Título: Indústria já espera ajuste no segundo semestre
Autor: Lamucci , Sergio
Fonte: Valor Econômico, 02/07/2008, Brasil, p. A3
A indústria manteve um ritmo de crescimento robusto em junho, encerrando o primeiro semestre em um nível elevado de produção. Para a segunda metade do ano, a expectativa dominante entre os empresários é de que haverá alguma redução no ritmo de expansão. O ajuste virá porque a base de comparação é mais elevada (a produção ficou mais forte no segundo semestre de 2007) e também pela influência de inflação e juros mais elevados. Alguns segmentos, porém, ainda apostam num avanço mais forte no segundo semestre, animados com as boas perspectivas para a agricultura e para o setor de petróleo, que se beneficiam com os preços das commodities.
No setor de aços planos, o primeiro semestre foi bastante forte, segundo o presidente da distribuidora Rio Negro, Carlos Loureiro. Segundo ele, a distribuição cresceu cerca de 21% de janeiro a junho em relação ao mesmo período de 2007. O ritmo de expansão foi maior no primeiro trimestre (24%) do que no segundo - estimado em 17,6%. Loureiro explica que isso se deve à base de comparação mais alta a partir de abril de 2007, quando o setor passou a crescer com mais força. Segundo ele, as vendas têm sido puxadas pela indústria automotiva, por bens de capital, com destaque para máquinas agrícolas, e pela construção civil. Loureiro viu um desempenho ainda forte em junho. Para ele, no segundo semestre, o ritmo de alta deve ser menor do que no primeiro, em grande parte devido ao efeito da base de comparação. Loureiro projeta alta de 16% a 17% na distribuição de aços planos em 2008.
O setor automotivo também não tem do que reclamar. Com um aumento de cerca de 30% nas vendas em relação a igual período do ano anterior, o segmento teve excelente desempenho no primeiro semestre. Entre as montadoras e as fabricantes de autopeças, a expectativa é de redução no ritmo de crescimento no segundo semestre, mas a perspectiva ainda é positiva. Conforme a Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), a produção de veículos deve subir 15% este ano, atingindo o recorde de 3,4 milhões de unidades. No mercado interno, a estimativa é que as vendas aumentem 24%, para 3,06 milhões de unidades. "O crescimento deve ser um pouco menor no segundo semestre, mas nós até agradecemos. Estamos trabalhando 24 horas por dia, sete dias por semana", diz Paulo Butori, presidente do Sindicato Nacional de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças). Ele explica que o setor está investindo R$ 1,6 bilhão este ano, mas deve demorar alguns meses para aumentar a capacidade.
Rogelio Golfarb, diretor de assuntos corporativos da Ford, espera uma diminuição da velocidade de crescimento no segundo semestre, por conta da base de comparação e dos efeitos do aumento dos juros. "Mesmo assim, estamos falando de crescimento forte este ano e não de estabilidade", frisou. Golfarb salienta que as vendas de máquinas agrícolas e caminhões devem seguir muito aquecidas, por conta do bom desempenho do setor agrícola, que é favorecido pelos preços das commodities em alta e pelo pacote de safra do governo. Por conta dessa expectativa, a Ford vai instalar pela primeira vez um novo turno em sua fábrica de caminhões. A produção subirá de 136 para 145 unidades por dia e serão contratadas 400 pessoas.
O primeiro semestre também foi bom para o setor de bens de capital. Segundo o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Luiz Aubert Neto, o faturamento cresceu 28% de janeiro a maio, na comparação com o mesmo período de 2007. No primeiro semestre, ele estima alta de 25%. Aubert espera crescimento de 10% a 12% no faturamento em 2008. "O faturamento deve crescer acima de dois dígitos por causa dos pedidos em carteira, mas as vendas já começam a piorar, o que deve impactar especialmente 2009", diz Aubert. Segundo ele, a partir de maio, as vendas caíram uns 10% a 15% em relação a abril. Ele atribui isso ao cenário de incerteza, com juros mais altos. De janeiro a maio, o número de empregados cresceu 11%, para 235 mil trabalhadores. As contratações devem continuar, mas em menor ritmo.
No setor de eletroeletrônicos, a expectativa é de arrefecimento do ritmo de expansão das vendas no segundo semestre, principalmente para utilidades domésticas. "O consumidor está preocupado com os efeitos da inflação", diz Humberto Barbato, presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). A alta dos juros pode prejudicar o desempenho do setor, embora os efeitos sejam menos preocupantes do que uma eventual redução nos prazos de pagamento. Barbato salientou que alguns segmentos devem continuar com excelente desempenho, caso de automação industrial e equipamentos industriais, cujas encomendas respondem à demanda dos setores de petróleo e mineração. A boa performance da construção civil também seguirá incentivando as vendas de material elétrico de instalação, como tomadas.
A Sherwin Williams, do setor de tintas, é outra empresa que teve um primeiro semestre positivo. De janeiro a junho, as vendas cresceram quase 9% em relação ao mesmo período de 2007, segundo o Mark Hyde Pitt, presidente da empresa no Brasil. Ele estima alta de 7% a 8% em junho. "Nós estamos começando a sentir o mercado um pouco mais receoso por causa da inflação e dos juros", diz Mark Hyde Pitt. Segundo ele, o mercado de tintas automotivas e tintas para a indústria vai bem, mas o mercado de tintas de residenciais começa a mostrar uma cautela maior. No primeiro semestre, a Sherwin Williams aumentou a força de trabalho em 2% a 3%. Daqui para frente, porém, deve manter estável o quadro de funcionários.
Já a Vilma Alimentos, de Minas Gerais, teve um primeiro semestre com desaceleração no ritmo de crescimento das vendas. Entre janeiro e junho, o volume comercializado foi 2,3% superior ao verificado no mesmo período de 2007, ficando abaixo dos 4,6% do primeiro trimestre. O comprometimento da renda com dívidas e os preços mais elevados dos alimentos explicam a desaceleração, segundo Cezar Tavares, vice-presidente de marketing. Para o segundo semestre, a Vilma espera melhora do mercado de alimentos. Além de ser um período típico de ampliação da demanda, por conta das festas de fim de ano e de mais dias úteis, Tavares acredita que os consumidores estão ficando mais cautelosos em contrair dívidas, ampliando a a compra de alimentos. (Colaborou Danilo Jorge, para o Valor, de Belo Horizonte)