Título: Demanda puxa agronegócios
Autor: Lopes, Fernando
Fonte: Valor Econômico, 07/07/2008, EU & Investimentos, p. D1
Com forte crescimento de receitas, lucros, patrimônio e margens no primeiro trimestre de 2008, o grupo de companhias diretamente ligadas ao agronegócio com ações negociadas na Bovespa tende a apresentar resultados igualmente sólidos no segundo trimestre, de acordo com analistas consultados pelo Valor.
Os balanços referentes ao período deverão começar a ser publicados nos próximos dias. As expectativas são positivas em razão da forte demanda por alimentos, no Brasil e no exterior, e suplantam os temores com a alta de custos, que pressiona sobretudo as margens de grupos de carnes como JBS-Friboi, Marfrig, Sadia e Perdigão.
"De uma maneira geral, a expectativa é que as empresas ligadas ao setor tenham tido um segundo trimestre forte, em linha com o primeiro", diz Celso Boin Júnior, chefe da área de análise da Link Investimentos. Para ele, o agronegócio apresenta fundamentos sólidos.
Levantamento do Valor Data baseado nos resultados de 24 empresas vinculadas ao agronegócios mostra que, de janeiro a março, o desempenho setorial foi bem superior à média. A lista não inclui grupos sucroalcooleiros como Cosan, que fecharam em 31 de março seus balanços anuais, em linha com a safra de cana.
A receita líquida do universo pesquisado somou R$ 15,691 bilhões, 97,7% mais que em igual intervalo de 2007. O lucro líquido das companhias do agronegócio totalizou R$ 447 milhões, valor 117,6% superior ao dos primeiros três meses do ano passado. A margem bruta caiu de 23,88% para 17,08% , mas a margem líquida média subiu de 2,59% para 2,85%.
Com as aquisições e projetos de expansão das empresas do setor, entre as quais JBS-Friboi, Marfrig, Minerva, Sadia, Perdigão, SLC Agrícola, BrasilAgro, Fosfertil, Heringer, Parmalat e Kepler Weber, entre outras, o patrimônio líquido consolidado do grupo subiu 87,9%, para R$ 19,104 bilhões, mas as dívidas totais totais saltaram 33,1%, para US$ 13,425 bilhões, conforme o Valor Data.
Boin afirma que é preciso ter cuidado com os fortes incrementos de receitas e patrimônios, sobretudo das empresas focadas em carne bovina, que em grande parte decorrem de aquisições e não significam necessariamente melhor saúde financeira. De qualquer forma, realça, são sinais que fortalecem a tendência do setor de se firmar como uma frente importante para os investidores. Isso apesar do "caso Agrenco", empresa de grãos listada na Bovespa que teve executivos presos em recente operação da Polícia Federal, e do recente tombo das ações da Laep Investments, que controla a Parmalat.
O fato de o governo ter lançado mão de medidas capazes de apoiar um crescimento de pelo menos 5% na produção da próxima safra de verão de grãos no Brasil, que assim deverá superar a marca de 150 milhões de toneladas, colabora para tornar o setor ainda mais atraente.
Em receita líquida, a maior empresa do setor com ações negociadas em bolsa é a JBS-Friboi, com R$ 5,859 bilhões no primeiro trimestre, 439,5% mais que de janeiro a março de 2007 graças às compras realizadas no exterior (América do Sul, Estados Unidos e Europa). A empresa, contudo, também apresentou a maior dívida total do grupo agronegócios no intervalo (R$ 4,767 bilhões).
O maior resultado líquido do setor de janeiro e março foi o da Sadia (R$ 214,9 milhões), seguido pela Fosfertil (R$ 128,4 milhões). A Fosfertil, maior produtora de matérias-primas para fertilizantes do país, encerrou o primeiro semestre com o maior valor de mercado dentre as empresas abertas ligadas ao agronegócio: em 30 de junho, eram R$ 12,942 bilhões, ante R$ 11,648 bilhões da JBS-Friboi.
Rafael Weber, analista do Banco Geração Futuro, também não vê motivos para que os resultados das companhias do agronegócio em geral tenham definhado no segundo trimestre deste ano. Para ele, grãos como soja e milho em alta favorecem empresas de "commodities puras", como a SLC, e impulsionam as companhias de adubos - "que estão no início da cadeia" -, como Fosfertil, Heringer e Yara.
Ainda que pressione as margens dos frigoríficos, a elevação das matérias-primas, segundo ele, não deverá prejudicar demais os grupos de carne bovina ou Sadia e Perdigão, que aos poucos vêm repassando a elevação dos custos para o varejo, mesmo que em ritmo mais lento do que ambas gostariam.
Atento à JBS-Friboi, Weber acredita que as operações da empresa nos Estados Unidos devem ter apresentado resultados melhores no segundo trimestre, já que as margens naquele país confirmaram as expectativas e melhoraram. Relatório do banco UBS Pactual atenta para a melhora. "As margens de mercado de carne bovina dos EUA terminaram o mês de junho altamente positivas, ainda maiores do que nos meses de abril e maio, que já tinham sido os dois melhores meses para a indústria desde janeiro de 2007." Para os frigoríficos de carne bovina em geral, outra boa notícia foi a reabertura da União Européia aos produtos dos Estados de Paraná e São Paulo.