Título: Totvs surpreende e compra a Datasul
Autor: Borges , André
Fonte: Valor Econômico, 23/07/2008, Empresas, p. B3

As duas maiores empresas nacionais de software, que nos últimos anos têm puxado a consolidação do setor no país, decidiram unir suas operações. Ontem, em comunicado enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Totvs informou que vai incorporar 100% das operações de sua rival Datasul. A transação é avaliada em aproximadamente R$ 700 milhões.

Pelo acordo, que ainda precisa ser aprovado pelos conselhos de administração das duas companhias, os acionistas da Datasul receberão R$ 480 milhões em dinheiro, além de ações equivalentes a 14,3% do capital da Totvs. Pelo valor de ontem dos papéis da companhia, isso equivale a aproximadamente R$ 220 milhões.

Juntas, Totvs e Datasul passam a ser, de longe, a maior fabricantes de sistemas de gestão empresarial do país, concentrando 40% desse mercado, com base em dados da pesquisa realizada pela Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP). É uma participação bem superior à de sua concorrente mais próxima, a alemã SAP, que fechou 2007 com 23% de participação de mercado.

Em receita líquida, a nova companhia atinge R$ 662,2 milhões contabilizados no ano passado, sendo R$ 439,6 milhões da Totvs e R$ 222,6 milhões da Datasul.

A transação pegou de surpresa a maior parte dos analistas ouvidos pelo Valor. "A união das empresas sempre foi uma hipótese considerada", diz Luciana Leocadio, chefe de análise da Ativa Corretora. "Mas a decisão surpreendeu, sim, mesmo sabendo que, na realidade, tratam-se de operações muito complementares."

A Totvs sempre se concentrou em vender seus pacotes de sistemas para operações de pequeno e médio porte. Isso explica porque a companhia soma hoje uma carteira com mais de 16 mil empresas. Por outro lado, a Datasul, que busca clientes de médio e grande porte, tem atualmente uma base de 3,2 mil clientes.

Para Alex Pardellas, da Banif Security, o acordo é um bom negócio para a Totvs, mas nem tanto para a Datasul. Segundo o analista, o valor da ação que ele recomendava em relatório para a Datasul era de R$ 30. "O valor que será pago pela Totvs é de R$ 24,42 por ação", observa. "Isso significa que a venda saiu 18% mais barato; é um mal negócio para os acionistas da Datasul." Pardellas diz, no entanto, que a "operação faz todo o sentido".

Segundo Marco Saravalle, analista da Coinvalores, o acordo permitirá que as empresas fortaleçam suas marcas nos clientes, um postura de marketing que costuma ser mais explorada por companhias multinacionais como Oracle e SAP.

O analista chama a atenção, no entanto, para os modelos comerciais diferentes com que as duas empresas costumam abordar o mercado. A Totvs trabalha com o formato tradicional de revendas para a distribuição de seus sistemas. Atualmente, a companhia conta com cerca de 200 canais de vendas no país. Já a Datasul tem um modelo baseado em franquias, que hoje chegam a 71 operações.

Por ter operações complexas e de modelos diferentes, Ricardo Tadeu Martins, analista da Planner Corretora de Valores, diz ter ficado surpreso com a rapidez com que o acordo foi fechado. "Eu esperava que a Datasul fosse criar uma resistência maior e que continuasse na competição por mais aquisições."

No comunicado enviado à CVM, a Totvs informou que a incorporação da Datasul será feita por meio da Makira do Brasil, uma empresa de capital fechado atualmente sob controle do grupo. A companhia não detalhou qual será o papel da Makira na transação, mas informou que, a partir dessa incorporação, os acionistas da Datasul migrarão automaticamente para a base de acionistas da Totvs.

Até o início da década, a Makira - marca que praticamente desapareceu do mercado - chegou a unir as então rivais Microsiga (embrião da Totvs) e Datasul. As companhias eram sócias na empresa, que tinha como especialidade a fabricação de sistemas de gestão para o setor de educação. Em agosto de 2001, a sociedade chegou ao fim. Agora, passados oito anos, a desconhecida Makira é o elo para integrar de vez as operações das duas empresas.

Procuradas, Totvs e Datasul disseram que não se pronunciariam, ontem, sobre a transação. Em comunicado, elas informaram que a assinatura dos documentos da operação deverá ocorrer nos próximos três dias. As assembléias com acionistas estão previstas para 30 dias a partir desta data.

As fabricantes nacionais de sistemas de gestão protagonizam um movimento de consolidação que ganhou impulso em março de 2006, quando a Totvs decidiu entrar na Bolsa de Valores de São Paulo. Resultado da compra da Logocenter pela Microsiga, a companhia adquiriu, um mês após a abertura de capital, a rival RM Sistemas, tornando-se assim a líder do setor.

Dois meses depois foi a vez da Datasul anunciar a sua entrada na Bolsa. Ao contrário da Totvs, que buscou aquisições de maior porte, a Datasul decidiu garimpar o pulverizado mercado de software, em busca de operações menores e mais segmentadas. Hoje, passados dois anos de sua estréia na Bovespa, a companhia sediada em Joinville (SC) traz no currículo um total de dez aquisições, duas delas anunciadas em um intervalo de apenas dois dias.

A união de operações também deverá fortalecer a internacionalização das companhias. "Essa movimentação representa um amadurecimento do setor de software no Brasil", comenta Djalma Petit, diretor de mercados da Associação para Promoção da Excelência do Software Brasileiro (Softex). A Datasul, que já tem presença no México e Argentina, ampliou recentemente sua estrutura no Chile e na Colômbia. A Totvs também concentra operações em diversos países, entre eles Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Colômbia, México, EUA, Porto Rico e Portugal.