Título: DEM e PSDB minimizam desgaste provocado pela divisão em SP
Autor: Costa , Raymundo
Fonte: Valor Econômico, 25/06/2008, Política, p. A8
Separados após uma exitosa convivência de seis anos em São Paulo, PSDB e Democratas - o sucedâneo do antigo PFL - prometem reatar no segundo turno da eleição para a prefeitura, provavelmente contra a candidata do PT, Marta Suplicy. A reedição da aliança é considerada inevitável, nos dois partidos, por maior que venha ser o desgaste de uma campanha disputada por dois candidatos da situação: Gilberto Kassab é do DEM, mas na realidade está à frente de um governo do PSDB de Geraldo Alckmin, seu adversário na disputa. Um governo cuja equipe e projetos são os mesmos determinados pelo governador tucano José Serra, eleito para o cargo hoje ocupado por Kassab na eleição de 2004.
"Não há nenhum risco de não ocorrer essa reaproximação, é a tendência natural", diz o vice-governador Alberto Goldman. "O próprio Serra fará isso de um jeito ou de outro". A expectativa é a mesma do lado do DEM: "Não há dúvidas de que isso cria um contencioso, mas não significa o fim de nada. É uma turbulência que depois pode ser contornada", afirma o deputado José Carlos Aleluia (DEM-BA). Na Bahia, aliás, Democratas (ACM Neto) e tucanos (Antônio Imbassahy) concorrem com candidaturas próprias em Salvador.
Mas ao contrário de Salvador, onde PFL e PSDB sempre se morderam, em São Paulo as duas siglas co-habitaram sob o mesmo teto a partir da reeleição de Alckmin ao governo do Estado, na eleição de 2002, tendo na vice o pefelista Cláudio Lembo. O ex-governador Mário Covas, morto em 2001, a quem Alckmin sucedeu, era mais refratário à aliança tucano-pefelista, um desdobramento da coligação firmada em 1994 para a eleição de Fernando Henrique Cardoso presidente, tendo como vice o hoje senador Marco Maciel (DEM-PE).
Após a eleição da chapa Alckmin-Lembo para o governo do Estado, tucanos e pefelistas reeditaram a dobradinha na eleição de 2004 para a prefeitura de São Paulo com a chapa Serra-Kassab. Em 2006 o PSDB concorreu com chapa pura ao governo estadual - Serra e Goldman -, mas numa aliança com o DEM que indicou o empresário Guilherme Afif Domingos para o Senado. A ruptura se deu agora na eleição para a prefeitura de São Paulo, segundo Aleluia "por um capricho, um equívoco do ex-governador (Geraldo Alckmin)". Em nível nacional, PSDB e PFL romperam em 2002, quando Serra se candidatou a presidente numa composição com o PMDB.
De Serra a Fernando Henrique Cardoso, a maioria do PMDB nacional entendia que a reedição da aliança para a prefeitura, em São Paulo, seria a ordem natural das coisas, a lógica que culminaria com a candidatura de Geraldo Alckmin ao governo do Estado e a de Serra a presidente da República, em 2010. Alckmin foi desafiado pelo governador de Minas Gerais, Aécio Neves, a atrapalhar os planos de Serra, com quem concorre à indicação do PSDB para a disputa da sucessão de Lula. Mas aos colegas tucanos deu explicações bem menos complicadas para a insistência em se manter na disputa.
Antes da convenção que definiu o racha do PSDB e a candidatura a prefeito do ex-governador, Alckmin recebeu a visita de um aliado de Serra para uma espécie de última conversa. Não houve jeito. Segundo esse interlocutor narrou depois aos tucanos, Alckmin argumentou que não queria ser novamente governador. O que ele queria mesmo era ser prefeito de São Paulo - o que ainda não havia sido -, o ente político que considerava mais próximo do povo. O tucano ainda pensou em perguntar algo assim como "tudo bem, você quer, você gostaria. Mas o que é melhor para o povo"? Preferiu calar.
O visitante de Alckmin e a cúpula do PSDB desde cedo achavam que seria muito difícil reeditar a aliança com o DEM em São Paulo. A teimosia de Alckmin ficou conhecida em 2002, quando insistiu até o final em sua candidatura presidencial e emparedou José Serra, o nome da "ordem natural das coisas" naquela eleição. Além disso - os tucanos concordam -, Alckmin tem respeito no partido e na sociedade paulista: ele foi um governador de Estado muito bem avaliado. Era muito difícil que a solução, portanto, fosse outra, a não ser que ele fosse pessoalmente convencido do contrário.
A preocupação dos dois lados é como vai se processar a campanha, numa situação no mínimo inusitada: os dois, Kassab e Alckmin, são candidatos da situação, mas um deles fará campanha de oposição. Só pode ser Alckmin. Nas conversas com o PSDB o ex-governador minimizou esse detalhe. Enquanto Serra insinua que manterá certo afastamento no primeiro turno, Alckmin costuma dizer: "Kassab não é o meu adversário, o meu adversário é a Marta". Promete uma campanha "propositiva" e nos próximos dias instala um comitê para pensar soluções para a cidade.
Alckmin e seus aliados também reconhecem que Serra foi decisivo para evitar o acirramento entre kassabistas e alckmistas na convenção de domingo. Mas o fato é que o ex-governador já começou a demonstrar dificuldade para fazer uma campanha sem criticar o ocupante do cargo que reivindica e que, em última análise, executa uma política do PSDB. Ele já disse que a cidade está muito escura e que o trânsito é um caos. E a campanha ainda nem começou oficialmente, o que ocorrerá a partir de 1º de julho (a TV entra no dia 19 de agosto).
Os alckmistas, a exemplo dos serristas, também afirmam que não há hipótese de PSDB e DEM estarem em campos opostos no segundo turno. Além do adversário comum, Marta Suplicy, que já consideram na segunda rodada da eleição - "a menos que erre muito" - , PSDB e DEM apontam para a aliança nacional dos dois partidos na oposição ao governo Lula como mais um fator para que estejam juntos no segundo turno em São Paulo. Mas apesar dos manifestos bem intencionados, desde já é claro que o futuro da aliança - e da candidatura Serra - será mais duvidoso se o tucano vencer a eleição. Até mesmo sua relação com a Câmara será mais difícil que a atual, pois o PSDB deve reeleger praticamente os mesmos vereadores que tentaram barrar sua candidatura. (Colaborou Raquel Ulhôa)