Título: Lavagna diz que efeito é mais político e cita CPMF
Autor: Rocha , Janes
Fonte: Valor Econômico, 18/07/2008, Internacional, p. A12
O veto do Senado argentino ao aumento de imposto proposto pelo governo tem um significado mais político que econômico. A opinião é do ex-ministro da Economia e ex-candidato à Presidência Roberto Lavagna, que compara a derrota de Cristina Kirchner com a do presidente Lula quando o Senado brasileiro derrubou a CPMF. Leia abaixo a íntegra da entrevista de Lavagna ao Valor. (JR)
Valor: Qual o efeito para a Argentina da derrota do governo?
Roberto Lavagna : A decisão tem um efeito político positivo porque permitiu ao Congresso Nacional voltar a ter um papel que havia perdido. Em uma democracia é sempre importante o equilíbrio entre os poderes. A Corte Suprema já havia mostrado sua capacidade de diferenciar-se, faltava o Congresso.
Valor: Como a Corte Suprema se diferenciou?
Lavagna : Tomaram importantes decisões em matéria de reajuste das aposentadorias, distintas do que queria o governo. Também na limpeza do Riachuelo (um riacho que passa no bairro da Boca), estabeleceu um prazo para limpar o rio que é um dos mais contaminados da capital. E, com o Congresso, isso ainda não tinha acontecido. Agora aconteceu, isso é bom porque ajuda a que as instituições funcionem melhor. Vocês têm experiência nisso, não?
Valor: Com o quê?
Lavagna : Com o imposto ao cheque, o Congresso [brasileiro] rechaçou a proposta do presidente Lula, não é verdade?
Valor: Sim é verdade e o governo teve que encontrar formas de recompor o dinheiro perdido...
Lavagna : Exatamente. Essas coisas são boas que ocorram na democracia, e obriga a que se busquem outros caminhos.
Valor: Que caminhos o sr. vê para o governo? Eles contavam com os recursos das retenções também para recompor o superávit primário, que caiu de 4,5% em 2005 para 2,3% do PIB no ano passado.
Lavagna : Sim, mas isso foi no princípio. Foram tantas as concessões [ao projeto original], para pagar compensações [aos pequenos agricultores] que o efeito original mudou completamente. No original, efetivamente isso implicava cobrir boa parte do enfraquecimento do superávit que ocorreu desde que deixamos o Ministério da Economia. Mas agora o governo já estava aceitando reformas, e o impacto já não era tão importante. Por isso, hoje o impacto é mais político que econômico.
Valor: Que se deve fazer para estancar o desaquecimento da economia argentina?
Lavagna : O primeiro a fazer é ocupar-se da inflação, que é o tema econômico e social mais importante e que o governo tem ignorado. Pelo contrário, tentou dissimular com índices [de inflação] nos quais ninguém acredita.