Título: Google faz nova investida na área de software empresarial
Autor: Borges , André
Fonte: Valor Econômico, 18/07/2008, Empresas, p. B3

Alexandre Hohagen, presidente do Google no Brasil: pacotes serão pagos no formato de assinatura anual Um serviço gratuito, baseado em anúncios de publicidade on-line. Ao que tudo indica, o modelo de negócios teoricamente simples e que transformou o Google em uma empresa avaliada em US$ 156 bilhões está longe de perder o fôlego. Cada vez mais, os anunciantes têm escoado parte de suas verbas de propaganda para a internet, um meio que, em muitos países, já deixou de ser chamado de "mídia alternativa".

O gigante das buscas, no entanto, sabe muito bem que, com o tamanho que já adquiriu, fica praticamente impossível manter as taxas galopantes de crescimento que registrava no início da década. Hoje, mais que crescer, o Google esforça-se para defender seu mercado - cada vez mais cobiçado por Microsoft e Yahoo - e, paralelamente, avançar sobre o terreno das rivais. Um passo neste caminho acaba de ser dado.

Ontem, a empresa anunciou o início das operações da divisão "Google Enterprise" no país. A unidade, que venderá serviços e produtos somente para empresas, será viabilizada por alianças locais. A principal investida tem a parceria da Spread, que ficará responsável pela venda do chamado "Google Apps Premier", um pacote de sistemas de escritório que inclui ferramentas como editores de texto, planilhas de cálculo e correio eletrônico.

O "Premier" é uma derivação do Google Apps, produto gratuito lançado um ano e meio atrás pelo qual o usuário - em vez de instalar sistemas em seu computador - utiliza tudo pela internet e grava seus arquivos na própria rede (mais especificamente nos servidores do Google). A diferença é que, na versão empresarial, o usuário assina um contrato e passa a ter acesso a recursos como suporte telefônico em português, apoio em integração com sistemas empresariais, garantia anual de 99,9% de disponibilidade de serviço e 25 gigabytes (Gb) de espaço para contas de e-mail (na versão gratuita o limite é de 6 Gb). Pelo pacote, o usuário paga entre US$ 74 e US$ 80 por ano, preço médio cobrado pela companhia nos EUA.

"É muito mais barato que a concorrência", diz Alexandre Hohagen, presidente do Google no Brasil, numa referência indireta ao pacote Office, da Microsoft.

O sucesso do Google no mundo dos programas de escritório, no entanto, está longe de ser óbvio. A despeito de seu poder de fogo e da empatia que detém com seus usuários, a companhia ainda não conseguiu emplacar seus programas oferecidos pela rede, um mercado concentrado nas mãos na Microsoft. De seu lado, a fabricante do Windows tem revidado na área da publicidade on-line, território do Google. No mês passado, a Microsoft lançou um sistema de gerenciamento de publicidade na internet, batizado de Drivepm. Para colocar o produto no mercado, a Microsoft desembolsou US$ 6 bilhões pela empresa aQuantive, sua maior aquisição até hoje. O recurso, além de usar parâmetros básicos de análise, como sexo e idade, avalia o comportamento de compra do usuário, o que permite ao anunciante ou agência publicitária tomar decisões rápidas sobre ofertas e promoções na web.

Na semana passada, foi a vez do Yahoo lançar no país um serviço que avalia a audiência de blogs e sites para, então, vender anúncios. O recurso é resultado de US$ 680 milhões investidos na aquisição total da Right Media, depois de ter adquirido 20% da empresa, em outubro de 2006, por US$ 40 milhões.

O "Google Apps Premier" também não foi tirado da cartola. Segundo José Nilo Martins, gerente da divisão empresarial do buscador, boa parte dos recursos de gestão de e-mail que o pacote passa a oferecer é resultado da aquisição da companhia de segurança Postini, por US$ 625 milhões em dinheiro, realizada um ano atrás.

A empreitada do Google para diversificar sua receita - hoje 97% atrelada à publicidade - não ficará restrita aos programas de escritório. Com apoio da distribuidora Westcon, a companhia também vai vender no país dois equipamentos usados para buscas internas em empresas. O "Google Mini", com preço a partir de US$ 7,5 mil, faz busca e gerenciamento de até 50 mil documentos, enquanto o "Search Appliance", para até 500 mil documentos digitais, tem custo inicial de US$ 70 mil. O Google já vendia este segundo equipamento no país, numa parceria com a distribuidora Mude, mas a aliança terminou antes que o negócio engrenasse. As vendas do Search Appliance - atualmente usado por empresas como Lojas Americanas e Pão de Açúcar - não passaram de uma dúzia de equipamentos. Completa a oferta de produtos uma parceria renovada com a Apontador Maplink, empresa que cuidará da venda de versões profissionais dos programas Google Maps e Earth, que já são usados por companhias como Porto Seguro e Urban Systems.

Ontem, nos Estados Unidos, o Google anunciou que seu lucro líquido cresceu 35% no segundo trimestre de 2008, atingindo US$ 1,25 bilhão. O resultado de peso, no entanto, decepcionou os analistas, que esperavam mais da companhia. As ações, que recuaram 0,4% no horário regular de pregão em Nova York, perdiam 7% após o fechamento do mercado.