Título: Superávit comercial cai 44,3% no semestre
Autor: Galvão , Arnaldo
Fonte: Valor Econômico, 02/07/2008, Brasil, p. A5
O ritmo do crescimento das importações já é maior que o dobro da velocidade de aumento das exportações. Os números da balança comercial no primeiro semestre, divulgados ontem pelo secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral, mostram que as médias diárias das exportações elevaram-se 24,8%, mas nas importações a variação foi de 51,8%. Analisando o que aconteceu nos últimos 12 meses, as vendas externas expandiram-se 18,7% - acima da previsão de 15,3% das exportações mundiais -, mas as compras elevaram-se 43,7%.
Nos primeiros seis meses, as exportações foram de US$ 90,64 bilhões e as importações alcançaram US$ 79,27 bilhões. O saldo comercial foi de US$ 11,37 bilhões, o que representa queda de 44,3% sobre o mesmo período em 2007.
Desde 1995, as importações não cresciam tanto no primeiro semestre, se comparadas com as do mesmo período do ano anterior. Em 2008, o aumento foi de 51,8%. Naquele ano, o salto foi de 92%, mas o regime cambial era o da paridade entre real e dólar, o que impede uma comparação mais adequada.
Apesar desses números, Barral afirmou que o governo "não trabalha com a hipótese de déficit comercial" e está preparando uma elevação da meta de US$ 180 bilhões para as exportações. Mas essa avaliação não encontra muito apoio em especialistas de comércio exterior. O vice-presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, alertou que as perspectivas para 2009 são de déficit comercial. "Estamos exportando preço e o pior é que não controlamos cotações de commodities. Tudo caminha para um saldo negativo no ano que vem", lamentou.
Com relação a 2008, Castro admitiu que os números são bons, porque as commodities agrícolas e minerais estão com preços muito altos e o país é um grande exportador. Mas advertiu que não há como saber quanto tempo vai durar essa fase. O dirigente da AEB citou números que levam a uma perspectiva preocupante. Os produtos básicos, de menor valor agregado, representavam 30,6% das exportações no primeiro semestre de 2007 e foram para 35,3% neste ano. No lado dos manufaturados, o caminho foi inverso. Eram 53,5% e desceram a 48,5%. "Desde 1981, os manufaturados sempre foram mais de 50% das vendas externas. Por outro lado, o último ano com participação mais alta dos básicos foi em 1984, com 32,2%."
Barral reconheceu que preocupa o avanço da participação dos produtos básicos, mas ponderou que, nesse processo, há muito do efeito preço. Ele reafirmou que o governo tem compromisso de se esforçar para agregar valor às exportações.
Na análise das importações no primeiro semestre, o secretário informou que foram dominantes as compras de matérias-primas, bens de capital, combustíveis e bens de consumo. Com relação à participação dessas categorias no total das compras no período, Barral disse que caiu de 13,3% para 12,5% a parcela dos bens de consumo. O maior aumento foi dos combustíveis, de 15,3% para 18,5%.
Ele procurou ressaltar que o aumento das importações não está sendo feito em detrimento da indústria nacional. Para ilustrar sua análise, citou dados da Fundação Getúlio Vargas (FGV) para dizer que vem aumentando o uso da capacidade instalada na indústria. Mais uma vez, há quem tenha opinião completamente diferente. O sócio da RC Consultores, Fábio Silveira, acredita que falta competitividade em muitos setores da indústria exportadora. Como exemplo, citou os segmentos eletroeletrônico, têxtil, calçadista, de produtos de madeira, automotivo e de autopeças. "O cenário externo piorou e vamos pagar o preço de políticas monetária e cambial erradas", criticou.
Silveira defendeu que o país adote políticas industriais mais agressivas, como fazem os concorrentes China, Estados Unidos, Índia e outros. "A alta dos preços das commodities vem sustentando, há anos, a balança comercial, mas a perspectiva é ruim. Nossa indústria ficará mirrada com esses juros reais altíssimos que continuam atraindo capital forte e valorizam a moeda. Do lado da política industrial, precisamos articular e adensar as cadeias produtivas, o que não existe", afirmou.
Barral e outras autoridades vão anunciar, amanhã, a estratégia brasileira de exportações para a China. Foi preparada uma lista de 600 produtos prioritários que têm maior potencial de crescimento. A meta é encerrar 2010 com US$ 30 bilhões exportados para aquele país naquele ano. No primeiro semestre deste ano, as exportações para a China cresceram 51,9%, fazendo com que esse país aumentasse de 6,7% para 8,2% sua participação nos destinos das vendas brasileiras. Mas no lado das importações de itens chineses, o período teve aumento de 73,1%, com destaque para aparelhos e componentes eletroeletrônicos, máquinas e equipamentos, combustíveis, automóveis, autopeças, instrumentos de ótica e precisão e químicos orgânicos.