Título: Estrangeiro volta a investir em título público
Autor:
Fonte: Valor Econômico, 24/06/2008, Finanças, p. C1

Os ingressos de capitais estrangeiros aplicados em títulos públicos voltaram a subir em junho, depois que o Banco Central aumentou os juros básicos da economia. Os ingressos líquidos contabilizados no mês chegam a US$ 631 milhões, pelos dados registrados até o dia 23, ante um movimento líquido de apenas US$ 36 milhões em maio.

O chefe do Departamento Econômico do BC, Altamir Lopes, afirma que a principal causa da retomada desse fluxo não é a alta dos juros básicos, mas sim o fim do efeito de antecipação do movimento de capitais causado pela recente taxação com Imposto sobre Operações Financeiras (IOF).

Em março, o governo anunciou com alguns dias de antecedência que iria taxar com uma alíquota de 1,5% os ingressos de capitais dirigidos a renda fixa dentro do país, sobretudo compra de títulos públicos. Investidores estrangeiros teriam aproveitado os últimos dias sem taxação para antecipar o ingresso de recursos. Devido a essa antecipação, nos dois meses seguintes, abril e maio, o ingresso ficou bem mais fraco. "Agora, passado o efeito da antecipação, os fluxos voltam ao normal", disse Lopes.

Mas, segundo ele, os ingresso não devem ser tão altos como os observados antes da imposição do IOF, quando tiveram uma média mensal de US$ 3 bilhões.

De qualquer forma, afirmou, é esperado que os ingressos de investimentos estrangeiros no mercado em renda fixa e no mercado acionário ganhem novo fôlego, em virtude da concessão de grau de investimento à economia por duas agências de classificação de risco, a Standard & Poor's e a Fitch. Isso fez com que o BC elevasse de US$ 12 bilhões para US$ 25 bilhões os ingressos esperados em ações e renda fixa em 2008, na sua projeção oficial para o balanço de pagamentos. "Fundos de pensão estrangeiros deverão aplicar mais em renda fixa e ações no país", afirmou.

De janeiro a maio, os ingressos de investimentos estrangeiros em carteira somam US$ 12,719 bilhões. Desse total, US$ 9,263 bilhões se referem aos ingressos de investimentos em renda fixa. Daqui por diante, disse Lopes, deverá pesar mais os ingressos de investimentos em ações. O BC também aumentou, de US$ 32 bilhões para US$ 35 bilhões, sua expectativa para o ingresso de investimentos estrangeiros diretos. A revisão se deve aos bons números divulgados até agora (nos 12 meses encerrados em maio, entraram US$ 38,035 bilhões) e às intenções de investimento reunidas em pesquisa feita pelo BC até agora.

Em maio, o ingresso de investimentos diretos somou US$ 1,313 bilhão. Os dados parciais de junho, até o dia 23, já registram US$ 2,2 bilhões, e a expectativa é que cheguem a US$ 3 bilhões até o fim do mês. Na nova projeção para o balanço de pagamentos, está contemplada também um ingresso de US$ 17 bilhões em capitais estrangeiros de curto prazo, com vencimento em até um ano. Antes, a projeção era zero - ou seja, as entradas seriam iguais às saídas. "O grosso desses capitais de curto prazo são financiamentos a importações, que se aceleraram neste ano", explicou Lopes.

O país também está registrando saídas maiores do que as esperadas de investimentos brasileiros direitos. Companhias brasileiras investiram US$ 7,575 bilhões no exterior de janeiro a maio. Os números parciais de junho, até o dia 23, registram a saída de US$ 1,250 bilhão, e a expectativa é que as saídas subam para US$ 1,450 bilhão até o encerramento deste mês.

O movimento de internacionalização das empresas brasileiras está sendo mais forte do que o esperado, por isso o BC decidiu aumentar de US$ 10 bilhões para US$ 18 bilhões o volume de investimentos brasileiros diretos esperados para 2008. Segundo dados divulgados ontem pelo BC, em junho, até o dia 21, o mercado de câmbio registra superávit de US$ 1,653 bilhão. O segmento comercial tem saldo positivo de US$ 2,638 bilhões, enquanto o financeiro apresenta um déficit de US$ 986 milhões.

O BC absorveu todo o saldo do mercado de câmbio. Suas compras de dólares no mercado são estimadas em US$ 1,911 bilhão, dos quais US$ 256 milhões teriam vindo dos bancos. O conjunto de instituições financeiras reduziu a sua posição comprada em moeda estrangeira de US$ 9,836 bilhões para US$ 9,578 bilhões entre maio e 21 de junho. As empresas rolaram o equivalente a 134% dos US$ 643 milhões em empréstimos de médio e longo prazo (mais do que um ano) vencidos em junho, até o dia 23. A taxa de rolagem dos papéis foi de 114% e, no caso dos empréstimos diretos, de 211%.

Nos últimos meses, as empresas privadas estão fazendo captações líquidas no exterior. Isso fez com que, em maio, a dívida externa bruta subisse de US$ 201,637 bilhões para US$ 202,979 bilhões. Mas o país segue credor externo líquido, em US$ 21,002 bilhões. Nessa conta, são abatidos da dívida externa as reservas, os créditos brasileiros no exterior e os haveres de bancos comerciais. (AR)