Título: O Brasil para asiáticos
Autor: Pavini , Angelo
Fonte: Valor Econômico, 23/07/2008, EU & Investimentos, p. C8

O Brasil está invadindo os mercados asiáticos. Nos últimos meses, cresceu acentuadamente o valor investido em fundos sediados na Coréia e no Japão que aplicam em papéis brasileiros com recursos de aplicadores de varejo. No Japão, segundo dados da HSBC Global Asset Management, o saldo passou de pouco mais de US$ 1 bilhão em julho do ano passado para US$ 6 bilhões em maio deste ano. A esse valor deve-se acrescentar mais US$ 2 bilhões aplicados na semana passada em apenas um fundo do UBS Pactual de papéis de renda fixa brasileira.

Na Coréia, o cenário é parecido, com cerca de oito fundos criados do ano passado para cá e um patrimônio de US$ 1,009 bilhão. Somando os dois países, há um total de R$ 9 bilhões nos mercados locais, dos quais cerca de US$ 8 bilhões captados nos últimos 12 meses. Há ainda US$ 1,1 bilhão em um fundo de ações de América Latina do BNP Paribas na Coréia, dos quais cerca de US$ 600 milhões estão aplicados em Brasil.

O que chama a atenção é que a quase totalidade desses fundos tem aplicações baixas, entre US$ 100 e US$ 10 mil. Ou seja, são destinados a pequenos e médios investidores japoneses e coreanos, que procuram ganhar mais aplicando fora de seus países e que estão descobrindo o Brasil. E a maior parcela dos recursos das carteiras, por incrível que pareça, ainda está em ações brasileiras. A procura é tão grande que uma das maiores gestoras coreana, a Mirae, abriu recentemente escritório em São Paulo.

E esse valor deve aumentar em breve. O UBS Pactual detectou interesse por mais US$ 1 bilhão em aplicações no recém-criado fundo de renda fixa japonês, enquanto o Itaú espera captar US$ 2 bilhões com duas carteiras, uma de renda fixa e outra de ações brasileiras, em parceria com a Daiwa Securities.

Um dos pioneiros a levar o Brasil para o Japão, o HSBC, criou sua carteira em abril de 2006. Hoje o fundo tem US$ 1,4 bilhão e é o maior fundo de ações brasileiras do mercado local, diz seu gestor, Luiz Ribeiro. E o interesse japonês continua alto, conforme explica Kenji Yamamoto, um japonês que viveu no Brasil e que é responsável pelo atendimento aos clientes em Tóquio. Ele está no Brasil esta semana com um grupo de cinco representantes de corretoras e um de um banco japonês que distribuem as carteiras brasileiras. "Eles ficaram impressionados com a visita que fizemos à Embraer", diz ele, antecipando que o banco vai lançar mais um fundo de ações brasileiras e estuda um fundo de renda fixa Brasil.

Em fevereiro deste ano, o HSBC fez uma parceria com o coreano Shin Han Bank, o segundo maior banco da Coréia, para criar uma carteira de ações brasileiras também lá. A carteira tem agora US$ 87 milhões. "E a iniciativa partiu dos coreanos", diz Luiz Ribeiro.

Segundo Ribeiro, o interesse pelo Brasil tem a ver com a visibilidade dada pelo retorno da bolsa brasileira nos últimos anos. "Antes eles tinha exposição à China, Índia e Rússia, e agora estão procurando América Latina". Além disso, o Brasil continua interessante no médio e longo prazos. "Olhando o Ibovespa, hoje nossa relação Preço/Lucro (P/L) está abaixo de 11 vezes, o que indica que estamos mais baratos que China, com 13 vezes, e Índia, com 14", diz. Há, claro, a preocupação global de curto prazo por conta da inflação em alta nos emergentes e dos balanços dos bancos americanos. Segundo ele, os fundos asiáticos têm maior apetite por ações de matérias-primas, como petróleo, ações e mineração.

O Brasil tem duas forças a favor, que são o comportamento da Bovespa nos últimos 12 meses, bem melhor que o resto do mundo, e o grau de investimento, diz Luiz Sorge, diretor da BNP Paribas Asset Management Brasil. O BNP tem um fundo de ações do Brasil na Coréia, com US$ 200 milhões, além do América Latina, com US$ 1,1 bilhão, em uma parceria com o banco coreano Shin Han. No Japão, são duas carteiras em parceria com a Daiwa Securities, uma de ações brasileiras, com US$ 1,2 bilhão, e outra de renda fixa, com US$ 200 milhões. "O Brasil é uma história única, porque tem a atratividade em ações e em renda fixa também, pois os juros estão subindo para segurar a inflação e mantendo nosso juro real como um dos mais altos e atrativos do mundo", diz.

Outra gestora que desembarcou recentemente na Coréia e no Japão com fundos brasileiros é a americana Franklin Templeton. Segundo o gestor Frederico Santana Sampaio, a carteira coreana tem quatro meses. "É um processo inexorável", diz ele, que conta que a asset está conversando com instituições japonesas para criar uma carteira lá, também de ações. "Tivemos captação forte quando as commodities dispararam, agora, com a turbulência, diminuiu, mas não temos visto saques". O fundo é destinado ao varejo coreano.

Outra instituição que já conhece o interesse dos asiáticos pelos ativos brasileiros é a BNY Mellon Arx. A gestora fechou no ano passado parceria com o banco coreano Kookmin Bank para ser o co-gestor do KB Brazil Equity Fund e já prepara outra carteira do tipo para o mercado japonês. O fundo do KB Brazil é oficialmente gerido pelo braço de gestão da instituição coreana, a KB Asset Management, como requer a legislação de lá, mas possui lastro em ativos brasileiros e tem gestão com estratégia parecida com a do fundo BNY Mellon Arx Income, que já existe há muitos anos no mercado local.

O fundo foi lançado em outubro de 2007 e, em junho, contava com US$ 118 milhões. "É um fundo que é vendido a investidores de varejo lá e o interesse tem sido grande", conta Rogério Poppe, gestor de renda variável da BNY Mellon Arx. A meta inicial, de alcançar os US$ 150 milhões, deve ser alcançada antes de a carteira completar um ano, avalia. A partir dessa experiência, a gestora estrutura algo semelhante no mercado japonês. (Colaboraram Catherine Vieira, do Rio, e Danilo Fariello, de São Paulo)