Título: Cristina sofre sua pior derrota em meio a desaceleração da economia
Autor: Rocha , Janes
Fonte: Valor Econômico, 18/07/2008, Internacional, p. A12

A votação no Senado foi seguida como decisão de futebol por pênaltis em Buenos Aires; telões mostraram o voto decisivo do vice-presidente Julio Cobos... Em sua pior derrota política, o governo argentino perdeu ontem a votação no Senado que transformaria em lei um decreto que aumenta os impostos sobre as exportações de grãos. A presidente Cristina Kirchner, que assumiu o poder há apenas sete meses, vai enfrentar seus próximos três anos e meio de mandato enfraquecida politicamente ao mesmo tempo em que a economia argentina dá sinais cada vez mais fortes de desaquecimento, pela primeira vez após seis anos de expansão acelerada do Produto Interno Bruto.

A votação, que consumiu 17 horas em discursos e debates no Senado, terminou empatado em 36 votos a favor e 36 contra. O desempate foi a grande surpresa: o próprio vice-presidente, Julio Cleto Cobos, votou contra o projeto. Pela Constituição argentina, o vice-presidente acumula o cargo de presidente do Senado e é o fiel da balança no caso de empates.

Cristina e seu marido, o ex-presidente Néstor Kirchner, que governam o país desde 2003, viram seu elevado capital político, construído em seis anos, se esvair em apenas quatro meses. Foi o resultado da histórica manifestação política dos ruralistas argentinos em repúdio ao Decreto 125 que instituiu mudanças na tributação das exportações de grãos.

Até 11 de março, quando o decreto foi assinado pelo ex-ministro da Economia Martin Lousteau, o casal Kirchner tinha ampla maioria nas duas casas do Congresso. A não ser pelos gritos de uma minguada oposição, eles ganhavam todas as votações relevantes, quase sem debate. Foi assim, por exemplo, que obtiveram uma autorização para remanejar 20% do Orçamento federal sem ter de dar satisfação ao Congresso, o que ficou conhecido como "superpoderes".

AP governistas lamentaram... Com seu poder hegemônico, o casal controlava, além do Congresso, o Judiciário e o mundo empresarial. Exceto por alguns empresários amigos que tinham acesso facilitado a bons negócios, privados e estatais, a maioria estava submetida a um secretário de Comércio com métodos pouco ortodoxos para segurar os preços e garantir o abastecimento interno.

Os ruralistas e o vice-presidente Cobos puseram um fim a essa forma de governar, como avaliou ontem um dos principais analistas políticos do país, Joaquim Morales Solá, no jornal "La Nación".

Senador por sua província natal, Mendoza, a terra das mais famosas vinícolas argentinas, Julio Cobos, entrou para a chapa de Cristina no ano passado dentro do princípio de "transversalidade" partidária defendida pelos Kirchner. Cobos pertence à União Cívica Radical (UCR), partido opositor histórico do Partido Justicialista (PJ, peronista) dos Kirchner. Ele era chamado de "radical K", como os muitos políticos da UCR que se passaram para o lado governista com os Kirchner.

Como vice-presidente ele era quase invisível. Só há um mês ele tornou pública uma desavença com Cristina. Cobos não concordou com a forma como o governo estava tratando os ruralistas, cuja reivindicação foi considerada pela Casa Rosada como "golpista". As poucas aberturas para negociação com os líderes do movimento agrário, em 120 dias de protestos, acabaram fracassando porque a presidenta se recusou a fazer qualquer revisão, por menor que fosse, nas alíquotas de retenção que os agricultores consideravam "confiscatórias".

AP manifestantes ruralistas celebraram. Depois de meses de impasse, foi Cobos que teve a idéia de enviar o decreto como projeto de lei para que o Congresso decidisse. A partir daí, sua imagem pública melhorou tanto que ele se animou a enfrentar mais a presidente e seu marido, que hoje é presidente do PJ. Decidiu receber em seu gabinete todas as lideranças ruralistas rechaçadas pela presidenta e os governadores das províncias de Santa Fé, Córdoba e Salta que estavam contra o decreto e foram considerados inimigos do governo.

"Estou de acordo com minhas convicções", disse o vice-presidente na madrugada de ontem, antes de dar o voto "não" e enterrar o projeto de seu próprio governo. O jornal "Página 12", governista, dava Cobos na manchete ontem com o título "O satânico Dr. No".

Para o economista Ricardo Delgado, gerente-geral da consultoria Ecolatina, Cristina tem agora de anunciar um pacote de medidas "contundentes e consistentes" para retomar o rumo do crescimento econômico e virar a página da fracassada disputa com o campo.

Os sinais de queda da atividade econômica aumentam a cada mês. Ontem foi a vez do único setor que continuava em alta velocidade de expansão, o de automóveis, apontar para baixo. A entidade que reúne as concessionárias de veículos, Acara, anunciou que as vendas de carros zero quilômetro despencaram nos primeiros 15 dias de julho, o que levou a uma revisão para menos da expectativa de vender 50 mil automóveis este mês.

Ricardo Delgado lembra que antes mesmo do começo da crise com os ruralistas, a economia vinha dando sinais de baixa ao mesmo tempo que as expectativas inflacionárias vêm subindo. "O problema econômico central é reverter essas expectativas negativas com políticas consistentes de preços, fiscais e monetárias", afirmou o economista.

Todos os países estão enfrentando alta de preços por conta da elevação das cotações internacionais dos alimentos e dos combustíveis. Mas, na Argentina, o problema é um pouco mais grave porque, apesar de também ser vítima de inflação importada, o governo simplesmente não reconhece a existência do problema.

Néstor Kirchner determinou uma intervenção no órgão nacional de estatísticas, o Indec, em janeiro de 2007 e a partir daí os índices de oficiais de inflação não refletiram mais o que se vê nas lojas e nos supermercados. Há suspeitas de que o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) esteja sendo manipulado. A Ecolatina, que faz uma pesquisa própria de inflação, calcula que o IPC real acumula alta de 28% nos últimos 12 meses e 14,5% de janeiro a junho de 2008.