Título: Commodities entram em rota de queda
Autor: Lopes , Fernando
Fonte: Valor Econômico, 25/07/2008, Especial, p. A14
Alexandre Mendonça de Barros, da FGV: agrícolas ainda têm risco climático Tudo indica que o pico deste ano dos preços das principais commodities negociadas no mundo finalmente ficou para trás, e que pelo menos até dezembro as cotações vão oscilar em torno de um eixo ainda elevado, mas inferior ao do primeiro semestre.
O cenário reflete uma linha de raciocínio que ganhou força entre especialistas a partir do início deste mês, quando boa parte desses produtos, petróleo à frente, começou a perder valor após máximas históricas consideradas pouco prováveis há dois anos.
Tal linha defende que as medidas adotadas em diversos países para combater a turbulência irradiada pelos problemas de crédito nos EUA, sobretudo a elevação das taxas básicas de juros, limitarão expansões econômicas (inclusive em países emergentes) e devolverão a outras aplicações financeiras, como renda fixa, maior atratividade ao investidor.
São dois, portanto, os fatores "baixistas" decorrentes das medidas: a desaceleração em si, que pode conter a demanda, e a redução das apostas de fundos que ampliaram sua participação nas bolsas de commodities em busca de um porto seguro em época de incertezas e juros mais baixos.
Dos dois fatores o que pesa mais nesse momento é o financeiro, já que muitas das commodities envolvidas, as agrícolas entre elas, têm oferta apertada e horizonte sólido para o consumo, sustentado pelo apetite da China e outros emergentes - que crescerá, em maior ou menor intensidade.
Os especialistas consultados pelo Valor alertam, contudo, que essa acomodação dos preços em um patamar menos explosivo não se dará sem nervosismo e grande volatilidade, motivada tanto pelas decisões dos fundos, que não abandonarão de todo as commodities, quanto por novidades ligadas aos fundamentos (fatores que definem o quadro de oferta e demanda) de cada mercado. E aqui todos ressaltam o poder de influência do petróleo, a mais negociada das commodities e base para as estratégias de compra e vendas dos grandes fundos de índices.
David Zylbersztajn, ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP) e hoje na DZ Negócios de Energia, prevê queda para o "ouro negro". Para ele, a desaceleração da economia mundial vai durar no mínimo dois anos, e as perspectivas são de aumento da produção de petróleo e gás. "Ninguém está falando que a economia americana se recupera em seis meses, e é preciso esperar os ajustes que serão feitos pelo próximo presidente", pondera. "Se a China é a fábrica do mundo e os EUA o shopping center, se os americanos não consomem a fábrica não produz".
Desde que os contratos futuros de primeira posição de entrega do petróleo Brent atingiram o recorde histórico de US$ 146,08 na bolsa de Londres, no dia 3 deste mês, o barril já recuou 13,44%. De lá para cá houve dias de altas e baixas, algumas superiores a 3%, mas a resultante aponta para baixo. É o mesmo comportamento que deverá prevalecer nos próximos meses.
No cenário em formação - que despreza barbeiragens na política monetária americana, como ressalva o economista Fabio Silveira, da RC Consultores -, ninguém espera que o petróleo caia tanto a ponto de voltar ao dois dígitos. A Brascan Corretora , por exemplo, projeta um preço médio de US$ 121 neste ano (em 2007 ele foi de US$ 72) e de US$ 120 em 2009.
"Não me parece que a desaceleração da demanda será forte o suficiente para que os preços voltem a patamares muito mais baixos", diz Felipe Cunha, da Brascan. Ele lembra que o aumento da oferta de petróleo depende de custos e de fatores locais, que poderão atrasar alguns projetos. Um conflito armado entre Israel e Irã, por exemplo, causaria um tremor que mudaria toda a lógica que parece se firmar.
Para o Brasil e outros países que têm na agricultura um setor mais pujantes, uma queda do petróleo, ainda que acompanhada por baixas de produtos como milho, soja e trigo (as commodities agrícolas mais negociadas), teria o efeito positivo de baratear os fertilizantes, diz Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE).
