Título: Inflação põe em risco bancarização e combate à pobreza, diz Santander
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Fonte: Valor Econômico, 08/07/2008, Finanças, p. C2
A aceleração da inflação na América Latina e no Brasil pode afetar o processo recente de redução da pobreza na região e o conseqüente aumento da parcela da população com acesso ao crédito e aos demais serviços financeiros (bancarização), segundo avaliação feita ontem pelo diretor de análise econômica para as Américas do banco Santander, José Juan Ruiz.
A América Latina, diz ele, passou pelo primeiro tempo da crise financeira mundial "ganhando de 1 a 0" e por isso o banco projeta crescimento de 4,7% para o Brasil esse ano e 4% no ano que vem, percentuais que ficam em 4,8% e 4,4% para a região, nos mesmos períodos. "O risco se chama inflação", resumiu. Ele ponderou que a taxa esperada para a região cresceu de 6,6% para 9,5% em apenas nove meses, uma deterioração de 45% nas expectativas para 2008.
Pelas contas do banco, o PIB per capita da região vai atingir, pela primeira vez, o valor de US$ 10 mil em 2008 - crescimento de mais de 30% em apenas cinco anos. Esse crescimento, aliado a políticas públicas de distribuição de renda, ajudou a tirar da pobreza 47 milhões de pessoas. Em 2003, 232 milhões de pessoas eram consideradas pobres na América Latina, ou 44,2% do total. Em 2007, o número de indivíduos em situação de pobreza recuou para 185 milhões - 35,1% da população. "A inflação afeta o crescimento e é particularmente perversa com a parcela mais pobre da população", acrescenta. E como o atual ciclo é fortemente concentrado em alimentos, o efeito sobre essa parcela da população é ainda mais perverso.
Para Ruiz, a redução da pobreza e o aumento da renda per capita estavam ajudando a consolidar uma classe média com acesso a serviços bancários na América Latina, processo que pode ser afetado pela alta de preços. O economista espera - e acredita - que os governos da região serão capazes de lidar com a inflação crescente, mas em um cenário de alta de preços superior a dois dígitos e com baixo crescimento por mais de dois anos (o que comporia um quadro de estagflação), 25 milhões de pessoas, "membros das novas classes médias, voltariam para uma situação de pobreza".
Os cálculos consideram que a renda mediana da região (medida pelo critério de paridade do poder de compra está em US$ 4.820, por ano, e a renda a partir da qual se considera a pessoa pobre é de US$ 2.870. "São níveis muito próximos, e a inflação pode corroer com facilidade essa pequena diferença", explica Ruiz.
O economista, contudo, considera que este não é o cenário mais provável. "Continuamos otimistas", disse ele, falando das perspectivas do Santander para a América Latina. "Mas é preciso fazer coisas", acrescentou, colocando, entre as ações, melhora da produtividade, rígido controle fiscal dos governos (com revisão de algumas políticas de subsídios e incentivos) e política monetária restritiva, como a adotada pelo Banco Central do Brasil.