Título: BC e Tesouro compraram US$ 2,443 bi em dezembro para recompor reservas
Autor: Alex Ribeiro
Fonte: Valor Econômico, 29/12/2004, Finanças, p. C2

O Banco Central e o Tesouro Nacional aceleraram as compras de dólares no mercado de câmbio. As aquisições da autoridade monetária para recompor as reservas internacionais somam US$ 2,443 bilhões em dezembro, até anteontem. O Tesouro absorveu US$ 2,166 bilhões em mercado para pagar compromissos da dívida velha. As compras de dólares pelo BC se intensificaram particularmente nas duas últimas semanas. Pelos dados parciais anteriormente conhecidos, que cobrem o período até 15 de dezembro, as intervenções haviam somado apenas US$ 300 milhões. Os dados foram apresentados ontem pelo diretor de Política Econômica do BC, Afonso Bevilaqua, que negou a intenção de evitar uma maior apreciação da taxa de câmbio. "É incorreto usar o termo intervenção para designar essas compras de dólares", afirmou. "Nosso objetivo é exclusivamente recompor as reservas, sem interferir na tendência de flutuação da taxa nem adicionar volatilidade ao mercado." O governo vem atuando em duas frentes no mercado de câmbio. De um lado, o Tesouro anunciou que pretende comprar um total de US$ 3,130 bilhões em mercado para honrar os compromissos da dívida externa velha (Bradies e pré-Bradies) e Clube de Paris que vencem entre dezembro deste ano e junho de 2005. Pela regra em vigor, o Tesouro pode comprar dólares até seis meses antes do vencimento de seus compromissos. A outra frente são as aquisições de dólares pelo BC. No início deste ano, em janeiro e fevereiro, a autoridade monetária comprou US$ 2,627 bilhões. Nos meses seguintes, interrompeu as aquisições devido à alta no câmbio provocada pelas incertezas sobre os juros americanos. Com as compras de dezembro, o volume absorvido pelo BC no ano chega a US$ 5,070 bilhões. Bevilaqua disse que, levando em consideração essas aquisições, as reservas brutas devem fechar o ano em US$ 52,4 bilhões, cerca de US$ 3 bilhões acima de dezembro de 2003. Pelo conceito de reservas líquidas (excluem os empréstimos do FMI), devem ficar em US$ 25,4 bilhões, valor US$ 8 bilhões maior do que o observado um ano antes. A aquisição de reservas, ao mesmo tempo em que reduz a vulnerabilidade externa da economia, tem duas repercussões negativas: amplia a liquidez da economia e representa um custo fiscal. Cada vez que o BC compra moeda estrangeira, injeta reais na economia. Estima-se que as compras de dólares em dezembro tenham expandido o volume de dinheiro na economia em pouco menos de R$ 7 bilhões. Em 17 de dezembro passado, o excesso de liquidez na economia era de R$ 58,483 bilhões. Para evitar que o excesso de dinheiro reduza os juros básicos abaixo da meta da taxa Selic, o BC é obrigado a enxugar esse excesso de liquidez com operações compromissadas com títulos públicos. Dessa forma, quando compra dólares para suas reservas, o BC fica de um lado com um ativo em moeda estrangeira e, de outro, com um passivo em moeda local. O custo fiscal do acúmulo das reservas é a diferença entre as taxas que remuneram os ativos em dólares (próxima à Libor, hoje inferior a 3% ao ano) e a que remunera os passivos (a Selic, hoje em 17,75% ao ano). O diretor do BC comemorou ontem a intensificação, nos últimos meses, do fluxo de investimentos estrangeiros diretos ao país - até anteontem, afirmou, o volume chegou próximo de US$ 18 bilhões. A expectativa anterior era de que os ingressos líquidos somassem US$ 17 bilhões.