Contaminadas pelo petróleo, as cotações agrícolas tendem a seguir trilha descendente semelhante. "O movimento é racional. Se as commodities em geral tiveram uma alta extraordinária a partir da queda dos juros nos EUA, um aumento dos juros tende a tirar parte da sustentação", afirma Fabio Silveira. De qualquer forma as fortes oscilações vão continuar, conforme Antonio Sartori, da corretora Brasoja.
"No cenário mais provável, de uma desaceleração econômica não pavorosa, poderia haver uma redução de 5% a 10% nos preços nos próximos meses", acredita Silveira. Ele reitera que quedas mais fortes, e mesmo novas altas, são possibilidades reais, pois nem todos os remédios que o "mercado" espera que sejam receitados, em doses que o "mercado" acredita serem as corretas, de fato o foram até agora. O ritmo de alta dos juros nos EUA é um desses remédios.
Entre os fundamentos agrícolas, diz Alexandre Mendonça de Barros, do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da MB Agro, o clima no Hemisfério Norte nos próximos dois meses é primordial, já que acima da Linha do Equador as lavouras estão em desenvolvimento.
Foram as chuvas nos EUA, principal celeiro global, que catapultaram as cotações de milho e soja entre o fim de junho e julho - quando alguns analistas já previam que uma queda era inevitável -, um dos poucos períodos em que os fundamentos dessas commodities ajudaram a guiar o petróleo.
Não por acaso, portanto, o recorde histórico dos contratos futuros de segunda posição de entrega da soja na bolsa de Chicago foi também em 3 de julho. Até então, a alta acumulada em 2008 era de 35,8%; de lá para cá, a queda atingiu 16,74%. No milho, a alta foi de 64,6% até a máxima histórica de 26 de junho, e a partir de então a baixa chegou a 22,9%.
Milho e soja também estão ligadas ao petróleo por causa do avanço dos biocombustíveis. Mas mesmo a briga de energia e alimentos por grãos, que preocupa governos e órgãos multilaterais, perde fôlego com o petróleo menos caro.
Sem a mesma relação "física" com o petróleo, mas igualmente dependentes dele pelas proporções de preços que formam as carteiras dos fundos de índices, as commodities metálicas tendem pelo menos a se estabilizar, ainda que os analistas desses mercados não se arrisquem a prever quedas.
Só que, com exceção de zinco e chumbo, que têm uma folga maior entre oferta e demanda, os demais metais cotados na bolsa de Londres (LME) também vêm perdendo valor. Ainda assim, sustentam especialistas, não há nada que aponte cobre e alumínio abaixo de US$ 7,5 mil e US$ 2,8 mil a tonelada , respectivamente.
Nos dois casos, mesmo que a demanda recue, as apostas são de ofertas apertadas nesta segunda metade de ano, pois a China restringiu a produção de alumínio por falta de energia e a Codelco, do Chile (maior produtora de cobre do mundo) alertou que a produção poderá cair 4,2% para 1,6 milhão de toneladas em 2008, por causa de greves e do envelhecimento de minas. Os dois metais alcançaram preços históricos nesse mês. O cobre chegou a US$ 8.812 a tonelada também em 3 de julho - o que só confirma a influência dos fundos de índices -, enquanto o alumínio foi a US$ 3.341 no dia 11.
Luiz Manreza, do Standard Bank, diz que os recordes foram influenciados por China e Chile, mas concorda que o "efeito petróleo" foi mais importante. "Os fundamentos estão estáveis, por isso as oscilações dos metais se acentuam conforme o petróleo e o dólar".
O níquel, como o trigo na frente agrícola, já vinha em queda por conta de seus fundamentos e acumula desvalorização de 27,9% em 2008. Ocorre que os produtores de aço inoxidável estão segurando as compras da commodity, antecipando uma queda ainda maior nos preços.
Fundos de hedge também vêm formando posições a descoberto em níquel, o que tem contribuído para as pressões de baixa sobre os preços. Do lado da demanda, o grande mercado comprador e mantenedor dos preços para o segundo semestre segue sendo a China, que usou boa parte de seus estoques no primeiro semestre.
Na indústria do aço e suas matérias-primas, como ferro e carvão, o cenário é de pouca mudança. Relatório do Credit Suisse aponta que "teremos de ter o PIB chinês crescendo a menos de 7% e o do resto do mundo a menos de 1% para ver qualquer risco significante no curto prazo no mercado de aço".