Título: Crise na Argentina derruba o principal assessor de Cristina
Autor: Rocha , Janes
Fonte: Valor Econômico, 24/07/2008, Internacional, p. A11
A derrota na briga com os agricultores continua causando baixas no governo da presidenta da Argentina, Cristina Kirchner. Desta vez ela perdeu seu principal colaborador, o chefe de gabinete Alberto Fernández, que pediu demissão do cargo ontem. Para o lugar dele foi indicado Sergio Massa, um advogado de apenas 36 anos, prefeito de Tigre, pequena cidade turística situada a 20 minutos do centro de Buenos Aires.
Desde que decretou o aumento dos impostos sobre as exportações de grãos, as chamadas retenções, em março, a presidenta argentina só viu minguar sua base de apoio entre deputados, senadores, governadores e prefeitos. Sua popularidade despencou de 56% para 20% segundo pesquisas de opinião pública divulgadas em junho.
Mas diversos analistas do cenário político argentino faziam ontem a mesma avaliação: a saída de Alberto Fernández foi a perda mais significativa entre os aliados de Cristina desde que ela tomou posse em dezembro de 2007. Para se ter uma idéia de sua importância, é como se o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, tivesse que aceitar a renúncia da ministra Dilma Roussef e do chefe de gabinete Gilberto Carvalho ao mesmo tempo.
AP ...Alberto Fernández como chefe de gabinete da Presidência na Argentina Fernández é amigo pessoal do casal Cristina e Néstor Kirchner desde os tempos da faculdade nos anos 70. Foi o chefe de gabinete de Néstor desde que ele tomou posse em 2003, coordenou a campanha de Cristina à presidência em 2007 e, com a vitória dela, foi mantido no cargo.
Mas Fernández sofreu um terrível desgaste com a queda-de-braço entre o governo e o campo pelo aumento das retenções. Quando os agricultores começaram os protestos, o agora ex-chefe de gabinete era o principal interlocutor. Participou das poucas reuniões de negociação com a função de colher as reivindicações e encaminhar as propostas entre as partes. Mas, enquanto ele negociava, Néstor Kirchner declarava guerra ao campo através de seus aliados e funcionários que até hoje obedecem diretamente a ele, e não a Cristina.
De um lado, Alberto Fernández tentava acalmava os ânimos. De outro, Néstor Kirchner desautorizava as propostas que Fernández construía junto com a presidenta. Além disso, o ex-chefe de gabinete se chocava freqüentemente com o outro homem forte do governo, o ministro do Planejamento e Infra-estrutura Julio de Vido, que também está com o casal Kirchner desde sempre e foi mantido no cargo quando Cristina assumiu.
São dois perfis completamente diferentes. Fernández é mais negociador; De Vido é considerado a eminência parda da chamada "tropa de choque" de Néstor Kirchner, encarregado de pressionar os amigos e inimigos com o poder da pasta mais valiosa de qualquer governo, a de obras e infraestrutura. Por fim o decreto de aumento das retenções foi exterminado quinta-feira passada no Senado com o surpreendente voto contrário do vice-presidente, Julio Cobos.
Ao deixar a Casa Rosada, Fernández estava física e emocionalmente esgotado pela pressão que sofreu nestes quatro meses. Sua saída poderia indicar uma "oxigenação" do gabinete de Cristina Kirchner - em boa parte herdado do marido -, uma reivindicação tanto de opositores quanto de aliados. O próprio Fernández sugeriu esta renovação em sua carta de renúncia, na qual, dirigindo-se a Cristina, diz que sai "com o saudável propósito de facilitar a seleção de sua equipe de trabalho". Mas a manutenção de De Vido (pelo menos até ontem), dá o sinal contrário, de que pouco ou nada deve mudar na condução política e econômica do governo argentino.
A trajetória política de Sergio Massa é curta, mas bem avaliada até por opositores. Casado, pai de dois filhos, entrou para a política em 1999, com apenas 27 anos de idade, quando foi eleito deputado da província de Buenos Aires pelo Partido Justicialista (PJ ou Peronista). Fez fama de bom gestor durante os cinco anos que passou no comando do Ministério da Previdência Social (Anses), no qual entrou a convite, em 2002, do ex-presidente Eduardo Duhalde (2002-03).
Massa foi quem conduziu a reforma da Previdência promovida por Néstor Kirchner em 2007, que abriu a possibilidade de que a população escolhesse entre continuar no sistema privado ou voltar à previdência estatal. Deixou a Anses no fim de 2007 para assumir como prefeito eleito de Tigre.
Em entrevista à Rádio Mitre, o ex-governador da província de Córdoba, José Manuel de la Sota, opositor ao casal Kirchner, disse que a saída de Alberto Fernández faz "pouca diferença". "Eu acho que importa pouco porque os funcionários importam pouco. Aqui tudo é resolvido pelo casal presidencial, os ministros simplesmente executam o que eles dizem".
A União Industrial Argentina soltou uma nota de apoio à escolha de Massa para a chefia de gabinete. "Os antecedentes do Sr. Massa frente à Anses e como prefeito de Tigre revelam sua capacidade política e técnica", dizia a nota.