Título: Navios americanos preocupam Lula e Chávez
Autor: Leo , Sergio
Fonte: Valor Econômico, 02/07/2008, Brasil, p. A7

A decisão do governo dos Estados Unidos de reativar a Quarta Frota, com navios de guerra e aviões para patrulhar o Atlântico Sul preocupa o governo brasileiro, revelou ontem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em entrevista a jornalistas sul-americanos, após o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, classificar a decisão americana de "ameaça" e acusar os EUA de planejarem o controle dos rios sul-americanos e dos recursos naturais da região.

"Agora descobrimos petróleo em toda a costa marítima brasileira, a 300 km da costa e queremos que os EUA expliquem qual a lógica dessa Quarta Frota, se vivemos em numa região totalmente pacífica", comentou Lula. "Nossa única guerra é contra a pobreza e a fome. Se fosse frota de navios de alimentos, de sementes, seria até razoável", ironizou o mandatário brasileiro. Ele informou que, antes mesmo de saber que Chávez mencionaria o assunto na reunião do Mercosul, havia pedido ao ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, para pedir explicações à secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice. "O ministro Amorim saberá obter uma resposta da Condoleezza", disse Lula, em tom amistoso.

A Quarta Frota foi criada na Segunda Guerra para enfrentar ameaças de submarinos alemães contra navios mercantes na região e está desativada desde 1950. Neste ano, o governo George W. Bush anunciou sua reativação, a pretexto de apoiar o combate ao terrorismo e ações humanitárias. Chávez, após enaltecer o "Mercosul político", comentou que uma das obrigações dos chefes de Estado da região seria exigir explicações dos EUA, que nomearam para comandar a frota um oficial com experiência em área de conflito, como o Vietnã.

Chávez, como de costume, deu o tom político a um encontro dominado por questões econômicas e comerciais. Propôs ainda aos governos do Mercosul criar um grupo para discutir a aliança das empresas petrolíferas da região, entre elas a Petrobras e a venezuelana PDVSA para formar uma única companhia, a Petrosul, e anunciou sua decisão de formar uma "estratégia petroalimentária", destinando US$ 1, de cada barril de petróleo vendido por mais de US$ 100, para formar um fundo destinado a programas estatais de fornecimento de alimentos na região.

As propostas de Chávez não geraram debate, em uma cúpula realizada em tom amistoso, mas que, segundo se queixou o ministro Amorim, deixou para o fim do ano o que o governo brasileiro considera a principal tarefa de consolidação do Mercosul neste ano: o fim das distorções na cobrança da Tarifa Externa Comum, que levam mercadorias importadas a pagar mais de uma vez o imposto de importação, ao ingressar por um dos países do bloco e passar para o território de um outro sócio.

Um dos instrumentos para eliminar a dupla cobrança é a criação de um regulamento único para as alfândegas, que não foi possível porque, contra a vontade dos parceiros de Mercosul, a Argentina insiste em incluir dispositivos que legitimem a aplicação de impostos de exportação, e o Brasil quer acrescentar dispositivos que favorecem a Zona Franca de Manaus.