Título: Falta de profissionais qualificados não explica atraso latino-americano
Autor: Neumann , Denise
Fonte: Valor Econômico, 11/07/2008, Internacional, p. A11

A América Latina perdeu o direito de usar a falta de profissionais qualificados como uma desculpa para o baixo desenvolvimento tecnológico de suas economias. Na média dos anos de 2002 a 2006, Brasil, México, Chile e Argentina, entre outros países da região, formaram mais profissionais de ciências, engenheiros e de tecnologia da informação do que a Índia, proporcionalmente ao total da população. Para um grupo de acadêmicos e gestores públicos, reunidos ontem na cidade espanhola de Santander, em evento organizado pelo banco Santander e pela Universidade Internacional Menéndez Pelayo (UIMP), a agenda da educação é a mais importante para que a América Latina e o Brasil possam alcançar um crescimento sustentável no futuro.

O reitor do Instituto Tecnológico de Monterrey, no México, Rafael Rangel, compilou vários dados que comparam a Índia com países da América latina e de outras regiões e constatou que, ao contrário do que ele esperava (em função do forte crescimento deste país asiático), a aposta da Índia, proporcionalmente ao seu PIB e a sua população, não é muito superior à de países latinoamericanos. A Índia aloca 5% do seu Produto Interno Bruto (PIB) em educação, percentual inferior aos 6,4% do México e pouco acima dos 3,9% do Brasil.

"Não é o percentual de gastos que explica o crescimento de 9% da Índia e as taxas bem inferiores, entre 4%, dos nossos países", disse Rangel. "A questão é de qualidade e de enfoque", observou. O Instituto de Monterrey adotou um programa de planejamento de 10 anos e o desenha após ouvir 15 mil pessoas sobre quais são as competências que estão sendo requeridas para os profissionais do futuro.

O secretário-executivo adjunto da Cepal, Ernesto Ottone, avalia que a universalização do acesso à educação básica (acima de 90% na região e de 98% no Brasil) é uma boa notícia, mas apenas uma parte da solução. "É preciso transformar o processo de aprendizagem", defendeu. Na sua avaliação, é necessário uma maior e melhor qualificação dos docentes, tanto do ensino básico como do secundário e superior. E, para essa qualificação, defendeu, é necessário mudar o paradigma de muitos países no qual a remuneração dos docentes segue uma rota de idade e não de qualificação e competência, o que desestimula a formação dos jovens docentes.

No México, que tem uma realidade educacional muito excludente (apenas seis em cada 100 alunos da educação básica chegam à universidade e, desses, apenas 60% se formam), o governo acabou de firmar um acordo com o poderoso sindicato dos professores do ensino básico (com 1,3 milhão de associados). Essa aliança, relatou a secretária nacional (ministra) de Educação, Josefina Vazquez, tem cinco pontos de acordo, mas ela destacou dois.

No primeiro, o governo se compromete a melhorar a infra-estrutura das escolas (no interior há várias delas sem piso no chão e sem banheiros). No segundo, o destaque é a formação dos professores. O México ocupa as últimas posições no ranking do Pisa em matemática e espanhol, e em muitas escolas todos os alunos foram reprovados, contou Josefina. No México, o sindicato dos professores detinha o monopólio da formação dos professores e o governo conseguiu negociar para que todo professo possa fazer cursos de formação e mesmo graduação em qualquer uma das universidades do país.

No Brasil, o diretor de Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Petrobras, Gerson Fernandes, destacou que o ciclo de fortes investimentos na exploração de petróleo e gás vai exigir a formação de 112 mil profissionais especializados, sendo 5,9 mil engenheiros, e 15 mil na construção civil.

A jornalista viajou a convite do Santander