzaga Belluzzo.
No encontro, Tombini afirmou que as medidas adotadas para diminuir o consumo estão produzindo os resultados esperados. Ele sugeriu que o governo aguarde a maturação das ações já tomadas. Lula concordou. "Não adianta ficar tomando remédio o tempo inteiro sem esperar por seus efeitos", comentou o presidente, segundo um participante do encontro.
A preocupação de Lula é evitar que, no afã de reduzir a demanda para controlar a inflação, o governo aborte o atual ritmo de crescimento da economia, que no primeiro trimestre chegou a 5,8% em termos anualizados. "O governo quer calibrar o crescimento, trazendo-o da faixa de 6% para 5%, com a inflação sob controle", disse um ministro. Segundo ele, a idéia é puxar a expansão da demanda interna de 8% para 6% ao ano.
Desde o início do ano, quando a inflação começou a acelerar, o governo vem adotando medidas para conter a demanda. Além do aumento da taxa Selic, que deve continuar subindo nas próximas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom), o governo elevou a meta de superávit primário do setor público de 3,8% para 4,25% do PIB, uma iniciativa que reduz a demanda agregada da economia e, portanto, ajuda no combate à inflação; e impôs um compulsório de 25% nas operações de leasing de automóvel, decisão que enxugará R$ 40 bilhões do mercado em um ano. "Com essas ações, vamos dar um 'beliscada' no crescimento, em vez de o abortarmos", sustentou uma outra fonte.
A idéia de o governo não adotar novas medidas neste momento representa uma vitória do BC, que convenceu o presidente a combater a pressão inflacionária, neste momento, por meio da elevação dos juros e da contenção os gastos públicos. Dos participantes da reunião de ontem, três - Mantega, Belluzzo e Coutinho - defendem há tempos a imposição de restrições ao crédito. Mantega chegou a revelar publicamente a intenção de fazer isso, mas foi desautorizado pelo presidente Lula.
A preocupação de Mantega, Belluzzo e Coutinho é com a elevação da taxa Selic. Na avaliação deles, se o BC dificultasse a concessão de crédito ao consumidor, não precisaria elevar tanto a taxa Selic. Já a autoridade monetária considera que a melhor maneira de segurar a inflação é evitar, via aumento dos juros reais, a expansão da demanda agregada.
A taxa anual de expansão do crédito total da economia (livre e direcionado) chegou a 30,9% nos 12 meses concluídos em abril. O crédito ao consumidor cresceu, no mesmo período, 23,5%. Tombini explicou, no encontro, que esse crescimento ainda é muito forte, mas está desacelerando. Segundo um ministro, a questão do crédito foi discutida com Lula, mas "o tema não foi relevante". "O governo está monitorando a inflação, mas não está apavorado", assegurou esse ministro.
Numa apresentação que durou cerca de 30 minutos, o ministro Guido Mantega celebrou o fato de apenas dois países - Brasil e Canadá -, dos que adotam regimes de metas para inflação, estarem com a inflação dentro da meta neste ano - no caso brasileiro, o IPCA chegou a 5,58% nos 12 meses concluídos em maio, portanto, abaixo do teto da meta, de 6,5%.
A novidade é que Mantega agora concorda com a tese, defendida pelo BC desde o ano passado, de que, além da pressão exercida por alimentos e commodities, o excesso de demanda também está forçando a alta dos preços. "Houve uma convergência de diagnóstico na reunião", sustentou um participante.
Em entrevista, o senador Aloizio Mercadante disse que está descartada a adoção de "medidas heterodoxas" para combater a inflação, como vêm fazendo países como México (tabelamento de preços), Argentina (taxação de exportações) e Índia (proibição de mercado futuro de alimentos). Já Lula defendeu a regulação do mercado futuro de alimentos e disse que levará essa discussão aos fóruns internacionais, provavelmente, já à próxima reunião do G-8. Segundo Mercadante, Lula quer manter a austeridade fiscal , mas confirmou que haverá aumento do Bolsa Família. "É uma medida importante porque beneficia os mais pobres. O programa está há quatro anos sem reajuste."
O senador cobrou uma posição do governo em relação ao projeto que recria a CPMF (agora, CSS). Ele é contra a medida. "Nesta conjuntura específica, não me parece oportuno que a gente aumente despesas correntes e a carga tributária porque isso tem impacto na formação dos preços. Precisamos primeiro derrotar essa inflação", afirmou Mercadante. Segundo ele, não houve posicionamento na reunião sobre o assunto. (Colaborou Raquel Ulhôa, de Brasília).
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