Título: Brasil recupera terreno na exportação de álcool
Autor: Mônica Scaramuzzo
Fonte: Valor Econômico, 31/12/2004, Agronegócios, p. B8

A maior demanda por álcool no mercado internacional em 2004 mudou o perfil das exportações do segmento sucroalcooleiro - nos últimos anos muito dependentes do açúcar - e alçou o produto novamente a um lugar de destaque na balança comercial brasileira. Neste ano, a receita com os embarques de álcool anidro e hidratado devem alcançar, pela primeira vez, a marca de US$ 500 milhões, segundo estimativas da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica) e da consultoria Datagro. Confirmadas as previsões, o o salto sobre 2003 será de 226%. Estimulado pela alta do petróleo no exterior e pelos baixos preços praticados no mercado doméstico em 2004, diz Eduardo Pereira de Carvalho, presidente da Unica, o álcool nacional avançou em mercados importantes, como Índia e EUA, e ganhou espaço em países até então com baixas compras, como Nigéria, Coréia do Sul e Japão, onde as indústrias são as âncoras de consumo. Com isso, a participação do álcool no total exportado pelo setor sucroalcooleiro voltou a engordar e tende a crescer ainda mais, uma vez que os embarques de açúcar - carro-chefe das usinas - deverão aumentar em ritmo menor. Em 2004, as exportações de açúcar das usinas brasileiras deverão totalizar 15,9 milhões de toneladas de açúcar, ou US$ 2,37 bilhões. Confirmada a projeção, as exportações sucroalcooleiras totais deverão somar US$ 2,87 bilhões e o álcool responderá por mais de 17%, ante 7% no ano passado. Nos primeiros 11 meses do ano, as vendas de álcool ao exterior atingiram 2,19 bilhões de litros, 234% mais que nos 12 meses de 2003. A expectativa é que o volume chegue a 2,32 bilhões de litros no acumulado de 2004, com receita 226% maior (US$ 515 milhões). A Índia lidera o ranking dos principais destinos das vendas nacionais, com importações puxadas pelo estímulo do governo ao uso do álcool como combustível. Plínio Nastari, presidente da Datagro, diz que as exportações para a Índia somaram 451,3 milhões de litros de janeiro a novembro, 1.800% mais que em todo o ano passado. Para os EUA, foram embarcados 418,6 milhões de litros até novembro, um aumento de 554% sobre os 12 meses de 2003. Somados os envios ao Caribe, onde o produto é reindustrializado e reexportado, o total vendido ao mercado americano beira 700 milhões de litros. Os tradicionais mercados de álcool para fins industriais - bebidas, produtos químicos e farmacêuticos - também cresceram. Para a Coréia do Sul, o Brasil embarcou, de janeiro a novembro, 230,5 milhões de litros, um aumento de 395% sobre todo o ano passado. Na mesma comparação, as importações do Japão subiram 245%, para quase 197 milhões de litros, e as da Nigéria mais que dobraram e atingiram 95,4 milhões de litros. Para 2005, a expectativa é de manutenção ou de pequeno aumento do volume embarcado em 2004, conforme Carvalho. Ele lembra, porém, que o comportamento das exportações dependerá dos preços do petróleo. Para Nastari, se os preços do barril do petróleo se mantiverem acima de US$ 40, o mercado continuará atraente para o álcool. A Datagro prevê embarques de 2,4 bilhões de litros de álcool no ano que vem. O Brasil conseguiria, neste cenário, manter a tendência de recuperação de sua participação nas exportações globais, já verificada nos três últimos anos. Se já é líder nos embarques mundiais de açúcar, com mais de 40% de participação, neste ano o país estará no topo também em álcool, com 39,8% do total negociado no mercado livre, segundo Nastari. Na década de 80, auge do Proálcool, o Brasil era um grande exportador de álcool. Em 1984, chegou a exportar quase 1 bilhão de litros, boa parte para os Estados Unidos, que tentaram impor, sem sucesso, impor tarifas adicionais (além dos US$ 0,54 por galão existentes) para inibir a "invasão". No fim daquela mesma década, com a crise do desabastecimento, os embarques nacionais caíram para cerca de 100 milhões de litros anuais.