Título: Argentina se prepara para pouso forçado
Autor: Rocha , Janes
Fonte: Valor Econômico, 23/06/2008, Internacional, p. A11

A economia argentina começou a aterrissar, depois de cinco anos consecutivos de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) a taxas de 8% a 9% ao ano. Os economistas estão prevendo um crescimento entre 7% e 7,5% para 2008 e entre 5% e 6% para 2009 - alguns falam até em 4,5% a 5% no ano que vem. As estatísticas oficiais mostram que o PIB cresceu 8,4% no primeiro trimestre de 2008, comparado com o mesmo período de 2007. Abaixo, portanto, dos 9,1% do último trimestre do ano passado.

A inflação crescente e a falta de investimentos são apontados como os principais motivos da desaceleração. O segundo trimestre certamente trará um percentual ainda menor do PIB, influenciado pela paralisação da produção agrícola e dos transportes de carga por causa dos protestos dos ruralistas contra um aumento de impostos decretado em março. A greve dos ruralistas e dos caminhoneiros durou 101 dias e terminou sexta-feira passada, depois que o governo transformou o decreto de aumento dos impostos em projeto de lei e enviou para discussão no Congresso.

Porém, mesmo que não houvesse paralisação, a verdade é que a economia do país já havia chegado ao seu limite. "Já usamos quase toda a capacidade ociosa da indústria e estamos perto de atingir o pleno emprego", afirma o economista Dante Sicca, sócio-diretor da consultoria Abeceb.com, para explicar que estes são os principais sinais de esgotamento do processo de crescimento.

Dados do Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec, o equivalente argentino ao IBGE) comprovam o que diz Sicca. O nível geral de utilização da capacidade instalada das indústrias argentinas saiu de apenas 50% em 2002, ano da crise, subiu constantemente, ultrapassou os 70% em 2004 e continua avançando, com alguns poucos recuos (veja gráfico). Em abril, alguns setores como refino de petróleo e produção de metais básicos se aproximaram de 100% de utilização de sua capacidade.

O problema não é o alto índice de uso da capacidade instalada mas o aumento do uso. A título de comparação, no Brasil a indústria apresenta um índice geral ainda maior, 83,1% em março segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI). Porém, ao contrário da Argentina, este índice está estável, indicando que as indústrias brasileiras estão crescendo sem aumento do uso da capacidade instalada. Isso significa, segundo a entidade, que estão sendo feitos investimentos na ampliação da capacidade atual de produção.

Os indícios de desaceleração da economia argentina são cada vez mais pronunciados e na semana passada atingiram a indústria automobilística, até então considerada a locomotiva da expansão econômica do país, junto com a indústria da construção - esta já havia começado a desacelerar no fim do ano passado.

A inflação começou a subir no fim de 2006 e de lá para cá, o governo tem tentado contê-la com um programa heterodoxo, baseado no controle de preços e em elevados subsídios diretamente a determinadas indústrias para neutralizar a alta dos custos. Recebem subsídios os setores de aviação, transporte coletivo urbano, alimentação, combustíveis e energia elétrica. Mas o sistema não tem dado resultados satisfatórios já que a maioria dos produtos de preços livres e até mesmo os controlados, continuou subindo.

Enquanto as estatísticas oficiais falam em 9,1% para o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) acumulado nos últimos 12 meses, a estimativa dos economistas independentes é de que a inflação está em 25% a 30% ao ano.

Ao derrubar o poder aquisitivo da população, a inflação deteriorou a confiança dos consumidores ao seu pior nível em cinco anos, segundo uma pesquisa mensal realizada pela Universidade Torcuato Di Tella. Em um trabalho conjunto com a Poliarquía Consultores, a universidade calcula mensalmente o Índice de Confiança do Consumidor (ICC). A última vez este ano que o ICC subiu foi em janeiro. De lá para cá acumula uma queda de 35,1%. De acordo com esta pesquisa, os entrevistados se dizem cada vez menos estimulados a comprar e vêem deteriorar-se sua situação pessoal e a do país do ponto de vista macroeconômico.

A desaceleração da economia argentina dificilmente "contagiaria" o Brasil como aconteceu em outras crises, mas teria impacto direto na balança comercial entre os dois principais sócios do Mercosul, afirma a equipe de analistas do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos do Banco Bradesco. Em um boletim divulgado sexta-feira, os economistas do banco alertam que a queda de um ponto percentual na taxa de crescimento na Argentina representa uma redução entre US$ 500 milhões e US$ 1 bilhão no saldo das exportações brasileiras.